Conheça a história e os feitos de Eder Jofre, o maior pugilista brasileiro de todos os tempos

Campeão mundial sem ter sofrido nenhum nocaute na carreira, lenda da nobre arte faleceu no último domingo (2), aos 86 anos

(Foto: Divulgação)

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O encontro entre o argentino José Aristides Jofre e a brasileira Angelina Zumbano uniu os dois países sul-americanos conhecidos por uma das maiores rivalidades do futebol e gerou Eder Jofre, duas vezes campeão mundial de Boxe, que faleceu no último domingo (2), aos 86 anos. Pode ser um clichê, mas não é nenhum exagero dizer que o maior pugilista do Brasil nasceu num ringue, calçando luvas. Seu pai e os tios maternos também fizeram sucesso na nobre arte.

No dia 26 de março de 1936, Eder Jofre veio ao mundo, de fato, ao lado da academia de Boxe de seu pai e seu tio, na Praça da Sé, na capital paulista. Aristides, o Kid Jofre, deixou a Argentina rumo ao Brasil e se juntou ao irmão, Armando, o Kid Pratt, na administração do negócio. E, como não poderia deixar de ser, o nome do futuro pugilista também tem ligação estreita com o esporte praticado pela família.

Acusado de ser comunista, o tio materno, Waldemar Zumbano, chegou a ser preso no Estado Novo do presidente Getúlio Vargas e, após ser solto por falta de provas que o ligassem ao comunismo, se refugiou em Minas Gerais. No território mineiro, usava para se manter no anonimato o pseudônimo Frank Eder, nome de um boxer austríaco, para praticar suas lutas de rua, onde montava um ringue de Boxe, com cordas que levava nas malas, e se lançava a desafios contra pugilistas locais, cobrando ingressos.

Quando o menino nasceu de madrugada, em casa, o pai José Aristides perguntou a Dona Angelina como era o nome que seu irmão Waldemar usava no Boxe “para não ser preso”. Ao ouvir a resposta da mulher, não teve dúvidas: “Frank é meio esquisito. Nosso menino será então Eder.”

Assim nasceu o maior peso galo de todos os tempos. Quem viveu na época de seu auge no pugilismo afirma que Eder Jofre desfrutava do mesmo prestígio de Pelé. Os títulos e a carreira não contrariam. Conhecido pela alcunha de “Galo de Ouro”, ele foi campeão mundial de Boxe no peso-galo, de 1960 a 1965 (Associação Mundial de Boxe); campeão mundial unificado na mesma categoria (Associação Mundial de Boxe e União Europeia de Boxe), e campeão mundial peso-pena, em 1973 (Conselho Mundial de Boxe). O brasileiro também faturou o Campeonato Latino-Americano (1956); o Campeonato Sul-Americano (1960); e o Campeonato Brasileiro (1958).

Se não nasceu no ringue, Eder Jofre chegou bem perto disso. Ele lutou pela primeira vez aos 3 anos. Tudo bem que a adversária foi sua irmã, dois anos mais velha, na abertura de uma competição, em Santos. O Boxe esteve a perigo de perder um dos seus maiores expoentes. Primeiro para a arquitetura, pois gostava de desenhar e chegou a entrar para a faculdade, mas não deu continuidade e deixou o curso por problemas financeiros e voltou ao esporte. O futebol também era uma das paixões do maior pugilista brasileiro de todos os tempos.

“Queria jogar futebol, de ponta esquerda. Cheguei a ser artilheiro do time do Parque Peruche muitas vezes, por esse motivo eu falava que precisava jogar futebol, mas ninguém apoiava”, contava Jofre, acrescentando que a pressão da família para dar continuidade ao esporte preferido de seus parentes era muito grande: “Meu pai queria que eu lutasse Boxe. Fui escolhido pela família, pelos meus tios, nasci em uma academia, pegavam-me no colo para eu bater no saco de areia e no pushing ball e eu fui pegando gosto". 

Nove meses depois de estrear no Boxe amador, no dia 15 de março de 1953, Eder Jofre já colecionava sete títulos. Foi o pai que fez o contato com o São Paulo, no qual tinha sido atleta, e levou o filho a repetir sua trajetória no clube. Só que a criatura superou o criador. Treinado por Aristides, Jofre ganhou o Campeonato do Sesi, o seu primeiro, e enfileirou os bicampeonatos paulista e brasileiro, além de ganhar quatro lutas contra os “peleadores” uruguaios e faturar a “Taça Ramón Perdomo Platero”.

As Olimpíadas de 1956, em Melbourne, na Austrália, não guardam boas lembranças. Ele dizia ter viajado por muito tempo e ter passado mal antes de ser derrotado por pontos por um lutador do Chile. Após dois anos, o brasileiro nocauteou o mesmo adversário. “Se eu estivesse em condições físicas boas, teria ganhado (a medalha de ouro)”, afirmou.

O primeiro título mundial veio em 1960, no dia 18 de novembro, quando derrotou o mexicano Eloy Sanchez por nocaute, no sexto assalto, em confronto realizado em Los Angeles. Eder Jofre contava que a ficha demorou um pouco a cair para, segundo suas palavras, sentir a maior felicidade da sua vida no esporte. “Meu irmão Dogalberto, que já faleceu, subiu no ringue e falou ‘eu sou irmão do campeão do mundo’, vibrando... Aí eu pensei: p…, sou eu!”

Primeiro brasileiro no topo do Boxe mundial, Eder Jofre se casou no dia 21 de abril de 1961, com Maria Aparecida Jofre, a Cidinha, em cerimônia civil. No ano seguinte, se tornou o maior lutador da categoria peso-galo do planeta ao bater o irlandês Johnny Caldwell, em São Paulo, e unificar o título, reconhecido pela União Europeia como legítimo campeão do mundo.

O Galo de Ouro só conheceu sua primeira derrota em maio de 1965. Ele foi superado pelo japonês Masahiko Fighting Harada e perdeu o título mundial. Novamente superado na revanche, o maior pugilista brasileiro guardava a maior decepção da sua carreira. Seu sentimento era de injustiça: “Eu bati mais, me posicionei melhor. Foi a segunda luta, já sabia mais sobre ele e, para mim, eu tinha ganhado a luta.”

Ele se aposentou cedo, aos 30 anos, vencido mais pela balança do que pelos seus adversários. Vegetariano, Jofre sofria para se manter no peso. Como comia muito macarrão, arroz, feijão e doces, que segundo ele eram o seu fraco, chegava a passar sede e fome nas vésperas das lutas. O descanso foi interrompido depois de três anos por conta das dificuldades financeiras e também pelos pedidos dos fãs. A gota d’água, entretanto, foi a pergunta do filho interrompendo um cochilo depois do almoço: “Pai, você não trabalha?”

Algumas circunstâncias contribuíram para a volta em grande estilo. A primeira foi a subida para a categoria peso-pena, que segundo o filho Marcel, o fez se sentir novamente na plenitude de sua forma física. O resgate de uma amizade dos tempos de menino também encheu Jofre de energia. O maestro João Carlos Martins, um dos maiores intérpretes de Johann Sebastian Bach e antigo vizinho da família do pugilista, se tornou seu empresário. Como precisou se aposentar devido a uma pedrada levada no seu braço, durante um evento esportivo no Central Park, em Nova York, o músico resolveu se dedicar ao Boxe para esquecer o infortúnio de uma cirurgia mal sucedida.

A resposta para seu filho sobre não ter um trabalho foi dada com mais um título mundial, desta vez nos pesos-pena. Foram 14 vitórias em sequência até ganhar e tirar o cinturão de campeão do mundo do cubano José Legrá, em Brasília, no dia 5 de maio de 1973, por pontos, após 15 rounds. A conquista, como não poderia deixar de ser, foi dedicada ao filho Marcel, que conta com detalhes os momentos após mais um título do pai:

“Antes do anúncio do resultado, fui para o vestiário, para ser poupado em caso de derrota. A TV Tupi, que estava cobrindo o evento, veio até mim e pediu para falar alguma coisa e eu fiquei completamente travado, só chorava, e o microfone na minha frente. Meu pai entra no vestiário e fala: ‘Isso é para você’.”

O retorno e o título mundial de Jofre inspiraram o seu empresário a retomar sua carreira musical. Extremamente tocado pela conquista do brasileiro, João Carlos Martins comprou um piano no dia seguinte à vitória de seu pupilo, se reinventou, mudando toda a técnica de dedilhação e se apresentou em Nova York, no lendário Carnegie Hall, um ano e meio depois.

De volta ao topo, Eder Jofre ganhou mais dez lutas antes de ser nocauteado nos ringues da vida, representada por perdas na família. Seu pai faleceu a dois dias do filho completar 38 anos. A perda do pai, amigo e treinador de toda a sua vida minou a motivação de seguir no Boxe. Dois anos depois, a morte do irmão Dogalberto fez com que o Galo de Ouro desistisse de vez da carreira. Ainda mais porque tinha intenção de chamá-lo para ser seu treinador.

Então, aos 40 anos, escreveu “a carta de despedida ao povo brasileiro” e pendurou suas luvas no dia 24 de março de 1974. Foram 72 vitórias, sendo 50 por nocaute, quatro empates, duas derrotas e um “pequeno” detalhe: nunca foi nocauteado na vida.

A emocionante trajetória de Eder Jofre foi parar nos cinemas. O longa-metragem "10 Segundos Para Vencer" foi dirigido por José Alvarenga Jr. Eder Jofre foi interpretado por Daniel de Oliveira e Kid Jofre, seu pai, por Osmar Prado. A produção – lançada em setembro de 2018 – conta sua história e a relação entre ele e seu pai e treinador, além de mostrar suas grandes conquistas no Boxe.

Criada e produzida por Tomas Stravos, que também assina o roteiro, o filme foi premiado no Festival de Cinema de Gramado, com dois Kikitos: Melhor Ator para Osmar Prado (Kid Jofre), e Melhor Ator Coadjuvante para Ricardo Gelli (Antonio "Tonico" Zumbano).

O maior pugilista do Brasil de todos os tempos até hoje está eternizado em dois templos do Boxe, ambos nos Estados Unidos. No Hall da Fama de Canastota, se juntou, em 1992, a nomes como Muhammad Ali, Joe Louis, Rocky Marciano, George Foreman, Sugar Ray Leonard e muitos outros. Já aos 85 anos, entrou para o Hall da Fama da Costa Oeste dos EUA, em cerimônia realizada em um hotel de Los Angeles, ao lado da Calçada da Fama e do cinema que abriga o Oscar. Eder Jofre é o único brasileiro a figurar nos dois lugares “sagrados” da nobre arte.

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