Zanardi: uma vida de recomeços, sempre além dos limites
Italiano superou origem humilde e inspirou milhões de fãs com alegria e coragem

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Quando desceu do carro após uma vitória espetacular em Cleveland, em 1997 - saindo do 22º lugar para o primeiro, com um show de ultrapassagens e uma sequência de 22 voltas mais rápidas - Alessandro Zanardi só teve uma preocupação: ligar para a avó, então com 84 anos. "Queria saber se ela estava bem. Ela assiste a todas as minhas corridas", contou, com um sorriso orgulhoso. Sim, o coração da vovó resistiu bem às emoções daquela prova e das duas temporadas em que o neto dominou a Fórmula Indy, tornando-se bicampeão pela equipe Ganassi.
Zanardi era assim: um cara simples, apegado à família e com uma alegria contagiante. Nem o terrível acidente de Lausitzring, na Alemanha, em 2001 - quando sofreu sete paradas cardíacas, perdeu mais de 70% do sangue do corpo e teve as pernas amputadas - foi capaz de tirar o seu conhecido bom humor. Convidado para o programa de entrevistas de David Letterman na TV americana, girou a sua perna mecânica para cima e fez do sapato uma bandeja, colocando a caneca em cima. O auditório veio abaixo em risadas.
Ele encarou o acidente como um novo desafio na sua vida. Ao despertar do coma no hospital, disse não ter olhado da cintura para baixo. Queria pensar na parte do corpo que lhe restou e como viver da melhor maneira possível com ela. E Zanardi conseguiu de um jeito inacreditável. Primeiro, voltou às pistas, na categoria turismo, com um BMW adaptado com controles manuais. Depois, tornou-se o melhor atleta do mundo de provas de estrada de paraciclismo. Ganhou seis medalhas nas Paralimpíadas de Londres, 2012, e Rio, 2016, quatro delas de ouro e duas de prata.

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Perda da irmã num acidente quase o afastou das pistas
A ideia de se superar sempre foi um mantra na carreira. Ao marcar a primeira pole na Indy, no Rio, em 1996, no ano de estreia na categoria, disse não estar surpreso. "Talvez a equipe estivesse contente com um quarto ou quinto lugar no grid, mas eu busco sempre fazer algo além do que esperam de mim."
Foi assim, superando expectativas, que ele se tornou um piloto de sucesso - um destino improvável para alguém de origem humilde. O pai, Dino, era encanador e a mãe, Anna, costureira. Zanardi cresceu na cidade de Castel Maggiore, próxima a Bolonha, na Emília Romagna, na região da fábrica da Ferrari e do autódromo de Ímola. Com uma vizinhança dessas, era natural que a velocidade fosse uma paixão desde cedo. Mas um acidente trágico na família quase interrompeu o sonho de virar piloto: a irmã mais velha, Cristina, morreu quando passeava de carro com o namorado, em 1979.
Zanardi tinha, então, 13 anos e a mãe relutou em aceitar que ele começasse a correr de kart, um ano depois. O pai construiu o primeiro kart e foi também o primeiro mecânico. Era uma estrutura precária, mas o talento apareceu logo e os resultados, também. Uma fábrica de pneus local passou a patrociná-lo e, em seguida, ele ingressou no time oficial da Parilla, dona dos melhores motores de kart do mundo.
A partir daí, a carreira decolou. Vice-campeão na F3 italiana e na F3.000 - quando perdeu o título para o brasileiro Christian Fittipaldi, apesar de ter mais vitórias -, chegou à F1 em 1991. Em equipes pouco competitivas (Jordan, Minardi e Lotus), o máximo que conseguiu foi um sexto lugar no Brasil, em 1993.
Mas foi na F-Indy, que Zanardi viveu o auge. Conquistou 15 vitórias e dois títulos, em 1997 e 1998, em parceria com um engenheiro genial, Morris Nunn - o mesmo que levou Nélson Piquet para a Fórmula 1. Na vida pessoal, ele anunciou, radiante, antes da corrida no Rio, em 1998, o seu maior presente: a esposa, Daniela estava esperando o primeiro filho, depois de fazer tratamento para engravidar. Niccoló nasceu em setembro daquele ano.

Volta à F1 durou só uma temporada
O sucesso na Indy o levou de volta à F1. Zanardi assinou com a Williams, após uma negociação frustrada para correr ao lado de Michael Schumacher na Ferrari. Na equipe inglesa, encontrou um ambiente hostil e um carro instável, já sem o motor Renault dominante dos anos anteriores. Foi superado pelo companheiro Ralf Schumacher e acabou dispensado no fim de 1999.
Foi Morris Nunn quem o chamou de volta para a F-Indy, em 2001. Mas o recomeço durou 15 corridas, até o acidente na Alemanha que mudou a sua vida. "Não teria sido tão feliz se ainda tivesse as duas pernas", disse Zanardi numa entrevista ao jornal italiano Gazzetta dello Sport. "Foi a maior oportunidade da minha vida."
Lance!
Zanardi sofreu danos cerebrais severos, fez várias cirurgias neurológicas e de reconstrução facial e voltou para casa após meses no hospital. A família guardou em segredo o seu estado de saúde nos últimos anos. E foi com a esposa, Daniela, e o filho Niccoló, que ele partiu, ontem, dia 1º de maio, 32 anos depois da morte de outro herói das pistas, Ayrton Senna.

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