Jaqueline: 'Senti que os chefões torciam contra'

- Matéria
- Mais Notícias
A derrota brasileira na final do Mundial Feminino de Vôlei, no último domingo, deixou atletas e torcedores tristes e desapontados. Mas, de acordo com a ponteira Jaqueline, vice-campeã no Japão, algumas pessoas devem ter gostado do fato, além das campeãs russas: os dirigentes da Federação Internacional de Vôlei (FIVB).
Durante o Mundial masculino, disputado na Itália entre setembro e outubro, o presidente da FIVB, Jizhong Wei, chegou a dizer que o tricampeonato obtido pelos comandados do técnico Bernardinho "não era bom" para o vôlei.
A "reclamação" do chinês reside no domínio que a equipe de Giba obteve no cenário internacional, e que poderia ser repetida pelas brasileiras, atuais campeãs olímpicas. Mas a Rússia impediu, ao virar a final em Tóquio e vencer por 3 a 2.
– Quando estava no Japão, eu senti que as pessoas estavam torcendo contra, principalmente os grandes chefões da federação (FIVB). Isso deve prejudicá-los em
alguma coisa, mas para nós, isso só traz felicidade. Para que o Brasil fique fora do pódio, só se nos tirarem do campeonato – disse Jaqueline, que visitou ontem a redação do LANCE! em São Paulo.
L! na Área bate um papo com a campeã olímpica Jaqueline
A jogadora, porém, não quis relacionar a suposta "má vontade" da FIVB em relação ao Brasil à arbitragem de Kim Kun-Tae. O time brasileiro reclama que foi prejudicado no quinto set contra a Rússia – com 7 a 6 a favor do Brasil, o sul-coreano marcou fora uma bola que teria caído dentro da quadra russa.
– Sou meio suspeita para falar. Nós vimos que foi dentro, os bandeirinhas deram bola dentro e o juiz assumiu a responsabilidade. Aquela bola nos prejudicou. Não
que tenha sido o fator da derrota, mas prejudicou – falou a atleta.
Agora, Jaqueline se foca em seu clube, o Sollys/Osasco. Na segunda-feira, ela iniciará a disputa da semi do Paulista ante o Pinheiros.
Veja abaixo a entrevista exclusiva com Jaqueline:
(Internauta) Qual a maior lição que tiraram desta derrota?
A lição do fortalecimento. Eu acho que hoje estou muito mais fortalecida psicologiacamente, como mulher, como atleta, e estou muito feliz. Não tem o que falar mais, é dificil, nas derrotas falar alguma coisa. Mas garanto que estou feliz com o segundo lugar.
Luiz - Passou na cabeça que não daria contra o Japão?
Foi o jogo mais difícil, mais tenso que a final. A gente sabia que poderiamos disputar terceiro e quarto em uma final, chegamos invictas e fomos surpreendidas. Mas o grupo é forte, umas não estavam bem e quem entrava supria isso. A Sassá entrou e supriu muito bem, foi uma guerreira, tem que ter psicologico muito bom. Era o jogo mais difícil.
Rafael - Mudou a mentalidade do brasileiro em lidar com o segundo lugar?
Acho que quem pôde acompanhar viu o quanto a gente lutou, se dedicou, se esforçou. Chegar na final de um Mundial invicto não é normal, mas infelizmente um tinha que ganhar, e a Rùssia ganhou. Fomos recepcionadas de uma maneira que eu nao esperava, fui surpreendida, querendo ou nao o Brasil, pra aceitar o segundo lugar, é dificil. E ainda mais o Brasil que é o país do futebol, valorizando o voleibol. Fiquei muito feliz.
Rafael - A Seleção vem de uma fase muito boa. Duas medalhas mundiais e ouro olímpico. Mas tem a aconcorrencia do masculino. Isso faz com que voces não sejam tao valorizadas?
Acho que nao. Eles tem tudo isso pois conquistaram. O feminino sempre esteve em pódio, nunca fiquei fora de pódio na Seleção que eu me lembre. O volei tem trazido títulos importantes para o Brasil. O masculino tambem vem fazendo um trabalho maravilhoso, o Bernardo faz um trabalho invejável. O Zé Roberto, ano que vem, vai fazer seleção A e B pois temos vários campeonatos e é cansativo. Vamos em busca de uma classificação olímpica. Tem os valores maiores que o masculino mas também para o
feminino, somos muito valorizadas e fico feliz por isso.
Luiz - Por que voce acha que não era pra ser do Brasil?
Era pra ser, mas não aconteceu. Creio em Deus, as coisas como Deus falava: Se não for teu agora, vai ser depois. Creio nisso. Pudemos mostrar em 2006 que perdemos mas que consgeuimos nos recuperar nas Olimpíadas. Quem sabe essa vez não va ser assim? Espero que possamos chegar mais fortalecidas. As mais novas que nunca tinham jogado Mundial, como Natália, teve que segurar um pepino muito grande. A Thaísa, que nunca tinha jogado também, teve a oportunidade. Que possam vir a trabalhar mais ainda, junto com o grupo. No feminino é muito nivelado, se não correr atrás, ficará mais complicado.
Rafael - O Brasil sentiu falta de Mari e Paula ou mostrou que pode jogar sem elas?
Com certeza sentiu. É um grupo. Quando uma se machuca, prejudicada a equipe. Querendo ou não, estão desde o ciclo anterior com a gente, são jogadoras importantes. Fazem falta à Seleção, espero que voltem no ano que vem como elas estiveram por nós nesse Mundial.
Rafael - Sabe jogar sem elas, consegue repor peças?
É um grupo. São jogadoras importantes, mas é superação maior saber que a Natália pode ajudar em momentos difíceis, como a Thaísa, como a Camila que estava no grupo e está sendo preparada para o futuro.
Rafael - E o fato de o Brasil não ter ganho prêmio individual?
Ah, acho que poderia ter ganho. A Fabizona ou a Thaísa estavam muito bem no bloqueio, mas é dificil falar. Queria que elas tivessem ganho. Mas lá dentro é muita coisa acontecendo, prefiro até não falar sobre isso. É dificil.
Luiz - Como fica a Seleção agora? Você, como titular, Natália destruiu, Mari e Paula voltando...
E vão chegar mais jogadoras noavs surpreendendo. A gente vai saindo, outras chegam, a Seleção é isso. Sai a Fofão, chega Fabíola, Dani, Ana Tiemi. Temos jogadoras para o resto da vida. Brasil é Brasil. É dificil ganhar de nós, tem que correr muito atrás.
Luiz - A Natália leva vantagem por ser nova com vista em 2016?
COmc erteza. É nova, está com uma responsabilidade muito grande, que conseguiu superar. Em 2016 ela vai ser a veterana da equipe, a gente não sabe. Eu tenho 26 anos, Paula 28, Mari 27... Se elas aguentarem, bom para elas.
Rafael - Tirando as que foram para o Mundial, Ana Tiemi e Regiane, quem mais tem?
Tem a Ivna do Pinheiros, a Tandara que é forte e foi um dos destaques da Superliga. Tem a Garay que estava com a gente e vai estar no futuro. Se observar a Superliga, vai achar um monte e isso é que é o bom.
Luiz - Aquele corredor que faziam para acessar a internet no Japão foi importante para unir o grupo?
São pequenas coisas que acontecem mas que são muito importante. Não conhecia muito as meninas fora do treinamento, pude observar, conhecer. A gente brincou bastante, escutava música, conversava, dialogava sobre o que estava acontecendo. Ajudou bastante até para o entrosamento. A gente lia, comentava a repercussão dos jogos, lia as notícias. Apesar de falarem muito de futebol, saia notícia todo dia no LANCENET!
(Internauta) O que sentiu depois da final? Abaixou a cabeça e emocionou todos...
Bastante gente fez a pergunta. Passou um flash de tudo que passou, estava emocionada. FOi uma derrota difícil, ali no momento a gente pensa o que acontecue, o que poderia ter dado mais. Será que a culpa é minha? É muita coisa que vem na cabeça, mas depois vem a felicidade em saber que a gente não desistiu em nenhum momento apesar de uma jogadora do outro lado estar destruindo, fazer 35 pontos. Sabíamos que seria dificil. Me emocionei por saber que daqui a 4 anos nao participar mais de um Mundial. As mais velhas que choraram mais, ficaram mais emocionadas. Foi dificil mas foi legal. Depois, no vestiário, todas se abraçando, se apoiando. Se estivessem lá, iam ver o que é a importância
de um grupo na derrota. Na vitória, é facil, todo mundo é amigo. Já passei por muitas derrotas na minha vida que ninguem te apoiava, olhavam e viravam a cara, por mais que tivesse jogado bem. Ninguém valorizava. No vestiário, quando acabou, eu chorava mais de saber que tinham pessoas do meu lado do que pela derrota.
Luiz - Passava pela cabeça ser a Rússia de novo?
Com certeza. Antes do jogo a gente falava que conseguiria dar a volta por cima. Não conseguimos, mas quem sabe daqui a 4 anos consigamos. É dificil falar. A gente queria ganhar, mas elas também queriam. Queriam repetir o feito de quatro anos atrás e nós queríamos reverter a derrota.
Rafael - Rola isso então nos vestiários? Já passou por muitas situações dessas? O time perdeu e uma não olha para a outra...
Em todo canto acotnece isso. Até com voces. Quando consegue algo, todos apoiam. Quando a fase nãoe stá boa, te olham torto. No esporte é assim também. Todo mundo passa por isso.
Rafael - Alguma situação que te marcou?
O grupo, o apoio de cada uma das meninas. Vou levar pra vida inteira.
Luiz - Em quadra, sentem que a Rússia é a maior rival do Brasil atualmente?
Não. Nas Olimpíadas ganhamos dela rapidinho. Vai ter dia que a Rússia vai estar melhor, o Brasil vai estar melhor. Ninguém espera que aquele dia aquela equipe esteja bem. Tem dias que voce acorda e nada dá certo, ou tudo dá certo. Deu tudo certo para a Rússia.
Luiz - O que o Zé falou para vocês naquela parada de 10 minutos contra o Japão?
O sofrimento que passamos, desde o Grand Prix. Perdemos por causa de jogos bobos, contra o Japão por exemplo. Todo o trabalho, empenho que demos no período. Foram seis meses difíceis, treinamentos duros, lesões. Fiquei um tempo parado. Depois do jogo contra os Estados Unidos tive uma contratura na coxa, joguei os dois jogos na raça. O Zé contra o Japão já estava percebendo q ue talvez eu nao aguentasse cinco sets e uma final. Tudo influi. O jogo foi forte, uma supriu a outra. Mas não foi por isso que ele me tirou. Eu também não estava bem no momento, a Sassá deu tranquilidade e consistência ao grupo. Eu beijava tanto ela quando terminou o jogo. Ela entrou e mudou a cabeça da equipe. Às vezes eu não passava uma coisa que ela passou quando entrou. É por isso que é importante o grupo. Quando me perguntam de Paula e Mari, são importantes do mesmo jeito. Elas podem jogar e eu no banco, e quando entrar, reverter do mesmo jeito.
(Internauta) Pensou em desistir da carreira?
Não, nem quando tive a trombose e as duas rupturas do cruzado no joelho. Tinha pessoas que me amavam do meu lado, me apoiando, amigos, familiares. Não pensei em desistir.
(Internauta) Qual a expectativa para o Mundial de Clubes?
Vamos enfrentar a Sokolova de novo. Vai ser bem legal. Nunca participei de um Mundial de Clubes e agora temos a oportunidade. Estou muito feliz, reencontrar todo mundo, saber que a equipe do Zé é uma das favoritas, tem grandes jogadoras e nós também. Por ser o primeiro Mundial, é muito importante. Já que não deu no de Seleções, vamos tentar no de clubes.
(Luiz) Expectativa para a Superliga? Pinheiros, Osasco, Unilever, Vôlei Futuro...
Fiquei três anos fora e quando voltei, ano passado, me surpreendi. Esse ano vai ser ainda mais difícil. O Vôlei Futuro montou uma equipe espetacular, Minas trouxe estrangeiros, Osasco manteve a equipe, Pinheiros sempre dá trabalho. Não tenho dúvidas de que será mais difícil.
(Internauta) Qual o principal objetivo para a temporada?
Tudo. Quando se dedica em uma equipe, todos os títulos tem que buscar da melhor maneira possível. Vou tentar buscar todos os campeonatos, não tem um principal.
(Internauta) Como viu o incentivo dos seus fãs?
Eles foram muito importantes. Quando entrei na internet após a derrota, o apoio que deram foi excepcional. Meu ego estava lá embaixo e foi lá para cima em saber que tinham brasileiros que estavam apoiando, que sabiam do nosso empenho e das dificuldades que passamos. Agradeço a todos que apoiaram, ao meu fã-clube que está sempre me seguindo e também as jogadoras.
(Internauta) Sentiu falta de alguma coisa no Japão?
Não.. Lá a gente comeu bem, não posso reclamar. Já fui em vários campeonatos no Japão que passei fome, tinha que levar enlatado de feijoada. Mas dessa vez não. Em Hamamatsu tinha um restaurante brasileiro que levavam feijão para a gente todo d ia. Fomos em uma churrascaria, não senti falta nenhuma. Comi pra caramba. Eu amo comida japonesa. Eu estava em casa. Adoro jogar lá, adoro o Japão. A cultura, as pessoas, a maneira como te recebem. Mas a comida de lá não é igual a japonesa daqui. Mas é gostosa também.
Luiz - Por que ainda não se cogitam a possibilidade de um Mundial aqui no Brasil?
Gostaria que se cogitasse. Seria importante para a gente, estamos na ponta, uma oportunidade de Mundial aqui seria importante pra tantos atletas também terem a oportunidade de assistirem, participarem e compartilharem. Espero que os importantes estejam escutando isso e procurem buscar isso para o Brasil. Seria importante pra quem está fora assistindo tambem, pra que possam buscar um objetivo maior.
Luiz - Seria por causa da estrutura que isso ainda não aconteceu?
Estrutura temos bastante. Temos um centro só para o volei e isso já é muito para a gente. Não sei o que rola lá dentro, o que acontece. Mas envolve muita coisa.
Rafael - Acha que rola o que o presidente da FIVB falou, de não ser interessante para o volei o Brasil ganhar no masculino e no feminino?
Quando estava no Japão eu sentia isso, que as pessoas estavam torcendo contra, os grandes chefões. QUerendo ou não, o Brasil sempre está nos pódios, em primeiro, segundo ou terceiro. Isso deve prejudicar eles em alguma coisa, mas para a gente só traz felicidade. Pra tirar a gente do Brasil, só se tirar do campeonato. A gente vai fazer nosso trabalho, nos dedicar e buscarmos o pódio. Me desculpem se não gostam, mas estamos lá sempre merecidamente.
Rafael - O erro do juiz coreano no tie break pode ter sido por isso?
Não sei, não gosto de julgar nada. Sou meio suspeita para falar. Quem sou eu pra falar alguma coisa? Se ele fez isso, é da pessoa... nós vimos que foi dentro, os bandeirinhas deram bola dentro e o juiz assumiu a responsabilidade. Eu estava do lado da Sheilla. È dificil falar, aquela bola prejudicou bastante a gente. Não que tenha sido o fator da derrota, mas prejudicou.
Rafael - E o calendário? Mundial, finais do Paulista, Superliga, Mundial de Clubes... Tudo isso em dois meses.
Primeiro ano que vamos ao Mundial de Clubes. Como foi muito longo o período de Seleção, eles tentaram adequar. Vamos jogar Paulista e Superliga juntos. Depois paramos para o Mundial. Nunca passei pelo que vamos passar. Vamos ver como vai ser. Depois te digo se tem de rever ou não o calendário. Mas pra um atleta é bastante puxado, são vários jogos e querendo ou não o corpo aguenta, ou não. A gente começa a treinar sábado e todas vamos para o jogo na segunda-feira, em busca do Paulista.
(Internauta) A Seleção sentiu mais falta de Paula e Mari ou do entrosamento com as levantadoras?
Entrosamento não, já estavamos há seis meses com elas. Paula e Mari são jogadoras importantes, talvez tenha sido. As meninas jogaram muito bem, Fofão é indiscutivel, é a melhor do mundo para mim. Mas a Fabíola e a Dani, a Ana Tiemi, são jogadoras que estão começando, como a Natália, que estão tendo oportunidade e ninguem pode culpá-las ou julgá-las. Pode ter sido culpa de todo mundo. Não podemos culpa-las pela troca de ciclo. Não julguem as levantadoras, elas precisam do apoio. São a cabeça da equipe.
- Matéria
- Mais Notícias















