Gerson, Canhotinha de Ouro

Gerson recebeu o LANCE! nos estúdios do SBT Rio, onde atua como comentarista (Foto: Bárbara Mendonça/LANCE!)

Bárbara Mendonça*
18/10/2018
07:00
Rio de Janeiro (RJ)

É inegável que Gerson tenha propriedade de sobra para discutir Seleção Brasileira. Conhecido pela precisão de seus lançamentos, o "Canhotinha de Ouro" foi tricampeão da Copa do Mundo com a Canarinho em 1970, sendo peça essencial naquele elenco - que é tido por muitos como um dos melhores da história do futebol.

O ex-jogador é fã assumido do trabalho de Tite e inclusive já enviou uma camisa com dedicatória ao treinador, mas não blinda o comandante de críticas. Para Gerson, o momento é de testar modificações nos amistosos da Seleção, visando definir o time que será titular da Canarinho de uma vez por todas.

O Canhotinha de Ouro recebeu o LANCE! para um bate-papo nos estúdios do SBT Rio, onde atua como comentarista esportivo. Dentre os tópicos discutidos estão o trabalho de Tite, conselhos a Neymar, a memória de Capita e até ditadura militar, entre outros. Confira a seguir a entrevista com Gerson!

LANCE!: Que avaliação você faz do trabalho de Tite até aqui? Principais pontos positivos e negativos...

GERSON: Eu estou gostando do trabalho, mas acho que, justamente com esses jogos amistosos, ele já deveria ir modificando o time pensando na Copa América e nas Eliminatórias. Porque de repente, quando você menos espera, as Eliminatórias já estão aí. E Eliminatória é Copa do Mundo! Se (não levar a sério) não se classifica e aí você está fora. Acho que, nesse time que ele está colocando, existem uns três ou quatro jogadores que já poderiam ter saído.

O Arthur, por exemplo, tinha que ser titular, o segundo homem no meio de campo. Acaba logo com isso! Bota logo o cara, ele é mais jogador que os outros. Tem que definir o centroavante, quem é quem, definir o posicionamento do Philippe Coutinho, se é pela esquerda ou pela direita... Laterais, ele não tem lateral-direito! Todos que entraram são ruins! Na esquerda tem o Marcelo, mas ele já tá numa descendente.

Na sua opinião, o Tite tem potencial pra entrar no hall de grandes treinadores da história da Seleção?
Acho que o Tite tem tudo para entrar, sim, desde que ele tenha pulso forte para fazer essas modificações todas. Porque o Brasil está precisando!

No Brasil Global Tour, só 9 dos 46 amistosos foram realizados no Brasil, o que mostra um grande afastamento entre a Seleção e o povo. Acha que a CBF transformou o esporte em produto de vez?
A CBF e a Seleção têm medo de serem vaiados aqui no Brasil, só por isso. E outra coisa: eu sou contra esse tipo de amistoso. Você está entrando com seu pessoal todo, não são reservas, esse é o grupo que está 'na crista da onda'. Aí você dá tudo de si e recebe o quê? A Arábia Saudita? Deles você não vai receber nem petróleo. Não adianta! Tem que jogar com Inglaterra, França, Alemanha, Itália. Nem com a Argentina, porque hoje são só uns mortos de fome que estão lá largados, não é a principal.

Não é a seleção principal dos adversários, mas nós estamos entrando com os nossos principais jogadores. Se eles vão sair hoje ou amanhã, aí já não sei. Mas hoje é a equipe principal. Você tem que jogar com os melhores (rivais) porque são eles que vão jogar uma final de Copa do Mundo. A Arábia Saudita nunca vai disputar um título de Mundial. Colômbia, esses "negócios" aí... Vão até o meio do caminho e depois param. Não adianta jogar contra esses caras, é perder tempo.

Um conselho que você daria a Neymar?
Tem que perguntar pro Neymar o que ele quer. Quer jogar, quer cair ou quer se enfeitar todo? Esse joguinho daí qualquer outro joga igual, e ele é um dos melhores, senão o melhor (na Seleção). Ele tem todo direito de se arrumar para fazer publicidade, mas... Profissional não é isso. Isso é fora do campo. O que eu acho justo é o seguinte: bate no ombro dele e pergunta "vem cá, você não acha que está caindo demais? O cara olha pra você e você cai. Você foi ridicularizado no mundo inteiro depois da Copa quando deveria ter sido campeão. Deveria ter sido o melhor jogador, deveria ter levado os troféus todos! E não foi. Por quê? Leva uma trombada e cai, fica rolando e rolando. Aí o cara levanta e você sai correndo, então não estava machucado."

Não satisfeito, ele peitou o juiz (contra a Costa Rica, na fase de grupos), levou cartão. Esperou o árbitro entrar no vestiário para discutir! Ele tinha que ter sido expulso ali. Ele não foi lá para isso, foi lá para jogar. É isso que cobramos do Neymar porque ele sabe fazer muito bem. Ficar escondido na ponta eu faço, e com 77 anos! Me deu a bola, eu sei, eu toco para você. Que jogo é esse? Ele tem que puxar pra si a responsabilidade.

Alguém do grupo atual da Seleção teria vaga em 1970? O grupo do tricampeonato foi o melhor que você já viu?
Esse time de hoje não carregaria nem a nossa bolsa na menor das viagens. A melhor Seleção que eu vi jogar, tecnicamente falando, foi a de 1958. Mas de conjunto, foi a de 1970, porque foi um grupo armado praticamente em 1968, nas excursões que fizemos na Europa, nas Américas e depois nas Eliminatórias.

Faz quase dois anos que perdemos o Capita. Tem uma memória favorita dele?
Carlos Alberto Torres foi um grande companheiro, um grande amigo (aqui, a voz do Canhotinha embarga. Ele para e respira fundo para evitar as lágrimas). Nós tínhamos combinado um almoço para a semana seguinte à morte dele. Como jogador, a gente não vai nem discutir aqui. Vão se passar mais de 150 gerações antes de aparecer outro igual.

Como é seu relacionamento com o grupo de 70? Vocês ainda são amigos, ainda se encontram?
De vez em quando um fala, quando se encontra, às vezes nessas reuniões que a CBF organiza de vez em quando, quando na verdade deveria organizar todos os anos! A gente só se junta, infelizmente, quando é pra velar o corpo de alguém, doença, essas coisas. Aí a gente começa a procurar uns aos outros para saber como é que está. A CBF devia juntar todo ano os campeões do mundo, fazer uma festa. Porque isso é uma festa! Se fosse em qualquer outro lugar do mundo, por exemplo, o Zagallo teria uma estátua. E hoje, ele entra e sai da CBF como se fosse qualquer um. E ele não é! Tinha que ter ali: "antes de você entrar, você tem que passar pelo Zagallo". Ninguém no mundo tem o que ele tem, fez o que ele fez. Aqui ele é como outro qualquer, isso está errado.

E quem foi o pior técnico que você viu na Seleção e por quê?
Ah, para mim, o pior treinador foi o Dunga. Primeiro que ele já não sabia nada como jogador, ali no meio de campo era só 'trombador'. E na Seleção Brasileira ele pensou que era o Guardiola...

Ele não gostava do termo 'Era Dunga' depois da eliminação de 90...
​​Isso é normal, tem sempre um personagem que vai ser caçado. E é "Era Dunga" porque ele era o capitão, era isso, era aquilo. "Peitava" todo mundo, deu cabeçada no Bebeto! Por que que não deu no Romário, nesses zagueiros (ele faz gesto de "bruto" com o corpo) aí? Foi pegar o mais tranquilo. Por todas essas razões, carimbaram ele com isso. Mas não quer dizer nada. Foi campeão do mundo e aí acabou o problema.

A conquista da Copa de 70 foi amplamente usada pelo Governo como propaganda do regime militar, mesmo que vocês não tivessem nada a ver com a ditadura. Teve até jingle, "pra frente, Brasil!", teve troca-troca de técnico depois do João Saldanha barrar o Dario, que Médici queria. Como você analisa esse uso do esporte para fins políticos e a função do esporte enquanto ferramenta social?
Isso aí é coisa deles dois, Saldanha e Médici. Não fomos massa de manobra, nós não temos nada com isso. Fomos para o México para jogar futebol e só, fomos para ganhar. Sabíamos o que estava acontecendo aqui, mas nunca um militar chegou lá na concentração e pediu "olha, vamos fazer isso pelo Brasil". A gente não aceitaria. Fomos representar o país, independente de qualquer coisa. Essas perguntas são muito boas, porque a gente tem que alertar os jovens sobre o que foi o regime, o que é, o que está por vir. Isso tudo entra em um contexto.

Nós discutíamos o que achávamos, mas declaração política? Não viemos dar declaração para ninguém, viemos para jogar bola. Se a gente não jogar, somos desclassificados e vamos embora, e essa é nossa profissão. Amanhã, de uma maneira ou de outra, o regime político muda. Sempre trocou e sempre vai trocar. Acho que vocês (população) têm que se posicionar sim, mas não é segurar uma bandeira. Vai tomar a frente? Vou. Aí depois troca o governo, como é que faz? Tem que se analisar isso muito bem. O Brasil de hoje não é o mesmo de ontem, muito menos sabemos o de amanhã. Se os políticos não sabem, nós é que vamos saber?

Tem acompanhado a Seleção Sub-20? Quais são suas principais apostas para a Copa de 2022?

Não tenho acompanhado, não. Aqui no Brasil a gente não acompanha as categorias de base, infelizmente. O juvenil dos nossos clubes só serve para ser vendido. Não serve para você subir aos times principais e não serve à Seleção Brasileira. Por que serve lá fora, mas não funciona aqui? Vinicius Junior, Paquetá, Pedrinho, Paulinho... Todos foram exceções. E por que não ficaram nos clubes? Por que não foram à Seleção principal? Isso é um risco que a gente corre. Um garoto desses sai daqui, sem ter atuado pela Seleção, vai para o exterior e eles credenciam ele. Com isso, eles entram em outras seleções que não a nossa.

Aí o jogador pensa "ah, não, vou optar pela Seleção Brasileira". Ele chega aqui, faz dois treinos e é mandado embora. E aí? Ele perdeu a chance em outro país. Como é que os filhos de um monte de atletas nossos não jogam pelo Brasil? Gente, o Mazinho, que jogou na Seleção! Por que que os 'moleques' dele (Thiago e Rafael Alcântara atuam pela Espanha) não jogam aqui? Esse é o grande problema. Temos que voltar à base e colocar quem realmente entende do assunto. Se você vai para lá para ficar só fazendo anotações, isso não é jogo. Você tem que ir para ensinar, aperfeiçoar o que eles já sabem.

*Sob a supervisão de Aigor Ojêda