(Foto: Divulgação)

Marcelo Arar na 'Escola da Luta', no Rio de Janeiro (Foto: Luana Lália)

LANCE!
28/08/2020
09:45
Rio de Janeiro (RJ)

Por Marcelo Arar

Começar algo novo nunca é fácil. Para João, de apenas 10 anos, não seria diferente. Pela primeira vez, ele vestiria um quimono e entraria no tatame para uma aula de Jiu-Jitsu. O nervosismo era grande, afinal, nunca fora uma criança atlética e tampouco extrovertida. No colégio, costumava ser a presa preferida dos pequenos valentões. Logo, estar diante de outras pessoas da mesma idade não lhe remetia a boas lembranças. Apesar disso, seguiu o protocolo. Sob os olhares atentos dos pais ao lado de fora, cumprimentou o tatame e seguiu em frente. Mal sabia que esses passos tímidos seriam os mais importantes de sua vida.

Antes que os leitores criem falsas expectativas, não estamos diante da história de um campeão mundial ou de um superatleta. João sequer chegou a graduar-se faixa preta de Jiu-Jitsu. No entanto, com apenas dois meses de treinos, foi capaz de revidar pela primeira vez um dos inúmeros insultos sofridos até então no colégio. Para os seus pais, soou como uma medalha de ouro. Afinal, nada pode ser mais doloroso do que ver seu filho ou sua filha sofrendo bullying. Mas isto ficou no passado. Depois de seis meses vestindo o quimono religiosamente, João já sentia-se confiante o suficiente para não se intimidar diante dos valentões. Com o tempo, as provocações foram cessadas e ir ao colégio deixou de ser um fardo em sua rotina.

Curiosamente, o rendimento acadêmico de João também melhorava. Toda a concentração e a disciplina trabalhadas durante os treinos de Jiu-Jitsu, pareciam se estender para a sala de aula. Seu raciocínio lógico também dava sinais de desenvolvimento. Para quem não sabe, o Jiu-Jitsu é a arte marcial com o maior número de variações de posições do mundo, e os detalhes fazem toda a diferença. Para se ter ideia, uma simples pegada diferente no quimono é capaz de alterar o peso do seu oponente e desequilibrá-lo. Portanto, é um desafio constante para a mente.

À essa altura, João já notava as mudanças que o Jiu-Jitsu havia trazido para si. E, motivado pelo seu professor, embarcou em mais um grande desafio: sua primeira competição. O nervosismo farejava a inexperiência do garoto e tentava desconcentrá-lo. Nas arquibancadas, os pais pouco podiam fazer. Seus gritos apreensivos se dissipavam pelo ginásio do Tijuca Tênis Clube, sem que pudessem chegar ao ouvido de sua cria. Ali era apenas ele e o mini trator contra o qual lutaria. Finalmente, seu nome foi chamado. João adentrou o corredor que separava a área de aquecimento e os tatames de luta e foi até o seu professor. Deu-lhe um abraço e foi para a guerra.

Neste momento, o resultado já não importava mais. João havia superado, mais uma vez, seu medo e estava pronto para lutar. Entrou no tatame, segurou a fera e foi para dentro. No fim, acabou derrotado por uma vantagem. Deixou o tatame um pouco frustrado, porém sorrindo. E após um longo abraço em seu mestre, perguntou: “quando é o próximo?”. Mesmo sem o braço levantado, ali João já era um vencedor.

Sua trajetória no Jiu-Jitsu durou mais alguns anos, quando na adolescência precisou dedicar-se mais intensamente aos estudos. Vieram outros desafios, outras vitórias e outras derrotas. No entanto, as lições aprendidas dentro do tatame jamais foram esquecidas e serviram como base para sua caminhada. Hoje, João tem 32 anos e é engenheiro civil. Nos conhecemos no Rio de Janeiro durante uma palestra na qual eu defendia, justamente, a inclusão das artes marciais nas atividades escolares do município, uma das minhas principais vitórias políticas.

Além de inspiradora, sua história me trouxe ainda mais convicção de que estamos no caminho certo e que graças ao nosso projeto as artes marciais poderão ser um grande diferencial na vida de milhares de crianças.