Corinthians comemorando o título do Brasileiro feminino 2018

Corinthians é o atual campeão brasileiro feminino (Foto: Divulgação/CBF)

Luiza Sá
08/03/2019
07:30
Rio de Janeiro (RJ)

Valorização e reconhecimento. Esta é a resposta praticamente unânime quando se fala naquilo que as jogadoras de futebol feminino querem para a modalidade, especialmente com todas as mudanças planejadas para 2019. Mesmo com a obrigação imposta pela CBF e Conmebol para que os clubes montem equipes de mulheres, o caminho ainda é longo para a evolução que elas precisam e merecem. 

O LANCE! perguntou à atletas de diversos clubes brasileiros o que elas gostariam de ganhar de presente nesse Dia da Mulher, além das dificuldades que enfrentaram e ainda enfrentam na carreira. Melhores condições para treinamentos, campeonatos e de carreira são as demandas de quem luta contra o preconceito e a pouca estrutura da modalidade.

Maurine - Santos
Maurine, pelo Santos (Foto: Pedro Ernesto / Santos FC)

Maurine, meia do Santos

Gostaria que tivesse mais valorização e apoio. As coisas estão mudando neste ano, mais times estão aparecendo. Porém, não pode ficar só nisso. O futebol feminino tem um potencial gigante, só precisa ser melhor explorado.

A maior dificuldade é o preconceito desde o início. Além disso, também foi muito complicado conseguir um salário digno para poder ajudar minha família. Hoje a condição no Santos FC melhorou bastante, mas sei que várias meninas sofrem com isso ao redor do Brasil.

Rubi - São Paulo
Rubi, do São Paulo (Foto: Arquivo Pessoal)

Rubi, goleira do São Paulo

O presente que eu gostaria é mais visibilidade da modalidade. Que as pessoas parassem de olhar para o esporte como algo masculino e percebessem que mulher também sabe jogar e muito bem. Tendo isso, consequentemente teremos divulgação, acaba chamando a atenção de patrocinadores e mídia.

Uma das maiores dificuldades que enfrentei e enfrento é o preconceito. A falta de investidores e mídia, infelizmente vivemos em um país muito machista ainda. Isso dificulta o crescimento da modalidade. Mas estamos conseguindo mudar isso. Em passos lentos vamos vendo uma evolução.

Zizi - São Paulo
Zizi é do São Paulo (Foto: ME SPORTS AGENCY)

Zizi, zagueira do São Paulo

O presente, sem dúvidas, seria o respeito que a modalidade merece. As dificuldades que passei foram na estrutura para treinar, alimentação, salários, que normalmente alguns clubes não pagam ou só fazem 30 ou 40% do acordo. É um desrespeito com a modalidade. Acredito que a dificuldade maior é o desrespeito que tem. Hoje eu não sofro mais com isso, estrutura, alimentação, salários, departamento médico. Mas não temos mídia e acompanhamento desse nível.

Suellen - Corinthians
Suellen, do Corinthians (Foto: Bruno Teixeira/Corinthians)

Suellen, lateral-esquerda do Corinthians

Gostaria que o futebol feminino fosse mais reconhecido, tanto quanto o masculino. Financeiramente e nos valores que recebemos. As dificuldades são o preconceito, dúvidas com relação à capacidade da mulher, falta de respeito. Queria que tudo minimizasse. É difícil de acabar, mas pode diminuir bastante.

Juliana Pacheco - Vasco
Juliana, em ação pelo Vasco (Foto: Divulgação)

Juliana Pacheco, capitã e volante do Vasco

Gostaria de ver uma maior profissionalização das atletas. Obrigação de assinar a carteira de trabalho para que as jogadoras possam se sustentar sem precisar de outro trabalho por fora e, com isso, poder focar só no futebol com treinos integrais. Também precisamos da criação de mais campeonatos para que possamos estar sempre jogando.

As maiores dificuldades foram no início, que eu precisava ir a São Januário para treinar e não podia ir sozinha, pois era perigoso e eu era muito nova. Sempre precisava ter alguém junto, mas não tinham dinheiro nem para mim, imagina para um acompanhante. Minha mãe ou quem podia no momento me levava. Depois de um tempo meu avô, mesmo depois de um AVC, ia. Ficava feliz pois estava me levando e me ver jogar. Isso é o que me sustenta até hoje, me dá mais força para continuar. Dar uma vida melhor para essas pessoas. Hoje eu ainda tenho dificuldades, especialmente sem a ajuda de custo e alimentação. Às vezes temos que sair cedo de casa e não comemos direito. Chegamos ao treino e ficamos com fome, na hora de ir embora não tem o que comer. O trajeto até em casa é longo. Se tivesse uma ajuda seria melhor. Tem meninas que precisam faltar porque não tem dinheiro para ir. No futebol feminino muitas atletas ajudam as outras para conseguir que todas treinem.

Ju Ferreira - Flamengo
Ju Ferreira, do Flamengo (Foto: Staff Images/Flamengo)

Ju Ferreira, meio-campo do Flamengo

O presente que eu gostaria para a modalidade nesse Dia da Mulher é uma maior valorização e o reconhecimento, assim como acontece com o futebol masculino. As maiores dificuldades que enfrentei por ser jogadora no país foram o preconceito, a desvalorização, a falta de apoio e a dificuldade financeira.

Natália Lima - Fluminense
Natália, em ação pelo Fluminense (Foto: Laís Patrício)

Natalia Lima, atacante do Fluminense

Acredito que todos nós, que de alguma forma fazemos parte do futebol feminino, esperamos o crescimento e valorização da modalidade. Uma das minhas maiores dificuldades foi a questão financeira, pois no início de tudo, precisava me virar para ter a passagem e ir aos treinos. Outra dificuldade é o preconceito. Mesmo depois de anos da modalidade, ainda existem pessoas que agem com preconceito e assim, muitas meninas acabam desistindo de seus sonhos.

Suzani - Fluminense
Suzani, do Fluminense (Foto: Laís Patrício)

Suzani Loreti, goleira do Fluminense 

O futebol feminino precisa ser visto com outros olhos. Largamos nossas famílias e passamos a maior parte do tempo juntas por uma modalidade que precisa ser vista. Precisamos que nos enxerguem não como mulheres entrando no espaço masculino, mas sim, como mulheres lutando pelos mesmos sonhos que eles. É isso que desejo nesse dia. As dificuldades na modalidade são imensas, muitas vezes ficamos sem o dinheiro da passagem para ir aos treinos, temos que trabalhar em outros lugares para ajudar com os gastos, isso faz com que nosso desempenho no campo seja comprometido. Ao longo do tempo, isso foi melhorando, mas não de forma significativa ao ponto de termos o futebol como o único meio de nos sustentarmos.

Andressa - Fluminense
Andressa, pelo Fluminense (Foto: Laís Patrício)

Andresa Ferreira, volante do Fluminense

Gostaria que o futebol feminino fosse mais valorizado. Que os times abraçassem nós mulheres de verdade e não que mantenham o feminino só por ser uma obrigatoriedade. Gostaria também que houvesse mais visibilidade e investimento na modalidade. Muitas vezes, não tinha dinheiro da passagem, então, não podia treinar. Outras vezes, o dinheiro de comprar algo para comer na rua tinha que ser economizado para a passagem. A cobrança por arrumar um emprego aumenta cada vez mais, já que muitas vezes, a atividade não tem remuneração. Sempre houve também muito preconceito na questão de ser mulher e praticar o futebol, já que para muitos, isso ainda é um esporte de homens.

Daiane Moretti, meia do Internacional

Gostaríamos de ter mais visibilidade, mais incentivo ao futebol feminino, mais apoio da mídia, mais divulgação. E também ter jogos preliminares. As maiores dificuldades na modalidade sempre foram o preconceito e a falta de apoio.

Thayane - Cruzeiro
Thayane, do Cruzeiro (Foto: Gustavo Aleixo/Cruzeiro)

Thayane, meia do Cruzeiro

O presente seria mais reconhecimento. Que o futebol feminino fosse valorizado e tivesse o investimento que o masculino tem. A maior dificuldade acredito que foi a falta de estrutura, falta de apoio à modalidade. É isso que tem de mais complicado no Brasil. Senti uma melhora desde que comecei, com certeza. Do que era, está melhorando bastante.

Jacqueline Barbosa Vieira Leite (Jack), lateral-direita/esquerda do Atlético-MG

Gostaria de ter mais visibilidade e a valorização da modalidade. As maiores dificuldades são o preconceito, por ser considerado sexo frágil. Mas a dedicação e amor pelo esporte é o mesmo que o deles, isso se não for maior, que se colocar na ponta da caneta, não tem comparação.

Taislene Santos Vieira, atacante do Atlético-MG

Um presente para essa modalidade é mais reconhecimento e oportunidades, porque sei que tem várias mulheres com o talento radiante pelo mundo. Seja qual for a profissão, sempre nós mulheres vamos enfrentar dificuldades. No futebol, o problema é um pouco maior porque muitos tem a visão machista que mulher tem que permanecer dentro de casa, lavando, passando e cozinhando. Por mais que já tenham muitos time femininos, ainda somos pouco vistas. Temos uma boa estrutura, mas ainda teremos muitos obstáculos a serem enfrentados.