Montillo: 'Vejo meu filho e tiro forças para jogar'

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Entrada do Cruzeiro em campo e, em todos os jogos, o seu camisa 10 repete o mesmo ritual: pé esquerdo primeiro, sinal da cruz e dois beijos para o céu. Pouca gente reparou até aqui, mas assim como o bom futebol mostrado, estes movimentos estiveram presentes nos 15 jogos que o argentino Walter Montillo fez até agora no Brasileirão.
Os beijos para o céu representam a relação do argentino com a sua família. Um é para o tio e padrinho Daniel Montillo, que faleceu antes de ele tornar-se atleta.
– Ele tinha adoração por futebol. Quando eu era criança, torcia para o River Plate, porque ele me levava aos jogos – contou ele, que depois virou torcedor do Lanús.
Assista à entrevista com argentino Montillo
O outro beijo para o céu é para o avô Alsento Caffoz, que morreu em 2007, quando defendia o Monarcas Morelia, do México.
Mas a relação familiar do craque do Brasileirão até aqui, segundo a avaliação do LANCENET!, vai mais além. Nas costas, a imagem tatuada do filho mais velho, Valentim. A criança de 2 anos e meio é carregada também no peito, por meio da corrente de ouro.
Santino, filho caçula do jogador com sua esposa, é uma criança especial. Nasceu em março com síndrome de down e com um sério problema no intestino. E é na luta do filho para viver que o camisa 10 encontra a inspiração para jogar.
– Ele me dá muita força. E faço tudo pelos meus filhos – avisou.
O "papai" Montillo não chegou ao Cruzeiro por acaso. Já vinha sendo observado desde a Libertadores-2009, mas, antes da Copa do Mundo, era o terceiro nome de uma lista que contava com nomes como Juan Román Riquelme, do Boca Juniors, e Diego Souza, hoje no rival Atlético-MG. A aposta certeira e os R$ 6,2 milhões investidos no argentino mudaram também o rumo da Raposa no Brasileirão, na ponta há duas rodadas.
Conheça mais sobre Montillo, de 26 anos, argentino, que não joga pela Argentina e virou a sensação do futebol brasileiro:
LANCENET!: Como aconteceu essa sua chegada ao futebol brasileiro?
Montillo: Acho que o jogo do Flamengo foi importante para que todos me conhecessem, porque se você não disputa torneios internacionais, como a Libertadores, fica mais complicado. As pessoas não têm o costume de assistir ao futebol chileno. Fui bem naqueles jogos (contra o Fla), passei a interessá-los também, mas depois apareceu o Cruzeiro na negociação. Foi uma surpresa, porque tudo foi muito rápido e em duas semanas eu já havia acertado tudo.
LNET!: Você fez um golaço também...
M: Foi o gol mais bonito da minha carreira (por cobertura, no goleiro Bruno) e o mais importante, porque até então eu nunca tinha disputado uma semifinal de Libertadores.
LNET!: Você se surpreende com o seu momento no Cruzeiro? Sua adaptação foi rápida e hoje você é o craque do Campeonato Brasileiro!
M: Acho que as coisas estão se saindo bem, não só para mim, mas para todos os jogadores. A gente percebe um empenho muito grande de todos, quando isso acontece, as individualidades de cada um acabam aparecendo. Mas é claro que a adaptação foi bem rápida, melhor do que em outros clubes que passei. Quando cheguei no Chile, demorei mais.
LNET!: Conversou com alguém antes de deixar o Universidad de Chile?
M: Conversei com Sorín (argentino, ex-Cruzeiro) e ele falou sobre a estrutura, a seriedade dos dirigentes, e obviamente eu sabia que era um time grande. Creio que fiz a coisa certa. Depois que cheguei ao clube, conversamos uma ou duas vezes, mas não com frequência.
LNET!: O sonho de ser convocado pela primeira vez também pesou nesta decisão de vir ao Brasil?
M: Quando houve a chance de jogar no Brasil, esse pensamento cresceu, porque o futebol brasileiro é muito mais competitivo do que o chileno, sem desmerecer o futebol de lá. Aqui tem mais equipes grandes, com mais estrutura e cresce a esperança de que, se fizer as coisas certas, posso ser convocado.
LNET!: Depois de 15 jogos em campo no Brasileirão, sentiu que a marcação sofreu alguma mudança em você?
M: Em alguns jogos percebi que tinha marcação individual, porque a bola estava do outro lado e tinha um jogador comigo a todo momento. Mas acho que é a lei do futebol, você precisa fazer as coisas da melhor forma para acabar com isso. E se o técnico adversário quer desta forma, faz parte. Mas, tenho notado, claro, que a marcação cresceu com relação aos primeiros jogos.
LNET!: Três argentinos se destacam como os principais jogadores de meio de campo no Brasileirão: você, Dario Conca e D'Alessandro. O que acha disso? Surpreende?
M: Na Argentina, na verdade, se perdeu um pouco do camisa 10. Lá, cada vez menos temos equipes que jogam com o 10. Guiñazu (argentino) disse que no Brasil se respeitam o jogo bonito e as individualidades. Na Argentina se usa muito a formação com duas linhas com quatro jogadores, e o camisa 10 se perde. Aqui se joga de uma forma diferente e, ainda bem, seguimos tendo lugar para jogar.
LNET!: Qual a melhor maneira do time jogar para o camisa 10?
M: Depende do treinador, alguns jogam com três no meio de campo, mais o camisa 10. Outros preferem usar três atacantes, mais o camisa 10. E outros técnicos vão variando um pouco em cima disso. Aqui sempre montam algum esquema para este atleta poder jogar.
LNET!: No Brasileirão, algum jogador chamou a sua atenção até agora?
M: Sempre gostei muito de Ronaldinho, ele joga fora do Brasil, mas é um jogador que sempre parei para assistir jogar. Aqui no país, gosto muito do camisa 10 do Santos (Ganso), é mais lento do que Ronaldinho, mas controla muito bem a bola.
LNET!: Inspira-se em algum jogador?
M: Tenho a inspiração em jogadores verticais, quando eu era mais novo eu ficava observando (Leandro) Romagnoli jogar (meio de campo do San Lorenzo-ARG, de 29 anos). Gostava de observar (Pablo) Aimar, também. Claro que procuro ter o meu estilo próprio, mas se eu puder copiar alguma coisa de alguns atletas, que sejam aqueles que possuem o estilo próximo do meu.
LNET!: Como lida com a chance de conquistar o Brasileirão? Há duas rodadas o Cruzeiro está na ponta.
M: Temos de manter a mesma humildade de antes, até porque o campeonato muda bastante. Acho que, se continuarmos vencendo alguns jogos em sequência, podemos manter a distância para o Fluminense, ou aumentar um pouco mais. Se conseguirmos isso vai ser possível pensar em título. Antes disso, é complicado.
LNET!: Acompanha alguma equipe?
M: Eu gostava muito de assistir o Corinthians jogar, mas muitos atletas se machucaram, e foram jogadores que jogam muito bem, como Jorge Henrique e outros importantes. O Santos também tem um time muito bom, fomos jogar contra eles e perdemos por 4 a 1, sofrendo dois gols rápidos. A verdade é que todas as equipes do Brasileirão têm bons atletas, são muitas opções.
LNET!: Pelo visto você gosta bastante de assistir jogos. Assiste tudo?
M: Eu gosto bastante de esportes. Acompanho todo o Campeonato Argentino, não só os jogos do Lanús, que é o time que eu torço. Atualmente estou torcendo mais para a Universidad de Chile, porque tenho muitos amigos lá, Sempre mantenho contato com eles, e costumo assistir aos jogos com meu filho, que adora.
LNET!: Você tem uma relação próxima com os jogadores lá, não é?
M: Sim, eu converso sempre com (Maurício) Victorino (zagueiro, uruguaio). A minha comemoração nos gols saiu de uma conversa com ele. Eu disse que faria aquela comemoração se marcasse um gol, os gols começaram a sair e agora não posso mudar, não é? Se eu continuar marcando gols, vou assim até acabar o Brasileiro.
LNET!: Qual foi seu melhor jogo?
M: Acho que foi contra o Botafogo (empate em 2 a 2, no Engenhão), pelos dois gols que marquei e pelo segundo, que foi bonito.
LNET!: Fala bem o português já?
M: Não... Eu não tenho mais dificuldade para entender, mas não falo quase nada. Minha esposa tem uma professora particular, mas eu viajo tanto, quase não fico em Belo Horizonte, que nem daria tempo para ter algumas aulas.
LNET!: Está cansado, por causa da maratona de jogos do Brasileiro?
M: É estranho, foram 17 jogos até agora desde que cheguei, fiquei fora de dois por algumas dores, mas acho que aguentei bem. São muitas viagens, porque os jogos em casa são fora da capital (Sete Lagoas ou Uberlândia).
LNET!: Teve muitas lesões?
M: A mais grave foi no ombro, rompi alguns ligamentos, após sofrer uma falta por trás e cair de mau jeito. Tive de operar e fiquei dois meses fora, mas só.
Colaborou Sonia Freitas
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