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A ciência por trás das pistas: por que o gelo não é tudo igual

Temperatura, espessura e textura são calibradas com precisão para cada esporte.

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Lance!
São Paulo (SP)
Dia 24/01/2026
07:04
Mundial Masculino de curling - Noruega (Foto: Michael Burns/WCF/CCA)
imagem cameraUma pista olímpica é um laboratório: o “gelo perfeito” varia conforme a modalidade (Foto: Michael Burns/WCF/CCA)

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As pistas de gelo nas Olimpíadas de Inverno são resultados de engenharia complexa, ajustadas para cada modalidade.
O Ice Meister é o profissional responsável por otimizar a qualidade do gelo, considerando fatores como temperatura e textura.
No hóquei, a prioridade é a velocidade, enquanto no curling, a textura e a temperatura são mais relevantes para o desempenho.
Resumo supervisionado pelo jornalista!

Para quem assiste aos Jogos Olímpicos de Inverno, o gelo parece sempre igual: branco, brilhante, liso. Mas a pista de competição é um produto de engenharia. Temperatura, química da água, textura da superfície e até a umidade do ar são ajustadas para favorecer o que cada esporte precisa: velocidade no hóquei, aderência na patinação, controle milimétrico no curling. Por trás do espetáculo existe o trabalho do Ice Meister, o profissional que "afina" a arena como se fosse um instrumento. O Lance! explica a ciência por trás das pistas de gelo.

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A ciência por trás das pistas do gelo

A engenharia do congelamento

Uma pista moderna começa com uma base sólida — geralmente uma laje de concreto — que abriga quilômetros de tubulações. Por esses tubos circula um fluido refrigerado (salmoura ou glicol), resfriando o concreto e permitindo criar e manter a camada de gelo.

O processo de construção da superfície é lento e controlado:

  1. Camadas finas: a água é aplicada em névoa ou películas muito finas para congelar de maneira uniforme, evitando bolsões de ar.
  2. Pintura: o gelo é transparente. O "branco" vem de uma camada de tinta aplicada após as primeiras camadas; depois, novas camadas selam tudo. Linhas de jogo (hóquei e curling) são pintadas ou inseridas na base.
  3. Pureza da água: a água costuma ser tratada para reduzir minerais e bolhas de ar. Menos impureza significa um gelo mais denso, previsível e resistente. A osmose reversa é uma prática comum nesse objetivo.

Diferenças cruciais entre as modalidades no gelo

A grande diferença entre "um gelo" e "outro gelo" está em dois fatores: temperatura (que define dureza e atrito) e textura (quanto a superfície é lisa ou propositalmente irregular).

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Patinação artística

Aqui, o gelo precisa ser ligeiramente mais "quente" e menos rígido.

  1. Temperatura: geralmente entre -3°C e -4°C.
  2. Por quê: um gelo um pouco mais macio permite que a lâmina "morda" a superfície com mais controle para saltos e giros. Também ajuda a amortecer impactos, reduzindo microtrincas e o risco de "prender" o patim em irregularidades.

Hóquei no gelo

No hóquei, a prioridade é velocidade e resistência ao desgaste.

  • Temperatura: em torno de -5,5°C a -8,3°C.
  • Por quê: gelo mais frio é mais duro, gera menos atrito e aguenta pancadas, frenagens e mudanças de direção sem virar um campo de "neve" acumulada que desacelera o puck e os patinadores.

Curling

O curling é a exceção mais interessante: a textura manda — e a temperatura, contra a intuição, é mais alta do que no hóquei.

  1. Temperatura: tipicamente -3°C, o gelo mais "quente" entre essas modalidades.
  2. Por quê: esse ajuste ajuda a manter o comportamento do gelo mais controlável para a pedra, enquanto a magia real vem do acabamento da superfície.

Pebbling (os "seixos"): antes do jogo, técnicos aspergem gotículas de água que congelam e formam pequenas elevações (pebbles). A pedra desliza sobre os topos desses pontos, reduzindo a área de contato.
Varredura: ao varrer, os atletas aquecem momentaneamente esses pebbles e alteram o atrito, controlando distância e curva com precisão.

Espessura, nivelamento e eficiência energética no gelo

Além da temperatura, a espessura do gelo é controlada com rigor, porque afeta estabilidade e consumo de energia.

  1. Espessura típica: cerca de 2,5 cm a 3,8 cm (aprox. 1 a 1,5 polegadas).
  2. Por quê: gelo grosso demais dificulta a troca térmica com o concreto, exige mais refrigeração e tende a deixar o topo "mole".
  3. Nivelamento: máquinas como a Zamboni não servem só para "limpar": elas raspam milímetros, coletam a neve solta e aplicam uma camada fina de água quente para preencher imperfeições e congelar liso. Em alto nível, o controle de planicidade pode envolver medições muito precisas (incluindo referência a laser).

Curiosidades operacionais das arenas

  • Arenas multiuso: em eventos grandes, uma mesma arena pode alternar configurações (por exemplo, patinação e provas de velocidade em pista curta). Ajustar temperatura e "assentar" o gelo pode levar horas, então o cronograma da manutenção vira parte do desempenho.
  • Umidade do ar: ar úmido aumenta condensação, pode gerar "névoa" e mudar atrito. Por isso, desumidificação é parte central da operação.
  • A lâmina no limite: em modalidades de alta velocidade, a pressão sobre o gelo é enorme. O gelo precisa ser duro e consistente para não ceder e não deformar onde a lâmina "corta".

No fim, o gelo é o árbitro invisível. Quando ele está bem calibrado, some do espetáculo — e deixa a habilidade decidir. Quando está errado, aparece em forma de quedas, tempos inesperados e um esporte que deixa de ser justo. É por isso que, nos esportes de inverno, "gelo" nunca é só gelo.

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