Pool da Copa América: A teoria do 'roubo' esconde o pobre futebol da Celeste
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Por Ignacio Chans
O Uruguai amanheceu ontem indignado. Foi um sentimento similar ao de um ano atrás, quando da punição a Suárez pela mordida no italiano Chiellini. O país futebolístico voltou a sustentar que o Uruguai havia sido eliminado do mapa da Copa América após a derrota para o Chile, e que uma mão negra decidiu que não era negócio que o time local ficasse fora. O dedo do chileno Jara entra as nádegas de Cavani, e a expulsão do atacante (tocou a cara do defensor e este se atirou fulminado ao chão) despertou a mesma onda de indignação coletiva.
De nada valeram os argumentos de que o Uruguai soube aplicar artimanhas similares em sua história futebolística. Quem sabe não sejam tão comuns os dedos nas partes íntimas, porém sim outros infinitos truques escondidos atrás do conceito de "malandragem criolla", e de que o futebol é dos "espertos".
Bom seria saber que tivesse ocorrido se, no lugar de Jara, isso houvesse sido feito por um uruguaio. Muitos asseguram que nunca tivesse ocorrido. "O negócio do dedo fizemos toda a vida", disse todavia Enrique "Pelado" Peña no programa Viva La Tarde. Ele é um tipo que de "vivência criolla" sabia muito.
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O Uruguai provou do seu próprio remédio. Nem sequer valeu outra máxima do campo: essa de "o futebol é para homem", ou que as coisas do futebol ficam dentro do campo. Que, aliás, foi o argumento usado quando Suárez mordeu Chiellini. Que as polêmicas terminam quando o juiz apita, e quem faz o contrário é um chorão. E que, inclusive, se parece muito com a atitude com que o time joga: correr, chutar sem olhar para os lados. Poderão compactuar ou não com a máxima, e a tarefa dos dirigentes ser[a fazer as reclamações correspondentes sobre Ricci, Jara e Cavani. Porém o certo é que esse mandamento ontem se fez em cacos.
Um após outro, e apoiados pelas declarações dos jogadores e do treinador, torcedores e jornalistas falaram de roubo. E voltaram a colocar uma venda nos olhos, como em 2014.
O mais perigoso dessa cegueira coletiva é o que ela oculta: o paupérrimo futebol que mostrou a seleção no torneio, que esteve mais próximo do fundo do poço sob o comando de Tabárez. Ontem poderia ter sido um bom dia para uma discussão sobre que tipo de futebol deve jogar a seleção. Porém não, o Uruguai boleiro ficou na cômoda posição de "nos roubaram".
Essa mania de perseguição serviu como refúgio de argumentos conhecidos e cômodos: a entrega, o esforço, o conceito do "pequeno mata-gigantes", que luta contra seu pouco atrativo comercial, argumento que é rompido ao analisar as campanhas na Copa do Mundo de 2010 ou na Copa América de 2011.
Todos esses conceitos, que ajudaram a construir o futebol uruguaio, podem estar começando a fazer mal à Celeste. Quando os resultados vêm, são o combustível que explica o "milagre". Porém quando são adversos, se transformam em uma cantiga que se repete sem raciocinar, até dar pé a qualquer teoria que inclua o conceito de que o mundo se resume a uma luta contra três milhões de uruguaios.
Não me incluam nesta cantiga. Eu quero um time que defenda com alma, sim, porém que se anime a jogar mais. E que assuma seus próprios erros, antes de criticar os demais.
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