Fernando Haddad, candidato à Presidência pelo PT

Fernando Haddad é candidato à Presidência pelo Partido dos Trabalhadores, do PT (Foto: Reprodução/Facebook)

Bárbara Mendonça, Jonas Moura e Vinicius Faustini
25/09/2018
07:00
Rio de janeiro (RJ)

Se eleito presidente, Fernando Haddad pretende aproveitar o potencial econômico do esporte no Brasil, ampliar a participação popular nas instalações da Rio-2016 e recuperar o que chama de avanços do governo Dilma Rousseff.

Na segunda entrevista do LANCE! com os candidatos, o político do Partido dos Trabalhadores (PT) disse ainda que quer implantar metas de transparência na gestão de clubes e da CBF, e criar um Sistema Único do Esporte para organizar todo o segmento no país.

A publicação acontece em ordem alfabética. Na quarta-feira, vai ao ar a entrevista com Geraldo Alckmin, do PSDB.

LANCE!: Quais são os seus planos para desenvolver o esporte no Brasil, tanto de base quanto de alto rendimento?
Fernando Haddad: A primeira coisa a se fazer é implantar, após amplo debate nacional, o Sistema Nacional do Esporte, estabelecendo quais são as responsabilidades da União, dos estados, dos municípios e das entidades esportivas. Nosso plano de governo aponta para a criação do Sistema Único do Esporte, avançando na identificação das fontes de financiamento dos entes federados para que as responsabilidades sejam cumpridas.

É preciso definir quais as parcerias importantes, qual o papel das escolas, dos clubes, das universidades. Enfim, organizar o sistema e dar um sentido mais planejado às atuações isoladas que vemos hoje.

A experiência dos governos Lula e Dilma mostrou que podemos transformar jovens das mais diversas localidades do país em grandes atletas, como foi o caso de Sarah Menezes, nossa medalhista de ouro no judô em Londres, que saiu de Teresina para ganhar o mundo, ou do Isaquias Queiroz, que aprendeu canoagem no Programa Segundo Tempo em Ibaitaba, na Bahia, e alguns anos depois conquistou 3 medalhas olímpicas no Rio de Janeiro.

Como isso foi feito? Investindo em programas sociais, como o Bolsa Atleta, estimulando uma política de patrocínios e valorizando os profissionais de toda a cadeia do esporte. Vamos recuperar os avanços que nosso esporte começou a conquistar e que foram interrompidos com o golpe de 2016. Para isso, um passo fundamental será organizar o esporte por meio de um Sistema Único.

A edição da Medida Provisória 846 assegurou aumento dos recursos das loterias para o esporte após uma grande mobilização do setor, insatisfeito com os cortes que a MP 841 causaria, devido ao plano do governo federal de priorizar a segurança pública. Se eleito, o senhor pretende mexer na distribuição dessas verbas destinadas ao esporte? Se sim, de que formas?

"A edição da MP 846 veio para tentar encerrar esse caos (da MP 841), mas no fundo ela foi apenas uma maquiagem no grande corte que foi feito."

O governo Temer promoveu uma grande confusão no financiamento do esporte brasileiro ao retirar importantes recursos com a edição da MP 841. Foram meses de paralisia, com o setor impedido de investir, gerando um enorme prejuízo aos atletas e profissionais do esporte. A edição da MP 846 veio para tentar encerrar esse caos, mas no fundo ela foi apenas uma maquiagem no grande corte que foi feito. Os recursos que estariam voltando para o financiamento do esporte com a edição da MP 846 foram cortados do orçamento do Ministério do Esporte para 2019, ou seja, dos repasses aos estados e municípios, atingindo os programas sociais e a implantação e reforma de equipamentos esportivos nas escolas e comunidades.

Vamos rever todo o financiamento do setor, exigindo transparência e efetividade nos gastos, priorizando a base do esporte de rendimento, a prática esportiva nas comunidades e o esporte na escola. Precisamos recuperar a política pública de esporte, aproveitando todo o seu potencial na formação de cidadãos.

Em tempos de recessão econômica, como é possível evitar que o país caia em um declínio esportivo? Pretende manter o padrão brasileiro atual de investimentos no esporte?
Nunca se investiu tanto no esporte quanto nos governos do PT. Possuímos um moderno parque esportivo, um dos melhores do mundo. É hora de focar na utilização desses equipamentos, na descoberta de talentos, na ampliação da base esportiva, e isso requer recursos menores dos que os investidos na fase de construção dessa infraestrutura para os megaeventos.

Basta não promover o caos, como o governo Temer fez, que podemos manter um bom padrão esportivo. Com a implantação do Sistema Único do Esporte, vamos otimizar os investimentos. Os municípios serão a base do esporte educacional e inclusivo, os estados vão investir na formação de atletas, com centros de especialização, e a União ficará com o alto rendimento. Desta forma, potencializaremos os recursos, não sobrepondo investimentos.

A CBF esteve envolvida nos últimos anos em uma série de escândalos de gestão. Ex-dirigentes já foram banidos do futebol e até presos. Que avaliação faz da atual diretoria? O governo deve intervir na gestão do futebol e da entidade? Se sim, de que forma?
A autonomia da organização esportiva do país está definida no inciso I do artigo 217 da Constituição Federal. Essa autonomia, porém, não pode ser utilizada para acobertar maus feitos.

"Não é possível que nossa principal cadeia econômica de lazer perca tanto espaço no cenário internacional. O futebol tem que ser concebido como uma potente âncora econômica."

O futebol será nossa grande prioridade. Nosso Plano de Governo prevê o lançamento, via BNDES, de um Programa de Modernização da Gestão do Futebol, que vinculará investimentos em modernização da gestão dos clubes, bem como todos os incentivos fiscais, ao cumprimento de metas como eficiência e sustentabilidade financeira, transparência na gestão, mecanismos de participação dos sócios e torcedores, e compromisso social.

Para que isso ocorra, os clubes que fizerem opção pelo programa de modernização financiado pelo BNDES deverão exigir que suas entidades representativas pactuem, sejam solidárias, com as medidas modernizantes descritas acima. Vamos garantir que o Profut, criado pela Lei 13.155, do governo Dilma, saia do papel, e vamos fortalecer, inclusive do ponto de vista da fiscalização, a Autoridade Pública de Governança do Futebol.

Não é possível que nossa principal cadeia econômica de lazer perca tanto espaço no cenário internacional. O futebol tem que ser concebido como uma potente âncora econômica, capaz de gerar e distribuir riquezas. Isso exige do Brasil uma formulação de política de Estado.

O que acha da atuação do Ministério do Esporte? Pretende manter o investimento em planos de incentivo direto aos atletas, como o Bolsa Atleta?
O Ministério do Esporte precisa recuperar o protagonismo que teve até 2016. Não podemos abrir mão de formular os rumos do esporte nacional, ficando à deriva, sem um rumo estratégico.

O processo de dar mais responsabilidades aos atletas é um caminho sem volta. O Bolsa Atleta é uma das ferramentas mais importantes para isso. Muitos atletas, alguns deles medalhistas olímpicos, só puderam se desenvolver graças ao Bolsa Atleta.

"O processo de dar mais responsabilidades aos atletas é um caminho sem volta. O Bolsa Atleta é uma das ferramentas mais importantes para isso"

Vamos promover um balanço desses mais de 10 anos do programa e ver como aperfeiçoá-lo. Uma questão importante é ver como o programa poderia ser mais efetivo nas categorias de base. Uma das grandes dificuldades do atleta é justamente nos primeiros passos do esporte de rendimento, quando os grandes resultados ainda estão distantes e o patrocínio privado é quase inexistente. Por isso que o Sistema Único de Esportes é tão importante, já que define os papéis dos entes federados e estabelece de quem é a responsabilidade em todas as fases da formação do atleta.

Em um eventual governo seu, o Ministério do Esporte ficará a cargo de uma pessoa com forte conhecimento sobre o assunto ou utilizada em barganha?
Nenhum Ministério será utilizado como barganha no meu governo. Todos os ministros e ministras deverão ser lideranças com conhecimento técnico das respectivas áreas de atuação. Com um nome competente e experiente, vamos fortalecer o Ministério do Esporte, reforçar o quadro de servidores concursados e a sua capacidade de coordenar estrategicamente o sistema esportivo brasileiro.

O governo federal é responsável pela gestão de boa parte das instalações utilizadas nos Jogos Rio-2016, por meio da Autoridade de Governança do Legado Olímpico (AGLO). Como pretende administrá-las e que medidas tomará para que a população e os atletas do país usufruam do legado do megaevento? A AGLO será mantida caso seja eleito?
O Parque Olímpico da Barra é de propriedade da cidade do Rio de Janeiro, que repassou atribuições para o Ministério do Esporte. Vamos promover o diálogo com a prefeitura para melhorar a utilização de suas instalações. A grande vocação do Parque é se estabelecer como um Centro de Treinamento de padrão internacional, unindo serviços aos atletas, ciência, tecnologia e educação, envolvendo as Confederações esportivas e as Universidades brasileiras, que têm grandes contribuições a dar ao desenvolvimento do esporte. Tudo isso incentivando a maior utilização pela população.

O Parque Olímpico de Deodoro, que fica em uma área muito carente de equipamentos públicos, é uma parceria com o Exército Brasileiro, uma das instituições de maior relevância na história do nosso esporte e da educação física no Brasil. Precisamos intensificar muito as atividades em Deodoro e incorporar as excelentes instalações da Universidade da Força Aérea a um grande programa esportivo social para a população dessa região.

Milhares de jovens poderão ter uma melhor perspectiva de vida por meio de programas sócio esportivos. E as Forças Armadas já têm larga experiência nesses programas, graças ao Projeto Forças no Esporte, uma parceria entre o Ministério do Esporte e o Ministério da Defesa. É a partir dessa visão que vamos avaliar qual o melhor desenho institucional para a gestão do legado dos Jogos Olímpicos.

Quais são seus planos para evitar que o legado da Copa do Mundo de 2014 seja abandonado?
Precisamos entender o esporte como uma grande cadeia produtiva. Um setor da economia capaz de gerar milhares de empregos e que congrega muitas pequenas e médias empresas que precisam de apoio para se desenvolverem.

Temos casos de grande sucesso com a gestão das novas arenas. O público que comparece ao Allianz Parque, à Arena Corinthians, ao Beira-Rio, ao Castelão, à Arena do Grêmio, é muito maior do que o que ia aos velhos estádios. Mesmo onde houve problemas, como no Maracanã, nos impressiona a quantidade de público presente. É uma importante tendência, que ainda precisa se desenvolver mais. Ganhamos em segurança e conforto. E isso vai refletindo na qualidade do espetáculo e nas receitas dos clubes.

Alguns estados tiveram fragilidades em seu plano de utilização futura das arenas. O governo federal vai ajudar esses estados a pensar novas maneiras para aproveitar as infraestruturas construídas para a Copa. Sempre em parceria com o poder local.

Mas o legado não é só físico. Vamos retomar o projeto da “Universidade do Esporte”, com foco no Futebol, desenvolvido em parceria com a Universidade Fluminense, no governo Dilma, como legado da Copa do Mundo e das Olimpíadas, onde cursos de graduação e pós-graduação foram desenvolvidos para a formação de gestores, tanto para o futebol, como para os esportes. Infelizmente esse projeto foi abandonado pelo governo Temer. Vamos retomá-lo e recuperar o debate do legado esportivo como mudança da nossa cultura de gestão, tanto dos esportes olímpicos, como do futebol.

O governo brasileiro vem "socorrendo" clubes financeiramente em medidas como o Profut. O que acha do programa? O seu governo dará suporte aos clubes do país? De que formas?
O futebol brasileiro é uma atividade privada de dimensões gigantescas, se considerarmos todos os profissionais envolvidos direta e indiretamente nas muitas atividades para preparação e realização dos jogos e competições. Atletas, equipes técnicas, fisiologistas, nutricionistas, profissionais da área médica e odontológica, operadores do espetáculo, operadores da segurança, do transporte, do comércio de alimentos e bebidas, da cobertura de mídia e, claro, os torcedores – nos estádios ou acompanhando através das diversas mídias. Milhões de pessoas.

Toda essa cadeia tem uma importância enorme na geração de empregos e de recursos. Importantíssimo para a economia e relevante na cultura do país. É necessário sempre buscar as melhores soluções, colaborando para resolver ou mitigar problemas e estimular as oportunidades.

Investir na melhoria da gestão e na formação dos profissionais é um dos pontos que com certeza deve ser objeto de atenção do governo. Como dissemos, nosso plano de governo prevê o lançamento via BNDES de um Programa de Modernização da Gestão do Futebol, que vinculará investimentos em modernização da gestão dos clubes, bem como todos os incentivos fiscais ao cumprimento de metas específicas.

O Profut foi um avanço nesse sentido. Ele se propôs a mudar o paradigma do financiamento das dívidas tributárias dos clubes, exigiu contrapartidas eficazes e modernizantes, buscou a sustentabilidade na gestão dos clubes. A Autoridade Pública era o grande instrumento de fiscalização do Estado brasileiro. Infelizmente nada disso saiu do papel no governo Temer, e o futebol brasileiro perdeu anos preciosos para sua modernização.

Vamos tratar o futebol como âncora econômica fundamental para o nosso país e, portanto, merecedor uma política governamental para voltar a ser competitivo como produto no mercado internacional.

"O futebol é a maior prática esportiva no Brasil, com o maior número de instalações, e continua sendo uma prática quase exclusivamente masculina."

A partir de 2019, clubes que não tiverem um plantel de futebol feminino não poderão disputar a Libertadores. Acha que essa medida é um incentivo eficaz para o desenvolvimento da modalidade no país? Em um eventual governo seu, os esportes olímpicos e o futebol feminino terão alguma atenção?
Sim, claro. Nossa mais importante atleta do futebol feminino (Marta) pode ganhar este ano pela sexta vez o prêmio de melhor do mundo. Em países como Alemanha, Suécia, Noruega, o futebol feminino cada vez tem mais importância e sucesso. Na Inglaterra, ganha a atenção e investimentos dos grandes clubes da badalada Premier League.

Além disso, o Diagnóstico do Esporte Brasileiro, realizado pelo Ministério do Esporte, apontou um enorme problema de equidade na prática esportiva brasileira. O futebol é a maior prática esportiva no Brasil, com o maior número de instalações, e continua sendo uma prática quase exclusivamente masculina. Qual o resultado? Uma pequena participação das meninas na prática esportiva, com consequências que podem chegar a prejudicar a saúde e a qualidade de vida das mulheres. Promover o futebol feminino é, portanto, imprescindível para que possamos ampliar a participação das mulheres no esporte.

Por tudo isso, nosso Plano de Governo prevê um forte apoio à estruturação do futebol feminino em todos os níveis. Importante lembrar que já no Profut prevíamos, como contrapartida para o financiamento das dívidas dos clubes, a organização de equipes femininas. Portando, nosso apoio ao futebol feminino é um pressuposto para uma política de governo para a reorganização e fortalecimento da cadeia produtiva do futebol.

QUEM É ELE
Nome completo: Fernando Haddad (PT)
Nascimento: 25/01/1963 - São Paulo
Vice: Manuela D'Ávila (PCdoB)
Coligação: O Povo Feliz De Novo - PT – PROS – PCdoB
Ocupação declarada: Professor de Ensino Superior
Valor em bens declarados: R$ 428.451,09

NO ESPORTE
Time de coração: São Paulo
Ídolo no esporte: Não respondeu