Luiz Fernando Gomes
18/11/2018
09:05
São Paulo (SP)

Desde que foi eliminada pela Bélgica na Copa da Rússia, a Seleção Brasileira de Tite mantém um aproveitamento de 100% nos amistosos em datas Fifa. Tudo bem que El Salvador e Arábia Saudita não contam, que os Estados Unidos vivem um momento difícil, um período doloroso de entressafra. Mas vencer Argentina e Uruguai, ainda que se possa alegar que os rivais não tivessem atuado com sua força máxima, é sempre algo relevante.

O trabalho neste segundo tempo da Era Tite está apenas começando. E é um começo promissor. A mescla de jogadores experimentados com uma nova geração que se consolida, com nomes como Arthur, Richarlison e Allan, por exemplo, e outra que ainda está desabrochando com Vinícius Junior, Paquetá, Rodrygo e Pedro, apenas para citar alguns – é o caminho natural para que se faça um time competitivo, um trabalho realmente consistente, planejado e de longo prazo, imune ao imediatismo dos resultados, à euforia ilusória nas vitórias ou ao sentimento de que “tá tudo errado” quando a derrota vier.

Renovação não é algo simples. A toda poderosa Alemanha está aí para comprovar. Depois de chegar ao tetra na Copa do Brasil, em 2014, com direito ao antológico 7 a 1 nos donos da casa, o time da camisa branca jamais voltou a se encontrar. Venceu a Copa das Confederações no ano passado, é verdade, mas diante de um Chile que já declinava após a conquista do bi da Copa América. Acabou eliminada na primeira fase na Rússia, venceu apenas quatro das 12 partidas disputadas este ano e, algo ainda mais impensável á luz da razão, acaba de ser rebaixada para a segunda divisão europeia na estreante Liga das Nações. Um vexame histórico que Joachin Löw, ainda treinador apesar de tudo – aqui já não o seria faz tempo -, tenta minimizar.

“Para nós, este resultado é naturalmente amargo, mas nós temos que aceitar isso. Nosso foco ainda está claramente na Euro 2020, para a qual vamos nos classificar e para a qual queremos enviar uma equipe forte. Continuaremos a criar espaço para nossos jovens jogadores e levá-los gradualmente para a equipe nacional - afirmou em entrevista ao diário Bild.

Lá como cá, a ascensão dos jovens jogadores parece ser a aposta do treinador. O sucesso da própria Alemanha nas últimas décadas e da França que conquistou o mundo com uma seleção jovem e que tem ao menos mais duas copas pela frente não deixa dúvida de que não há outro caminho a seguir. E Tite leva clara vantagem neste sentido, com a capacidade que o futebol brasileiro tem de produzir e lapidar talentos, em que pesem todas as mazelas que conhecemos, da falta de estrutura e incentivo às categorias de base ao amadorismo da cartolagem na gestão do esporte.

Mas este período pós-copa da seleção, além do acerto da renovação, traz um outro ponto interessante a ser considerado: a mudança de comportamento de Neymar. E isso, se de fato se confirmar ao longo do tempo, indo além de uma simples jogada de marketing do camisa 10 para mudar sua imagem, pode fazer toda a diferença no futuro do time de Tite. A atitude do craque no jogo de sexta chamou a atenção. Neymar, como sempre, foi caçado em campo, sofreu com as faltas dos uruguaios, mas levantou e seguiu em frente, Nada de cai-cai, nada de reclamações descabidas com o juiz e os adversários. Revidou como deva fazer sempre, jogando bola, armando ataques e aparecendo para concluir diante do gol.

Neste pacote do bem, até a rusga com Cavani, com quem teve um entrevero durante a partida, Neymar tratou com bom humor, fugindo da polêmica e dizendo sequer ter ouvido o que o colega de PSG lhe falou depois de cometer uma falta. Um sinal de amadurecimento? Espera-se que sim. Tite, principalmente, espera isso. Pois, por mais que tenha defendido o jogador durante a Copa, é com este Neymar consciente e responsável que espera contar daqui para a frente. Uma renovação tão importante quanto a de lançar novos nomes como vem fazendo.