Jonas Moura*
09/11/2018
08:00
Enviado Especial a Maringá (PR)

– Lugar de mulher é onde ela quiser, fazendo o que quiser.

A melhor jogadora de futsal do mundo, vencedora das últimas quatro edições do Agla Futsal Awards, prêmio com a chancela da Fifa, é brasileira e autora da frase acima.

Aos 24 anos, a ala Amandinha acredita que se posicionar é a melhor forma de combater a cultura machista do esporte. Ao mesmo tempo, se esforça a cada torneio para manter o reconhecimento e a condição, privilegiada, que a permitiria viver exclusivamente da modalidade, não fosse a paixão pela fisioterapia.

A atleta, nascida em Fortaleza, é a grande estrela da Fase Final dos Jogos Universitários Brasileiros (JUBs), em Maringá (PR). Estudante do último período do curso, ela disputa o evento pela primeira vez, pela UNIPLAC (SC). O time tem como base o Leoas da Serra, de Lages, referência do futsal feminino no Brasil.

A convivência com profissionais da fisioterapia e a influência do pai a fizeram criar um laço forte com a área. É por isso que, mesmo com todos os resultados no esporte, a atleta não abre mão da segunda carreira.

– Para ser sincera, eu consigo viver do futsal feminino, pois me considero muito valorizada no Leoas da Serra para a realidade do Brasil. É claro que se eu fosse jogar fora poderia ganhar três vezes mais. Mas quero me formar e tenho planos. Quero atuar no futsal e na fisioterapia nos próximos anos. Assim, ganho um dinheirinho a mais – disse Amanda, ao LANCE!.

A jogadora tem como principal conquista o título do Mundial de 2013, em Ciudad Real (ESP), pela Seleção. Em clubes, carrega três títulos da Libertadores da América, sendo dois pelo Barateiro Futsal, de Brusque (SC), e um com o Leoas.

Desde que deixou Fortaleza aos 15 anos para se realizar no futsal, enfrentou períodos de luta. A transição da base para o adulto demorou para dar resultados. E quando ganhou o prêmio de melhor do mundo pela terceira vez, recebeu comentários dizendo que o lugar de mulher era na cozinha, servindo ao marido.

"É um esporte considerado masculino no país. Mas as meninas são guerreiras. Caladas, faremos o que os preconceituosos querem. Tem de lutar"

– É um esporte considerado masculino no país. Mas as meninas são guerreiras. Enfrentam diariamente uma batalha e estão ali por amor. Sou mais uma e já passei por situações complicadas. Se ficarmos caladas, é o que esse cara que fala isso quer. Temos de enfrentar – disse a jogadora, que no JUBs joga ao lado de Tampa e Diana, suas colegas de Seleção.

Time encara rival paranaense na semi

A UNIPLAC (SC) se classificou na última quinta-feira para a semifinal do JUBs, em Maringá. O time de Amandinha venceu o ICESP (DF) por 3 a 2 e vai enfrentar a FATEB (PR) nesta sexta, às 13h, por vaga na decisão.

As catarinenses saíram em desvantagem após tomarem um gol com menos de dois minutos de partida, mas buscaram a virada duas vezes, no duelo mais aguardado da primeira fase. A ala deu passe para um dos tentos.

A equipe adversária era toda formada por jogadoras do time de futebol de campo que foi campeão do Brasileiro Serie A-2 (segunda divisão), pelo Minas/ICESP.

BATE-BOLA
Amandinha, ala do Brasil e da UNIPLAC, ao LANCE!

Qual é sua avaliação sobre o momento do futsal feminino no Brasil?
Nós ainda carecemos de visibilidade e patrocínios. Mas lutamos a cada dia por uma modalidade, infelizmente, esquecida. Não temos calendário nacional certo. Ficamos à mercê de estados que recebam as competições e arquem com os custos. É muito difícil, mas temos o prazer de jogar as competições da CBDU. No futsal feminino, as competições certas do ano são as da entidade. Na CBFS (Confederação Brasileira de Futebol de Salão), estamos caminhando devagar. Espero que melhore em 2019.

Como foi a transição do Ceará para Santa Catarina?
Eu fui para Santa Catarina com 15 para 16 anos. Amo o estado, berço do futsal. Há 15 anos, conquista praticamente todos os títulos nacionais. É uma escola linda, com tática e técnica muito boas. Estou no lugar certo. Eu não queria sair do Barateiro (de Brusque), mas tudo acontece como Deus quer. Em Lages, encontrei grandes pessoas e realizei o sonho de encher ginásios, com 8 mil a 10 mil pessoas. Então, sou realizada no futsal, graças à cidade.

Quais as consequências de ser tratada como estrela em torneios?
É uma responsabilidade muito grande. As pessoas enxergam em mim uma atleta de alto nível, então ao entrar nessas quatro linhas, sou muito observada. Não é à toa que escuto: "essa aí só tem nome". Mas, se não aumentasse a pressão, eu não mereceria o título que carrego. Estou preparada para isto.

Quais são as perspectivas na fisioterapia?
Estou me formando no final deste ano. Amo fisioterapia, assim como o futsal. Espero cuidar de atletas, como fui e sou cuidada. É algo indescritível na minha vida. Eu me apaixonei pela área.

COM A PALAVRA
Anderson Menezes, o Esquerda

No melhor ano, espera por novo prêmio

Sou suspeito para falar da Amanda, pois a tenho como uma filha. Quando a vi jogar, ela tinha 15 anos. A adaptação foi difícil, principalmente por ficar longe da família. Por ser uma menina nova, bate a saudade e a dúvida sobre continuar ou não no esporte. E o momento de subir de categoria foi complicado, pelos resultados. Ela queria jogar demais, e a gente precisava controlá-la. Ela teve uma oportunidade com 17 para 18 anos no adulto, abraçou e não largou mais. Pela qualidade nos treinos, acredito que brigará por mais quatro títulos mundiais. Ela se cuida muito e não se acomoda pela condição de ser eleita a melhor. De todos os anos, este tem sido o mais produtivo. Então, tenho grande expectativa de que ela conseguirá levar o prêmio pela quinta vez.

* O repórter viaja a convite da CBDU