Marcelo Trindade é candidato ao governo pelo NOVO

Marcelo Trindade é candidato ao governo do Rio de Janeiro pelo Novo (Foto: Alexandre Araújo)

Alexandre Araújo
16/09/2018
07:30
Rio de Janeiro (RJ)

O advogado Marcelo Trindade resolveu "sair da zona de conforto e ir para o jogo", como ele mesmo falou ao explicar os motivos pelos quais se tornou um postulante ao cargo de governador do Rio. Candidato pelo Partido Novo, ele ressalta a importância histórica do Maracanã e avisa que a concessão - que poderá englobar o Célio de Barros e o Júlio Delamare - terá de ter também um papel que sirva à população. Apontou ainda que tem como um dos sonhos ver torcidas rivais subindo a rampa do Bellini juntas novamente, sem violência.

Além disso, garante que, com liderança, o Estado poderá auxiliar em uma melhor utilização das arenas do legado da Rio-2016.  

Marcelo Trindade recebeu a equipe a LANCE! para uma conversa sobre tópicos relacionados a esporte caso tenha a chance de estar à frente do Estado.

LANCE! - Por que se candidatar ao governo?

Marcelo Trindade - Evidentemente, uma decisão como essa não se toma do dia para a noite. É uma decisão que vai amadurecendo. No meu caso, esse processo de me engajar politicamente começou há uns dois anos. Há cerca de um ano, isso se aprofundou, quando me aproximei do Bernardinho, tendo em vista que ele pretendia ser candidato ao governo pelo Partido Novo. Comecei a trabalhar no que poderia ser um programa de governo dele, que acabou virando meu. Isso evoluiu para um compromisso meu de acompanhá-lo no governo, caso ele fosse candidato. Depois, evoluiu para a minha candidatura.

No fundo, é esse desejo de participar do processo político, que pode aparecer amalucado por estar muito bem, ser realizado, ter minha família... E por que alguém faz isso? Acho que, no fundo, essa resposta é a mais fácil: é porque precisamos fazer isso. Estamos com o Estado do Rio em uma calamidade, de falta absoluta de pessoas em quem podemos confiar. Nós, cidadãos, temos de fazer isso, ir para a política e retomar o orgulho de viver aqui, que perdemos porque essas pessoas tomaram o poder com o nosso voto, o que é pior, pois temos culpa, e transformaram nessa calamidade em todas as áreas. No fundo, não é uma decisão só minha. Quantos jovens estão apostando na política, se engajaram no Novo? A própria criação do Novo tem origem nisso, de querer mudar a política, uma política baseada em valores, em programa de governo, em medidas que concordamos e isso que motiva a pessoas comuns a sair da zona de conforto e ir para o jogo.

"O Estado tem enormes dificuldades para administrar diretamente um estádio como o Maracanã, então, acho que precisa reprivatizado, mas, claramente, a situação atual é insustentável"

Quais os projetos para a gestão do Maracanã?

O Maracanã é um símbolo para quem é da minha geração. Fui a vida inteira ao Maracanã de 464, 434. O melhor programa da minha semana era o jogo de domingo e, naquele tempo, os clássicos juntavam gente. Era, realmente, o programa da minha infância e adolescência. Íamos cedo ao estádio, víamos a preliminar, depois o jogo principal. E isso desapareceu. Precisa recuperar esse amor do Rio e essa convivência pacífica em torno do esporte. Quem torce para times rivais não são inimigos. Precisamos recuperar o Maracanã como símbolo maior disto. O Estado tem enormes dificuldades para administrar diretamente um estádio como o Maracanã, então, acho que precisa ser reprivatizado, mas, claramente, a situação atual é insustentável. Respondendo objetivamente, acho que precisa tomar o Maracanã, reprivatizá-lo com atenção a esta finalidade pública.

E quanto ao Célio de Barros e o Júlio Delamare?

A estrutura final disso tem de ser pensada de maneira a otimizar o uso público e a gestão privada. Precisa combinar essas duas coisas. Como se sabe, lá atrás houve uma grande polêmica sobre se devia construir um grande estacionamento em volta do Maracanã e desativar os outros equipamentos, depois isso foi abandonado. Isso tem de ser encarado tecnicamente. Hoje se tem um Parque Olímpico e o Júlio Delamare, ambos com baixíssimo uso, isso que é o pior. Mas eu não tenho uma visão política sobre isso, acho que tem de ser uma visão técnica. Se tivermos capacidade de dar uso, e acho que temos, e de viabilizar a exploração do Maracanã de maneira adequada, temos de conciliar as duas coisas. O esporte, na verdade, e os equipamentos estatais têm de ser usados muito além das competições oficiais, muito além das competições que dão cobertura jornalística. Esses equipamentos têm de ser amortizados diariamente. Tem de colocar as crianças para nadar no Júlio Delamare, no Parque Olímpico, o Museu do Maracanã como um atrativo da cidade... Quando eu era garoto, se jogava o interestadual, intermunicipal, tinha competições entre as escolas. Acho que não podemos deixar de recuperar isso, que é o esporte produzindo educação, saúde. Esporte tem ação transversal em todas as áreas do governo. Mais esporte significa menos droga, menos crime, mais educação, mais saúde.

Algo voltado para a Aldeia Maracanã?

Se vai ou não abranger, pelo projeto de privatização, o que está em torno do Maracanã, é uma discussão que tem de ser técnica. Não pode ter essa discussão meramente política. Tem de ter o interesse do Estado. Como faço para explorar aquele bem público que está lá, que está construído? Vamos explorar diretamente pelo Estado, vai dar utilidade pública pelo Estado ou por privatização? É muito comum que, em privatizações, imponha ônus a quem vence a privatização, de explorar um equipamento que não é rentável por si mesmo, mas que, no conjunto, tem um interesse público e cultural e encaixe. Esse pode ser o caso, não estou dizendo que é. Precisa de uma visão técnica e rápida. Estamos estacionados nesta situação de impasse no Maracanã durante praticamente todo esse governo. Isso é inadmissível. Maracanã precisa ter o melhor uso possível.

"Se tem, basicamente, o legado da Olimpíada abandonado, sem ninguém que seja capaz de liderar o processo de promoção desse legado. Então, o Estado e os dirigentes estatais têm um papel grande de liderança"

No início, não havia a previsão de que o Estado assumisse a gestão das arenas do legado da Rio-2016, mas, de alguma forma, há algum projeto de se envolver?

Acho que o Estado tem um papel que dependerá de quem será o governador, sendo muito franco. Acho que tem, hoje, um Governo do Estado que não é capaz de liderar coisa alguma. Está contando os dias para acabar. Tem um Governo Municipal sem capacidade de ação também. Então se tem, basicamente, o legado da Olimpíada abandonado, sem ninguém que seja capaz de liderar o processo de promoção desse legado. O Estado e os dirigentes estatais têm um papel grande de liderança. Em um Estado como o nosso, o governador tem o papel de liderar os municípios porque, insisto, tem um equipamento que está na capital, mas pode servir ao Estado todo. É muito importante que a gente espalhe equipamentos para o Estado todo, dê uso aos equipamentos esportivos no Estado todo, não apenas na capital. Mas que a gente também atraia para a capital o uso, pela população que está fora, desses equipamentos. Acho que sim, o Estado tem um papel que não é de financiamento, mas não quer dizer que não possa ter um papel de liderança. Mas é preciso, para isso, que se tenha uma liderança capaz de liderar.

Há algum projeto específico em relação ao Gepe (Grupamento Especial de Policiamento em Estádio)?

A violência nos estádio é um fenômeno mundial. Mesmo nos lugares mais desenvolvidos, infelizmente, os jogos de futebol passaram a ser cercados de um elemento de violência. Tem de ser cercado e temos um órgão para fazer isso que é a Polícia, que, por sua vez, tem um órgão especializado dentro dela. Dito isso, acho que precisamos ter um projeto de pacificação dos estádio de futebol. Esse tem de ser um dos nossos gols. Por quê? Porque futebol no Rio de Janeiro é também atração turística, isso é atividade econômica, é geração de emprego. (Hoje) Uma torcida sai por um lado, outra por outro lado, saem escoltadas para não se matarem e combinam de brigar em outro lugar... Isso afasta as pessoas de bem, afasta as crianças dos estádios. Esta é uma questão vital no Rio. Precisamos fazer com que um pai de Campos possa trazer o filho para o estádio, passar o dia no Rio e voltar. Que as pessoas possam ir de transporte público sem medo de serem assaltadas ou agredidas. E meu sonho é: precisamos subir a rampa do Bellini juntos de novo. Um de cada lado... Não tinha cerca, não tinha grade, não tinha nem essa coisa de plástico. Não tinha nada. Subia todo mundo, ia para o lado da arquibancada em que ia sentar, descia todo mundo zoando, pegava o ônibus e íamos para casa. Isso precisamos recuperar. Por que, ao invés de seguir a regra geral de segregação de torcida, a gente não tenta ter de volta o que tínhamos?

"No esporte, tem de ser usada toda essa área de influência, o que não quer dizer gastar dinheiro, ao contrário do que a gente pensa. Uma competição e uma exploração de um equipamento público esportivo podem ser patrocinados"

E em relação aos projetos socioesportivos junto à Suderj, o que se é imaginado?

O papel do Estado na atividade esportiva é de grande potencial de indução da iniciativa privada e redes públicas que comanda e os equipamentos que controla diretamente. Por isso, ao meu ver, no esporte, tem de ser usada toda essa área de influência. O que não quer dizer gastar dinheiro, ao contrário do que a gente pensa. Uma competição e uma exploração de um equipamento público esportivo podem ser patrocinados. A iniciativa privada pode arcar com os custos daquela exploração. O Estado desenha o programa, diz o objetivo para aquele tipo de programa. Minha proposta é direta: que use o esporte em todas as possibilidades que o Estado tem para fazer isso, não apenas via Suderj, mas como também pelas escolas de ensino médio, equipamentos... Há vários CIEP's abandonados. Isso é uma óbvia maneira de educar que precisa ser recuperada. Em todas as idades se pode fazer isso: usar o esporte para deixar essas pessoas mais vinculadas às escolas, diminuir a evasão escolar, além de gerar emprego. Ao meu ver, tem de usar todos os equipamentos com o poder de indução do Estado. Não quer dizer o Estado seja explorador, mas que ele organize.

A Secretaria tem alguns projetos em parceria com os grandes clubes. Como enxerga isso?

O poder de atração dos clubes é enorme. Temos, entre nós, o clube com maior torcida do Brasil, que é o Flamengo, que tem um poder de atração gigantesco. E, além disso, mais três grandes clubes com torcida. Mas uma coisa que aconteceu ao longo do últimos anos foi a diminuição da relevância dos clubes do interior. Hoje se tem menos clubes no interior do que se tinha. Acho que precisa também usar a marca dos clubes locais. Fazer o máximo que o Estádo puder fazer e, insisto, como um indução à iniciativa privada a viabilizar o uso dessas marcas como forma de atrair jovens para o esporte. Acredito muito nas escolas como mecanismo disso. No Rio, em especial, usamos muito pouco a educação esportiva como forma de educar e de produzir pessoas que vão trabalhar no esporte. Precisamos ter uma preocupação grande para usar as escolas para esta finalidade. E, claro, os clubes podem se associar também neste projeto.

Em maio, foi criado o Conselho Estadual do Futebol Masculino e Feminino do Rio de Janeiro (Conefut-RJ). Há algo visando esse conselho?

Acho que a ideia de que o Estado exerça o papel de liderança é bem-vinda. Conselhos, em geral, podem permitir que o Estado pense com os ouvidos abertos para todas as pessoas que tenham algo a dizer em relação àquele assunto, canais de comunicação com o Estado. Mas, honestamente, acho que muitas coisas podem ser feitas independentes e com mais urgência do que a criação de Conselhos para tratar desses assuntos. Conselhos, em geral, não atrapalham, mas não serão suficientes para que tome as medidas que se deve tomar. O perigo é que, no Brasil e no Rio, muitas vezes os Conselhos são usados como cabides políticos de troca de posições políticas.

A Secretaria tem parcerias com outras Secretarias que não estão ligadas diretamente ao esporte, como a com o Novo Degase e o programa Novo Plano Juventude Viva. Como enxerga o papel do esporte como oportunidade de uma melhora de vida?

Não só no sistema socioeducativo, mas prisional também. Acho que o esporte tem um papel fundamental de permitir e colaborar para a inserção e a educação. Essa função é muito óbvia e temos de estimular, mesmo em adultos. A capacitação na área do esporte, as inúmeras (áreas) que podem ser exercidas no esporte e poder profissionalizar os presos, profissionalizar os jovens que estão em regime socioeducativo. Fazer com que o esporte preencha um papel muito grande. Esporte é paixão, é entrega e essas pessoas precisam se apaixonar e se entregar a coisas boas, que vão produzir algo para a sociedade. No caso do trabalho, que no sistema prisional é evidente que precisa ser incentivada, além da educação, o esporte tem um papel fundamental. O que se pode produzir, e há experiências no Rio de Janeiro neste sentido, trazendo ídolos para perto desses jovens, mostrando que eles estavam na mesma situação e saiu dela porque foi para o esporte, mudou o caminho através do esporte. Para citar um nome que é óbvio, tem o Serginho, líbero da Seleção Brasileira de vôlei. É um cara que simbolizava essa possibilidade de vitória do trabalho. Não era um cara alto, não era um jogador de vôlei óbvio e se tornou um dos maiores jogadores do mundo. Acho que tem de usar ídolos para mostrar que tem um caminho. E não apenas para ser um esportista de ponta, mas trabalhar com o esporte, entender esporte e toda a economia ao redor do esporte que pode acolher essas pessoas.

Bate-bola com o candidato Marcelo Trindade:

Pratica ou praticou algum esporte?

Pratiquei. Hoje em dia, faço caminhada, corrida, musculação, essas coisas que os velhos menos dotados fazem (risos). Mas joguei vôlei pelo Botafogo e basquete, no mirim e infantil.

Um ídolo no esporte:
Um que eu cito e não é politicagem é o Bernardinho. É um cara um pouco mais velho que eu, foi um jogador brilhante da Geração de Prata, que virou um educador, um treinador do esporte e criou e contribuiu para gerações de esportistas de ponta.

Uma lembrança que tenha ligação com esporte:
Fiquei 21 anos sem ser campeão carioca. Sou torcedor do Botafogo, nasci em 64 e, portanto, vi dois títulos do Carioca, em 67 e 68, quando foi bicampeão com um timaço. E assisti, cresci, passei a adolescência inteira vendo meu time não ser campeão. As torcidas adversárias cantando o "parabéns para você" ao fim de cada ano em que não éramos campeões. Então, para citar um caso, foi um jogo em que não perdemos para o Flamengo, o "Jogo da invencibilidade". O Botafogo era, até então, o time que tinha passado mais jogos sem perder, e o Flamengo da década de 80 estava em vias de quebrar esse recorde. Os dois goleiros do Botafogo se machucaram e entrou um goleiro que era filho de um grande goleiro do Flamengo, chamado Luis Borracha. E o Borrachinha era o terceiro goleiro do Botafogo. O Botafogo abriu o placar e o Borrachinha fechou o gol. O Botafogo ganhou e o Flamengo não quebrou o recorde.

Time do coração
Botafogo

Quem é:
Nome completo: Marcelo Fernandez Trindade (Novo)
Vice: Carmen Migueles (Novo)
Data de nascimento: 29/09/1964
Coligação: Novo - Partido isolado
Ocupação: Advogado
Valor em bens declarados: R$82.956.391,33

*Nesta segunda-feira, acompanhe a entrevista com a candidata Márcia Tiburi, do PT