O risco do 'doping financeiro' na expansão das SAFs no Brasil
Dívidas de R$ 16 bilhões e falta de processos nos clubes travam crescimento

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A Sociedade Anônima do Futebol (SAF), aprovada no Brasil no ano de 2021, trouxe aos clubes nacionais uma imediata sensação de "salvação". No entanto, diante de um ambiente de endividamento marcante, os 20 maiores clubes brasileiros já somam mais de R$ 16 bilhões em dívidas no ano de 2025, o que representa um crescimento de 16% em relação ao ano anterior, segundo levantamento da Sports Value. Por isso, a discussão sobre o modelo societário e seus efeitos reais para o ecossistema do futebol se torna necessária.
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A São Paulo Innovation Week, que aconteceu entre os dias 13 e 15 de maio, reuniu dois ex-atletas que hoje ocupam cargos de gerência no mercado corporativo do esporte. Elano, ex-jogador do Santos e atual diretor da base do clube alvinegro, e Paulo André, ex-jogador e atual gestor, trouxeram ao debate o choque de realidade do cenário nacional. Para eles, a simples mudança do modelo associativo para SAF não resolve um problema crônico do país: a falta de cultura de planejamento a longo prazo.
— O Brasil, popularmente, não consegue seguir a cultura do planejamento e respeitar o processo — apontou Elano.
Recuperação judicial tem de exigir punições
Paulo André, ao analisar a transição para o modelo de SAF, apontou que há uma falha estrutural no formato adotado no Brasil. A premissa inicial da lei era atrair melhores tomadores de decisão, mas o mercado falhou ao não estabelecer regras rígidas de fair play financeiro atreladas a punições desportivas na tabela do campeonato. Além disso, o gestor ressaltou que o mecanismo de recuperação judicial acabou se tornando uma muleta regulatória.
— O espírito da lei que foi criado direcionava que melhores tomadores de decisão criassem um ambiente mais saudável. Acho que faltou uma regra para que isso funcionasse: onde é que a gente coloca os inadimplementes e qual é a punição? — questionou Paulo André.
O gestor, que atuou como braço direito de Ronaldo Fenômeno no Real Valladolid, da Espanha, entre 2021 e 2024, destacou o contraste com o mercado europeu. Na liga espanhola, segundo Paulo André, o dinheiro dos direitos de transmissão recebe um carimbo regulatório, funcionando com um selo que garante a sustentabilidade financeira ao determinar para quais áreas o clube pode ou não destinar os recursos. No Brasil, por outro lado, os clubes direcionaram essas receitas majoritariamente para a contratação de jogadores.
Ainda mais grave, segundo o executivo, brechas legais como a recuperação judicial têm sido desvirtuadas como uma espécie de "doping financeiro". Os clubes gastam fortunas desalinhadas com suas capacidades, entram em recuperação para renegociar as dívidas e, diferentemente do que ocorre nas ligas europeias, não sofrem nenhuma sanção esportiva.
— Recuperação judicial pode ser um doping financeiro e o clube esportivamente não é punido. Se tivesse estabelecido que a SAF que não cumpre a questão financeira volte casas atrás para depois disputar a Série A novamente, o problema estaria resolvido — afirmou Paulo André.
Como contraexemplo prático de responsabilidade, ele citou a reestruturação orçamentária do Cruzeiro, projeto do qual também participou ao lado de Ronaldo. A equipe mineira precisou adequar agressivamente seus gastos às receitas reais enquanto disputava a Série B para evitar a falência total.
— Em 3 anos de Série B, o Cruzeiro arrecadou 90 milhões de reais. A gente fez esta Série B com o orçamento de 45 milhões. No ano seguinte, em que subimos para a Série A, gastamos o que geraríamos, aproximadamente 110 milhões. E arrecadamos cerca de 160 milhões, sendo o sexto maior orçamento da Série A — detalhou o gestor.
Pressão por resultados destrói visão de longo prazo
Na visão de Elano, essa irresponsabilidade financeira tem origem em um defeito essencialmente cultural brasileiro: a incapacidade do mercado nacional de respeitar etapas. Dirigentes, torcida e investidores cobram resultados imediatos, o que faz com que a tomada de decisão seja baseada no desespero de curto prazo.
Esse cenário de impaciência crônica, que frequentemente faz profissionais abandonarem projetos no meio do caminho, a exemplo da própria passagem de Elano pelo Flamengo, contrasta diretamente com ecossistemas de excelência estruturadas.
O ex-jogador citou o Palmeiras como o grande exemplo nacional de processo respeitado, demonstrando que, mesmo não operando sob o modelo de SAF, o clube se mantém organizado e dominante nas finanças e no campo porque segue etapas rígidas. O diretor da base santista concluiu fazendo um desabafo sobre o mercado atual.
— Um dos motivos de eu não ser mais treinador é porque não há respeito ao processo aqui no Brasil. (...) Virou normal no Brasil os clubes deverem — finalizou Elano.
Receita do futebol brasileiro chega a R$ 15 bi, mas despesas crescem
Os dados consolidados do mercado explicitam um forte paradoxo. Ao mesmo tempo em que o endividamento geral avançou de 2024 para 2025, o último ano registrou o recorde histórico em geração de receita no futebol brasileiro, movimentando mais de R$ 15 bilhões, um crescimento de 36% em comparação aos R$ 11 bilhões gerados em 2024.
Contudo, a indústria nacional mostra sinais severos de inflação interna. O aumento do faturamento foi acompanhado por uma escalada nos custos operacionais, com a folha salarial e despesas correlatas saltando de R$ 5 bilhões em 2024 para R$ 6,3 bilhões em 2025, uma expansão de 26% que pressiona a margem de lucro e a sustentabilidade dos clubes. Os dados são referentes à pesquisa da Sports Value.

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