Luiz Gomes: 'O não de Ramirez ao Palmeiras é um não ao futebol brasileiro'
'Até o início dessa rodada do Brasileirão, 11 técnicos já foram demitidos. Só o Goiás trocou de treinador mais de uma vez - e ainda estamos no primeiro turno'

Um dos motivos, talvez o principal, que afastou do Palmeiras o técnico espanhol do Independiente del Valle foi a insegurança do futebol brasileiro. "Estou começando a minha carreira profissional, preciso medir bem os passos que dou e pisar em solo firme para seguir avançando", disse Miguel Ángel Ramírez, ao comentar o final das negociações. É um temor mais do que justificado, não é mesmo?
Até o início dessa rodada do Brasileirão, como se sabe, 11 técnicos já foram demitidos. Só o Goiás trocou de treinador mais de uma vez - e ainda estamos no primeiro turno. Apenas três, Renato Gaúcho, uma espécie de patrimônio do Grêmio, há quatro anos no cargo; o sempre ameaçado Fernando Diniz, que vive equilibrando-se na corda bamba são-paulina; e o super prestigiado Rogério Ceni, do Fortaleza, viraram o ano no mesmo lugar em que ainda estão.
É uma questão cultural. O futebol brasileiro é movido única e exclusivamente por resultados. Planejamento de médio ou longo prazo é algo que não passa pela cabeça da cartolagem. Tolerância e razão não são palavras que fazem parte do dicionário do torcedor. O que por vezes resulta em atos inadmissíveis como agressões a jogadores, técnicos e invasões de CTs. E nós, da Imprensa, é preciso fazer uma mea culpa, não raro acabamos alimentando essa roda, com especulações e dando ouvido a abutres que voam soltos pelos gabinetes e arenas de clubes Brasil afora.
Mas há algo que vai além: o modelo amador de gestão dos clubes brasileiros é o principal motor que movimenta essa máquina de triturar técnicos. Onde falta profissionalismo, sobra subjetividade, vaidade, abre-se espaço para pressões internas e a formação de grupelhos eleitorais. A cada dois ou três anos é preciso fazer política, cada cartola que entra que mudar o que o que outro fez. Interesses pessoais se sobrepõem aos interesses do clube. E o técnico que era bom para um pode não servir para outro. Ainda que os números e os resultados dentro de campo não justifiquem uma mudança.
Certamente, Miguel Ángel Ramírez, que é bem informado, levou tudo isso em conta ao recusar a proposta do Verdão.
Um levantamento da consultoria Pluri, divulgado essa semana, revela que 11 dos 20 clubes da Série A - Atlético Mineiro, Bahia, Botafogo, Corinthians, Coritiba, Goiás, Internacional, Santos, São Paulo, Sport e Vasco – tem eleições marcadas até o final desse ano. O Cruzeiro, outro grande, acabou de eleger o novo mandatário e mesmo na Série B pode se somar a essa lista. Os analistas da consultoria destacam no documento que "a mudança de estruturas internas, que costuma caracterizar a alternância de poder, frequentemente acarreta ineficiências derivadas da descontinuidade de gestão e da perda do estoque de conhecimento que se dá após a saída de executivos antigos". Uma triste realidade, que só um modelo empresarial, como existe na maioria dos grandes clubes europeus, seria capaz de evitar.
Em alguns desses clubes, como o Santos, o Vasco e o Corinthians – sem falar no Cruzeiro, muito próximo do fundo do poço, para onde foi empurrado por gestões temerárias e envolvidas em delitos de vários tipos - o cenário é de alta complexidade e eles chegam as eleições envolvidos em um clima de absoluta instabilidade interna. E o pior é que, exceto no Peixe, os efeitos desse caos têm se refletido dentro de campo.
A eleição do Palmeiras é só no ano que vem. Mas os nomes da presidente da patrocinadora, Leila Pereira e do ex-presidente Paulo Nobre – cuja candidatura pode ser questionada por exigências estatutárias - já agitam o horizonte da política palestrina. O contrato que a diretoria alviverde propôs a Ramirez seria de dois anos. Ou seja, ultrapassaria o mandato da atual gestão – o que é outra praxe no futebol tupiniquim. Mas será o Palmeiras a partir da eleição o mesmo Palmeiras de hoje, com os mesmos projetos, a mesma proposta? Como só pretendia deixar o Independiente após a final da Libertadores – sim, ainda há quem respeite contratos e palavras – Ramirez teria menos de um ano para comandar o Verdão até a eleição. Certamente, nada a ver com o solo firme que ele diz procurar.

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