Guilherme Amaro e Marcio Porto
03/06/2018
06:20
São Paulo (SP)

- Desde muito jovem, quando comecei a dar meus primeiros passos no futebol, meu pai sempre falava que o Zico era ídolo para ele. Só falava de Zico, Zico, Zico! E eu aprendi a gostar do Zico da maneira que meu pai falava.

A frase acima seria absolutamente normal se proferida por Lucas Paquetá, Vinícius Júnior, ou qualquer outro jogador com raízes e identificação com o Flamengo. Mas ela é de um jogador criado no Vasco, principal rival da camisa rubro-negra eternizada por Zico. É de Mateus Vital, que neste domingo defenderá o Corinthians no Maracanã, às 16h, contra o.... Flamengo! Dias depois de realizar o sonho de conhecer... Zico! 

Mateus foi criado nas categorias de base do Vasco, time de coração da família. Mas seu pai, alheio à rivalidade carioca, nunca hesitou em contar os feitos do maior camisa 10 da história do Flamengo. Comprou livro com a história do "Galinho de Quintino". Exibiu vídeos com as incomparáveis cobranças de falta do ex-meia da Seleção. Pronto. Estava plantado o sonho na cabeça do menino. O "Ziquinho", como era chamado pelo progenitor, queria porque queria conhecer o homem que seu pai queria que ele fosse. 


O GRANDE ENCONTRO
Demorou 20 anos para o sonho de Mateus se realizar. Negociado pelo Vasco com o Corinthians no início de 2018 por cerca de R$ 6 mllhões, o meia conheceu Zico dias atrás por intermédio do LANCE!, que propôs e proporcionou o encontro.  Recheado de emoção, nobreza e fraternidade, sentimentos tão caros atualmente, o papo na Lay's  Fan Experience, casa de uma das patrocinadoras da Liga dos Campeões da Europa em São Paulo, foi longe. 

- Ele (Mateus) tem um grande futuro pela frente. Tomara que acerte, essa oportunidade, jogando em um time grande como o Corinthians, time vencedor. Saiu de um vencedor para outro. Tem uma carreira brilhante pela frente, que Deus o abençoe - foram as primeiras palavras de Zico, ao ser apresentado ao fã, após participar de um bate papo sobre a Liga pelo Esporte Interativo, canal do qual é comentarista atualmente. 

Mateus, que esperou ansioso pelo momento de abraçar o ídolo, se derreteu.

- Como falei, sempre fui fanático pelo Vasco, mas meu pai sempre foi fã dele. Ele me zoava, me chamava de Ziquinho, queria que eu parecesse com ele. Sempre muito fã, não só pelo futebol como pela pessoa. Já posso falar que conheci realmente o Zico.

APRENDA COM O MESTRE
Não foi apenas conhecer. Mateus Vital teve a honra de receber conselhos do grande craque, que neste domingo poderão virar arma, vejam só, contra o Flamengo. O Corinthians tenta encostar alcançar o adversário na tabela com seu meia que ganhou inspiração para cobrar faltas. Ninguém melhor do que o Galinho para ensinar.

- É treinamento, perder tempo - começou Zico. 

- Ganhar, no caso! (Interrompeu Mateus, de forma educada, mas já mais à vontade ao lado do ídolo).

- (Zico retorna) Tem de convencer o treinador, o preparador físico, para ir lá, bater falta depois do treino. Treinar com o lado direito do pé, com o lado esquerdo. Treinamento te dá condição para você ir para o jogo com tranquilidade e fazer acontecer. Cada um monta sua característica. Tem de conhecer os goleiros, como eles armam as barreiras. Por exemplo: se você bate do lado direito e de perna direita, tem de por a bola passando no terceiro ou quarto homem da barreira. Se bate do outro lado, no último homem. Tem coisas que são importantes. Essas são as regras. 

Mateus ouvia atentamente com os olhos brilhando. Ele tem tentado aplicar os conceitos nos treinos, apesar de que nos jogos ainda não foram possíveis. Ainda não cobrou falta pelo Corinthians, que tem Jadson como especialista. No entanto, marcou seu primeiro gol pelo novo clube no domingo passado, na derrota de 2 a 1 para o Internacional. Hoje, é titular e luta por  mais espaço para aplicar as lições dadas pelo ídolo. 

- Vindo dele, tem de escutar, observar bastante, porque foi um dos que batia como ninguém. Vou procurar seguir os passos dele para ter mais êxito. Estou mais preparado e mais confiante a partir de agora - afirmou o garoto. 

Com a benção do maior ídolo da história do Flamengo, é bom o goleiro Diego Alves se cuidar neste domingo no Maracanã. Em outras palavras, seria como se o feitiço virasse contra o feiticeiro. Mas só no jogo, porque fora Zico e Mateus deram uma grande lição de humanidade. 

BATE-PAPO COM MATEUS VITAL SOBRE ZICO

Nunca chegou a ter contato com o Zico antes?
Não. Eu joguei uma Copa Zico quando garoto, a final no Maracanã, mas o único contato foi entrega da medalha, mas não cheguei a falar, tive pouco contato. Mas o que eu queria mesmo era conhecê-lo e poder falar com ele.

O que mais impressionou quando começou a conhecer o jogo do Zico?
Batia na bola como ninguém. Como poucos. Parecia que ele cobrava faltas com a mão e a qualidade com a bola no pé.

Tem cobrado faltas?
Sempre bati faltas na base. Mas no Corinthians não tenho batido. De vez em quando, bato escanteios. Até treino faltas, mas a bola parada fica mais com o Jadson. Mas coloquei na minha cabeça que vou treinar, porque tenho essa qualidade e treinar bastante. Tenho esse objetivo.

Vai tentar imitar, se inspirar nele?
Imitar é difícil, né? (Risos). Mas tem uma inspiração, tem que ter, com essa qualidade.

Como foi lidar com essa admiração jogando no maior rival?
Pois é, eu meio que escondia isso. Na época do Vasco não podia falar muito, e hoje expresso melhor, podendo falar um pouco melhor do Zico, já que estou um pouco longe. Como ele era ídolo do Flamengo, eu meio que escondia. Mas agora estou me soltando mais quanto a isso.

Por que você escondia?
Para preservar um pouco. Até a torcida. A torcida não iria gostar tanto, então preferi preservar.

Esse carinho pelo Zico também se estendia ao Flamengo?
Não, não. Eu sempre fui vascaíno, a família toda. Meu avô é português, vascaíno, meu pai vascaíno roxo e eu aprendi a gostar muito do Vasco, como minha família inteira gostava.

E seu pai era vascaíno e gostava do Zico mesmo assim?
Mesmo assim. Gostava muito do futebol. Eu achava até estranho, perguntava: "Ô, pai, como o Zico?". É difícil até de explicar, mas é o jeito que ele joga, a qualidade que ele tem. Sou fã.

O que levará desse dia?
Consegui conhecer meu ídolo, cara que é minha referência. Vou passar para eles a história que meu pai passou, que acabei virando fã, mesmo sem ter visto jogar. E vou procurar passar para os meus filhos, porque se foi para mim, pode servir para eles também.

BATE-PAPO COM ZICO SOBRE O ENCONTRO COM MATEUS

O que achou desse encontro incomum, ter um fã vascaíno?
Um dos grandes rivais da minha época era o Roberto (Dinamite, maior artilheiro da história do Vasco). E hoje é um dos grandes amigos. Temos de saber separar. O Brasil está precisando disso. Dentro de campo somos apenas adversários, mas fora podemos ser amigos. Gostar um dos outros, de outros times, acho que o Brasil está precisando disso.

Ele está disputando Brasileiro, Libertadores. O que pode passar para ele nesse momento?
Passar que ele tem de estar sempre determinado. Uma felicidade por méritos dele. Time vencedor, com jogadores experientes. Futebol é treinamento, dia a dia, disciplina, determinação. O talento Deus deu a ele, agora é colocar isso em prática.

O que achou da saída dele do Vasco?
Uma pena. O Vasco enfraqueceu e está pagando um preço alto por isso. Perdeu grandes jogadores e ele é uma das promessas, com Paulinho, Evander. Você paga por isso.

Ele tinha um sonho e nem podia falar disso porque era Vasco.
Infelizmente, os caras ficam com essa preocupação de não falar nome do adversário. A gente entende isso. Mas é a melhor resposta para a gente, saber que as pessoas do bem, que tem você como referência. É a melhor coisa que tem, de saber que foi bem feito.

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