Jonas Moura
30/08/2019
04:18
Enviado Especial da Lima (PER)*

Os Jogos Parapan-Americanos de Lima são uma sementinha para Gilce Côrtes. A ciclista brasileira e artista plástica, de 42 anos, percorre estradas desafiadoras da vida, nas quais estabelece metas e renova o sentido de existir. Em uma delas, sabe que encontrará o silêncio e escuridão. Em outras, abre novos caminhos.

Diagnosticada com Síndrome de Usher, doença degenerativa genética e incurável, a atleta tem apenas 5% da visão em cada olho e comprometimento profundo da audição. Em seus primeiros Jogos Parapan-Americanos, em Lima (PER), ela busca nesta sexta-feira, a partir das 11h (de Brasília), uma medalha no ciclismo de estrada. A competição segue no domingo.

A paranaense de Peabiru compete no contrarrelógio individual de 20 a 30km e na prova de resistência de 60 a 70km, na categoria Tanden B (uma bicicleta dupla, para cegos), com a piloto Lorena Oliveira. No ciclismo de pista, elas terminaram o contrarrelógio de 1km na sexta colocação e a perseguição individual de 3.000m em sétimo.

As próteses auditivas, uma em cada ouvido, ainda a permitem responder a todas as perguntas de uma entrevista. O pouco que os olhos enxergam foca nos movimentos do lábio do entrevistador, hábito que ela desenvolveu à medida que a retinose pigmentar, causada pela síndrome, progrediu.

Após anos de depressão desde a descoberta da doença, em 2003, o sorriso é constante diante da realização do sonho de representar o Brasil. Ela nasceu com perda leve auditiva, que evoluiu para moderada, chegou ao estágio atual e só estabilizará com a surdez. A dificuldade para enxergar começou na adolescência.

– Perco um pouco da audição a cada dia, e será assim até chegar ao silêncio total. A princípio, as próteses funcionam, enquanto for possível, mas a doença vai avançando. Até cinco anos atrás, a evolução era bem lenta. Eu nunca imaginei que fosse chegar ao ponto em que estou hoje. Tive uma queda muito significativa da visão. De um ano para cá, caiu quase 15%. É assustador. O que me levanta para não deixar a peteca cair é o pedal – contou a atleta, ao LANCE!.

Formada em Artes Visuais, Gilce precisou se afastar dos ateliês e das salas de aula onde era professora, pois deixou de decifrar cores e detalhes. Antes, fazia gravuras, xilogravuras e esculturas diversas, com gosto pela arte contemporânea, moderna e clássica. Hoje, o tato é aliado. Ela, inclusive, se alfabetizou em Braille, o sistema de escrita para cegos ou pessoas com baixa visão, pensando no que está por vir.

– Depois que aceitei a doença e aprendi a lidar com constantes adaptações que a limitação causou, procurei me preparar para o futuro. Quando você aceita, fica mais fácil lidar com essa situação – declarou a ciclista.

Ela conta que se tornou mais sensível aos outros sentidos. Com a entrada no esporte, criou uma página no Facebook e passou a receber o contato de pessoas que sofrem do mesmo problema. Cada vez mais, serve de inspiração e transmite seus ensinamentos e sua força de vontade.

– Você passa a ter referência pelas mãos, como se seus olhos estivessem ali, na ponta dos dedos. Quando se perde a visão, aguça-se os outros sentidos. O primeiro plano é a audição. Como a minha também é afetada, apurei o sentir.

Parceria com piloto e cidade 'ciclística' ajudam atleta

O ciclismo entrou na vida de Gilce graças à piloto Lorena, que pratica o esporte e era sua personal em uma academia em Maringá. A cidade tem forte tradição na modalidade. Era a única do Brasil a ter um velódromo até a construção do equipamento que recebeu as provas na Olimpíada do Rio.

Apesar da progressão da doença e do pouco tempo no esporte, ela espera crescer nas pistas e nas estradas. No paraciclismo, é comum os atletas competirem nas duas modalidades. As maiores chances do Brasil estão nas provas de estrada, que acontecem nesta sexta-feira e no domingo. 

– O Parapan foi a primeira competição profissional dela na pista. Está aprendendo. Tem uma parceria boa com a piloto, o que é uma vantagem. Tem velódromo. Tudo isso está ajudando ela a encontrar o seu caminho. Acreditamos que ela pode evoluir bastante. Aqui, ela é B2, pois a deficiência já evoluiu – afirmou Edilson Tubiba, coordenador do paraciclismo da Confederação Brasileira de Ciclismo (CBC).

Com a palavra
Lorena Oliveira
Piloto de Gilce Côrtes

Fui mountain biker e competi durante nove anos. Disputava estadual competições de estrada. Cheguei a competir em um Pan-Americano e em uma etapa da Copa do Mundo de cross country. Aqui, minha dedicação é total a Gilce. É quase um casamento. Brincamos que somos "control c" e "control v". Uma copia a outra (risos). Foi tudo bem espontâneo. Em 2017, ela comentou comigo: "Que legal que você vai voltar a pedalar! Não tem bike para cegos?". Eu disse que sim. Pesquisou e gostou. Eu assumi uma equipe de Maringá e entrei de parceira com ela. Antes, dava aulas de personal e percebi que ela tinha dificuldade de encontrar os aparelhos. Até esbarrava neles. Começamos a ter uma amizade.

No Tanden, o piloto, ou guia, vai na frente, dando o ritmo, e o atleta, atrás, mantendo a estabilidade. Tento ser os olhos dela aqui. Eu a acompanho nos momentos de refeição, na preparação física, mental e até nas horas vagas. Conversamos muito, sobre tudo. Acredito que faz diferença no rendimento da ciclista ter uma boa relação com a sua piloto.

Bate-Bola
Gilce Côrtes, ciclista, ao LANCE!

A arte nos permite ir muito além do que a visão mostra

Não deve ter sido fácil se afastar das artes, não é? Como foi o processo?
Fui deixando as artes de lado há sete anos. Caí em depressão. Foi uma fase difícil de aceitação, quando percebi a redução brusca da visão. Antes, eu usava só uma prótese para audição. Hoje, são duas. A ficha foi caindo. Mas a arte vive em mim e está ali, quietinha. Quem sabe eu não volte? Mesmo na escuridão, dá para fazer muita coisa. Ela te permite ir muito além do que a visão nos mostra. Dá para ver com os olhos do coração.

Como acontece a progressão da doença?
No dia a dia, não percebo tanto. Percebo mais a cada ano. Mas, naquele momento em que me afastei das artes, foi rápido. Caí no desespero. Para minha sorte, encontrei a Lorena, e olha onde estou hoje!

Faz planos para o futuro, imaginando o avanço da doença?
Eu não quero parar de pedalar. Quero ir muito além e chegar ao máximo que for possível. O Parapan é só uma sementinha.

O que a curta experiência no ciclismo te mostrou até agora?
O mais difícil é vencer as gringas (risos). Ainda estou no embrião do pedal. O Parapan é um sonho de todo atleta paralímpico. Estou vivendo uma experiência incrível. Representar a Seleção Brasileira em tão pouco tempo é um mérito muito grande.