A história de Carlito Rocha, o começo da superstição do Botafogo
Dirigente transformou fé, rituais e o cachorro Biriba em parte do DNA alvinegro.

Carlito Rocha é o personagem que cristaliza a fama do Botafogo como o clube mais supersticioso do futebol brasileiro. Jogador, técnico, dirigente e presidente, ele atravessou diferentes eras do alvinegro e transformou fé, manias e até um cachorro vira-lata em parte da identidade institucional do clube. O Lance! conta a história de Carlito Rocha e o começo da superstição do Botafogo.
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Mais do que folclore, sua influência moldou a cultura botafoguense — da capelinha em General Severiano ao mascote Biriba — criando uma narrativa que atravessa gerações.
A história de Carlito Rocha, o começo da superstição do Botafogo
Quem foi Carlito Rocha no Botafogo
Carlos Martins da Rocha (1894–1981) esteve ligado ao Botafogo por décadas. Foi atleta campeão carioca em 1912, técnico campeão nos anos 1930 e presidente na campanha histórica de 1948.
Seu perfil era singular: profundamente religioso, carismático, político habilidoso e dono de convicções inabaláveis. Dentro do clube, exercia liderança simbólica. Fora dele, era conhecido como homem de fé e frases fortes.
O título carioca de 1948, encerrando jejum de 11 anos, seria o palco ideal para consolidar sua imagem como dirigente místico.
Superstição como método de gestão
Carlito não escondia sua religiosidade. Carregava santinhos nos bolsos, distribuía imagens a jogadores antes das partidas e fazia com que beijassem os objetos como forma de "abençoar" a equipe.
Mandou construir uma capelinha na entrada de General Severiano, espaço que permanece como símbolo da tradição alvinegra. Interpretava acontecimentos cotidianos como sinais divinos e transformava esses "presságios" em rituais.
Amarrar cortinas da sede para "amarrar" o adversário, definir horários e rotinas rígidas, impor pequenos gestos repetidos antes das partidas — tudo era parte de um sistema que misturava fé, psicologia e liderança.
Biriba: o cachorro que virou talismã
Em 1948, um vira-lata preto e branco encontrado por jogadores passou a frequentar o clube. Recebeu o nome de Biriba.
Durante uma partida em General Severiano, o Botafogo perdia quando o cachorro invadiu o campo. O jogo foi interrompido. Pouco depois, o time virou o placar. Para Carlito, aquilo não era coincidência.
Biriba foi adotado oficialmente como mascote. O dirigente fazia questão de levá-lo aos jogos e exigia sua presença inclusive em estádios rivais. Em algumas ocasiões, bateu de frente com dirigentes adversários para garantir a entrada do animal.
Naquele ano, o Botafogo foi campeão carioca ao superar o poderoso Vasco do "Expresso da Vitória". Para Carlito, estava provado: Biriba era talismã.
O episódio consolidou o cachorro como mascote histórico do clube e fortaleceu a narrativa mística em torno da campanha.
O "Deus de Carlito" e a consagração do mito
A fama de místico ganhou novo capítulo em 1957. Antes da decisão do Carioca contra o Fluminense, Carlito afirmou que havia "conversado com Deus" e que o título seria alvinegro.
O Botafogo venceu por 6 a 2.
O episódio inspirou a crônica "O Deus de Carlito", de Nelson Rodrigues, ajudando a eternizar o dirigente no imaginário do futebol carioca. A partir dali, superstição e Botafogo tornaram-se quase sinônimos.
Como nasceu o "DNA supersticioso" alvinegro
Historiadores e textos oficiais do clube apontam Carlito como o iniciador das crendices botafoguenses. Ele não apenas praticava rituais: institucionalizou a superstição como parte da identidade do clube.
Santinhos, promessas, mascotes, sinais, capelinha, frases místicas — tudo isso passou a integrar a cultura interna. A ideia de que "botafoguense é supersticioso" nasce muito dessa era.
Carlito Rocha deixou mais do que títulos. Deixou uma narrativa. E no futebol, narrativa também é patrimônio.
A fama do Botafogo como clube mais supersticioso do país começa ali — com fé no bolso, um cachorro à beira do campo e a convicção inabalável de que, às vezes, ganhar também é questão de crença.
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