Delegada, sobre vítimas de agressão: 'Elas vão ficar traumatizadas'
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Logo em seu primeiro caso envolvendo torcidas organizadas, a delegada da Polícia Civil, Cristiane Carvalho, teve de lidar com um episódio covarde de agressão cometido por 50 integrantes de uma facção tricolor, sob apenas dois torcedores de outro time, nem uniformizados. Foi no último clássico entre Fluminense e Vasco, há cerca de 20 dias. Desse total, foram detidos 23, sendo dois menores de idade.
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Mesmo com 11 anos na polícia, Cristiane ficou assustada com o grau de violência empregado no crime - os agressores usaram luvas de boxe, protetores bucais e socos ingleses. Ao relembrar o dia do flagrante, em entrevista exclusiva ao LANCENET!, a delegada contou o que sentiu no depoimento das vítimas, em seu gabinete na 24ª DP, em Piedade, Zona Norte do Rio, a cerca de 15 minutos a pé do Engenhão.
- Uma coisa que me chamou muita atenção, quando eu vi a seriedade da situação: o meu gabinete é afastado, todo fechado. Fechei a porta e atendi as vítimas separadamente. O comportamento das vítimas...Os torcedores do Flu estavam todos sentados num canto, o balcão é alto, não dá para ter acesso a nada, mas as vítimas estavam praticamente se escondendo atrás do armário, desesperadas. O trauma psicológico que esses meninos vão ter, nunca mais vão numa partida de futebol. Eles vão ficar traumatizados - revelou a delegada da Polícia Civil.
Confira abaixo os principais trechos da entrevista
Foi a sua primeira vez num episódio envolvendo organizadas?
Foi sim, a primeira vez em casos de torcida organizada. Coisa de 18 meses para cá, eu fiz dois flagrantes em três rapazes com blusas de time, que encontravam um transeunte, batiam e tomavam posse de todos os pertences. Mas esse com o pessoal da Young Flu foi a primeira vez.
Como foi a ocorrência naquele dia?
Eu estava no plantão, aí os policiais do Gepe (Grupamento especial de Policiamento nos Estádios) me apresentaram a ocorrência. Eram cerca de 50, mas prendi 23. Eles tinham recebido uma denúncia, através do comandante deles, de que havia um tumulto na estação de trem do Engenho de Dentro, que é anterior a do Méier. Aí o que eles fizeram: como a base da Young Flu fica na estação do Méier, os policiais ficaram aguardando na estação de trem. Quando os torcedores desceram do vagão, eles presenciaram aquela algazarra toda. E no meio do tumulto, com 50 torcedores, havia duas pessoas muito ensanguentadas, que eram os dois meninos. Eles não estavam nem com blusa do Vasco não, eles estavam com roupa comum. Os meninos contaram que foram agredidos e roubados também. O que fizeram: os policiais conseguiram prender 23 pessoas, levaram as duas vítimas para o hospital e depois trouxeram aqui para a DP também. A ocorrência foi conduzida de forma perfeita pelos profissionais do Gepe. Por isso eu tive condições de lavrar esse flagrante.
Você já havia detido tanta gente de uma só vez?
Na época em que era inspetora (está há 11 anos na Polícia Civil), eu fiz um flagrante com 11 pessoas, por roubo. Era uma quadrilha de ladrões de carros. Mas agora dobrou (risos).
Qual o tamanho da importância da interação entre a Polícia Civil e a Militar?
O Gepe faz esse policiamento, e eles trabalham muito bem. Posso dizer que eles me passaram a ocorrência muito bem, com clareza. Eles tiveram o feeling de esperar os torcedores do Fluminense em outra estação. Se tivessem procedido de outra forma, os criminosos teriam entrado em um dos vagões. Eles têm experiência nesse sentido, são ótimos.
Torcida organizada pode ser configurada como formação de quadrilha?
Como o próprio nome diz, torcida organizada. Eles estavam todos uniformizados, havia um líder, que foi inclusive um dos que respondeu por roubo, ele que organizava tudo, liderava tudo, liderava o tumulto. Eles se reúnem com o propósito de cometer crime. Pensam que crime é só matar e roubar, não é. Se você se reúne, a partir de quatro pessoas, para bater em alguém, é formação de quadrilha. Eles têm estabilidade, eles se conhecem e todo jogo é aquele grupo. E se existe um grupo estável, que sempre se reúne, com o propósito de sair para bater nas pessoas, ele está com o propósito de cometer crime, e é formação de quadrilha.
Que precedentes positivos esse caso abre?
É algo no sentido dos torcedores terem mais responsabilidade pela conduta individual e até pela coletiva. Que surjam pessoas dentro do grupo que, mesmo com os ânimos exaltados, avisem aos amigos para segurar a onda aí, para não sair para brigar. Acredito que agora vamos ter conscientização.
Que outras medidas podem ser tomadas?
Acho perfeita a ideia da chefe da Polícia Civil, a Marta Rocha, de criar um disque-denúncia especializado, para os familiares dos torcedores. Vários aqui contaram que estavam preocupados, que os filhos tinham mudado de comportamento depois de se organizarem em grupo. Isso vai inibir bastante. E também o trabalho de conscientização, feito na Acadepol. Essas são as únicas coisas que podem resolver esse problema.
O que a Federação de Torcidas Organizadas do RIo de Janeiro (Ftorj) tem feito sobre o assunto?
Eles conversando, até informalmente, disseram que gostaram muito dessa minha decisão, porque para eles é muito bom. Eles acabavam perdendo a liderança, eles não têm liderança sob esses maus torcedores. Então, para as torcidas, torcida mesmo, para quem não é um criminoso travestido, é muito bom. Eles vão no estádio para fazer festa, algo bonito, e não cometer crimes. Isso fortalece as lideranças e tranquiliza.
E a responsabilidade dos clubes?
Isso eu não tenho como opinar, porque não tenho um conhecimento bom nesse sentido.
Tem vontade de atuar em mais casos contra o crime no futebol?
Ah, eu tenho. Acho que o sonho de qualquer carioca, brasileiro, é ter paz em todas as áreas, inclusive numa área em que é para se divertir, como o estádio de futebol. Então se eu puder colaborar para ajudar na paz nos estádios, eu vou colaborar. Estou à disposição da nossa chefe. Nós queremos é paz.
O futebol tem cura?
Claro que tem cura. Para tudo existe cura. Com essas novas propostas da Polícia Civil, a criação do núcleo especializado (Núcleo de Apoio aos Grandes Eventos, Nage), a gente tem 100% de chance de conseguir o êxito.
Como você se definiria como delegada?
(Risos). Justa. Uma pessoa justa. Quando chego antes do plantão, eu peço a Deus para me dar sabedoria para aplicar a justiça. No caso dos torcedores, eu fui justa. Tanto é que a minha decisão foi ratificada pelo juiz que recebeu a notificação da prisão. Foi feita a justiça. Eu trabalho aqui para fazer a justiça.
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