O 'enigma Mbappé': 85 gols, mas por que o Real Madrid não voa?
Jogador tem grandes números, mas clube parece ter piorado

- Matéria
- Mais Notícias
A chegada de Mbappé ao Real Madrid parecia representar o passo final de um projeto que já era dominante. Campeão europeu e espanhol antes da contratação do francês, o clube acreditava ter encontrado a peça definitiva para abrir uma nova era galáctica ao lado de Vini Jr. e Bellingham. Quase dois anos depois, porém, o debate em Madri deixou de girar apenas em torno dos números do camisa 10 e passou a envolver encaixe coletivo, equilíbrio tático e funcionamento do time.
Relacionadas
Os dados ajudam a explicar o incômodo. Individualmente, Mbappé produz em ritmo histórico: são 85 gols e 10 assistências em 100 jogos, média de participação direta em gol a cada 85 minutos e liderança nas artilharias de La Liga e da Champions League nesta temporada. Coletivamente, porém, o Real Madrid atravessa sua segunda temporada consecutiva sem títulos importantes e convive com atuações inconsistentes nos jogos de maior peso.
O contraste aparece também nos números da equipe. Com Mbappé em campo, o Real Madrid tem 69,3% de aproveitamento, média de 2,2 gols marcados e 1,2 sofrido por partida. Sem ele, o aproveitamento sobe para 71,4%, enquanto a média de gols sofridos cai para 1,0. O time não se transforma ofensivamente sem o francês – marca praticamente na mesma proporção –, mas parece encontrar maior equilíbrio coletivo.
A pergunta que circula no Bernabéu, portanto, não é se Mbappé é um grande jogador. Isso nunca esteve em discussão. O debate é outro: por que um atacante tão dominante individualmente ainda não conseguiu transformar o Real Madrid em um time dominante coletivamente?
O paradoxo de Mbappé no Real Madrid
Os números ofensivos de Mbappé são praticamente irretocáveis. O francês finaliza 4,4 vezes por jogo, converte 45% das grandes chances que recebe e participa diretamente de quase um gol por partida. Em diversos momentos da temporada, foi ele quem sustentou o Real Madrid em jogos complicados, resolvendo partidas que coletivamente pareciam escapar do controle. O problema é que o funcionamento ofensivo da equipe mudou radicalmente desde sua chegada.
O Real Madrid campeão europeu de Ancelotti era um time menos dependente de uma referência fixa. O protagonismo ofensivo, apesar de ser protagonizado por Vini Jr., era muitas vezes dividido entre diferentes jogadores. Havia mais trocas de posição, o time funcionava de maneira mais distribuída e, como consequência disso, o time merengue terminou com três jogadores no Top-4 do ranking da Bola de Ouro.
Com Mbappé, o jogo passou a gravitar ao redor de um único foco criativo e finalizador. A equipe naturalmente procura acelerar ataques para encontrá-lo em vantagem. Meio-campistas e pontas priorizam acionar o francês, o que aumenta seu volume ofensivo, mas reduz parte da imprevisibilidade coletiva. Em muitos jogos, especialmente contra adversários organizados defensivamente, o ataque madridista passou a depender excessivamente da capacidade individual do camisa 9.
Isso ajuda a explicar por que o debate sobre Mbappé raramente gira apenas em torno de seus gols. Em Madri, espera-se que grandes estrelas potencializem o coletivo, e não apenas acumulem números individuais.
O encaixe com Vini Jr. nunca aconteceu plenamente
A principal dificuldade tática do Real Madrid aparece justamente na convivência entre Mbappé e Vini Jr. Os dois preferem atuar partindo da esquerda para dentro, atacando espaço e conduzindo em velocidade. No papel, a combinação parecia devastadora. Em campo, porém, o encaixe nunca aconteceu de forma totalmente natural.

A chegada de Mbappé obrigou o sistema a sofrer adaptações constantes. Segundo veículos da imprensa espanhola, internamente existe a percepção de que sua contratação foi muito mais um projeto estratégico de Florentino Pérez do que uma necessidade tática do elenco. Vini Jr. já era o principal nome ofensivo da equipe e ocupava justamente a zona do campo preferida pelo francês.
Nem Ancelotti, nem Xabi Alonso, nem Álvaro Arbeloa conseguiram encontrar uma estrutura totalmente funcional que acomodasse Mbappé, Vini Jr. e Bellingham sem comprometer equilíbrio defensivo ou fluidez ofensiva.
O efeito colateral mais evidente apareceu no restante do ataque. Bellingham passou a atuar mais distante da área em diversos momentos, enquanto Vini Jr. perdeu parte do protagonismo criativo que tinha anteriormente. Sem Mbappé, o Real Madrid frequentemente volta a distribuir melhor o jogo, alternando lados e envolvendo mais jogadores na construção ofensiva.
Isso ajuda a explicar por que a equipe, mesmo sem aumentar significativamente sua produção ofensiva na ausência do francês, transmite uma sensação maior de controle coletivo.
O problema sem bola de Mbappé
As dificuldades do Real Madrid não aparecem apenas na construção ofensiva. Sem a bola, Mbappé também se tornou alvo de críticas internas e externas.
Os dados defensivos do francês estão entre os mais baixos do elenco. Ele é o jogador com menor participação em desarmes, interceptações e recuperações de bola por 90 minutos entre os titulares ofensivos da equipe. Em La Liga, aparece entre os atletas com menos tentativas de desarme por partida.
Isoladamente, isso não seria necessariamente um problema. Diversos atacantes históricos tiveram liberdade semelhante ao longo da carreira. O desafio aparece quando essa limitação se soma a outros jogadores ofensivos de perfil agressivo, como Vini Jr. e Rodrygo.
Em jogos grandes, o Real Madrid frequentemente ficou partido, com o meio-campo sobrecarregado e grandes espaços entre os setores. A equipe perdeu intensidade de pressão sem bola e passou a sofrer mais defensivamente, especialmente contra adversários fisicamente fortes ou capazes de explorar transições rápidas.

A discussão mais incômoda em torno de Mbappé envolve justamente o peso real de seus números. Os gols existem – e em quantidade absurda. Mas o Real Madrid segue distante da sensação de domínio que imaginava alcançar quando contratou o francês. O clube perdeu clássicos importantes, caiu precocemente em competições relevantes e atravessou uma temporada marcada por instabilidade.
Em diversos momentos, Mbappé resolveu jogos individualmente enquanto o coletivo seguia funcionando abaixo da expectativa. Isso alimentou a ideia, repetida por parte da imprensa espanhola e da torcida, de que o francês produz estatísticas impressionantes dentro de um time que, paradoxalmente, não evoluiu proporcionalmente com sua presença. A crítica não passa pela qualidade do atacante, mas pelo custo coletivo de potencializá-lo.
O Real Madrid continua perigoso com Mbappé. Em muitos jogos, continua dependente dele. O problema é que essa dependência nem sempre veio acompanhada de maior controle, consistência ou equilíbrio coletivo.
Lesões, desgaste e pressão crescente
O debate esportivo ganhou ainda mais força por causa do ambiente extracampo criado ao redor do francês nos últimos meses.
Mbappé perdeu jogos importantes por problemas físicos, incluindo confrontos decisivos contra Manchester City e Barcelona. Durante esse período, episódios envolvendo viagens durante recuperação de lesão, atritos relatados com integrantes da comissão técnica e uma percepção interna de privilégios aumentaram o desgaste da imagem do jogador.
A viagem à Itália durante a recuperação física se tornou um símbolo desse desconforto. Embora autorizada pelo clube, a repercussão negativa entre torcedores e parte do ambiente interno ampliou a sensação de desconexão entre Mbappé e o momento vivido pelo Real Madrid.
As críticas aumentaram ainda mais após publicações nas redes sociais durante derrotas importantes e relatos de tensão no centro de treinamento. Em mais de uma ocasião, o francês foi vaiado no Bernabéu.
O contexto aumentou significativamente a pressão para a próxima temporada. Pela primeira vez na carreira, Mbappé passou a conviver de maneira constante com questionamentos relacionados não apenas ao desempenho esportivo, mas também ao impacto de sua presença no ambiente coletivo do clube.
O próximo passo do Real Madrid
O Real Madrid não discute a saída de Mbappé. O debate interno gira em torno de como reconstruir o time ao redor dele sem comprometer o restante do elenco.
O desafio do próximo treinador será encontrar equilíbrio para um ataque repleto de protagonistas que ocupam zonas parecidas do campo e exigem liberdade criativa. Isso pode passar por mudanças estruturais no meio-campo, redefinições ofensivas ou até decisões mais profundas envolvendo o futuro de Vini Jr., cujo contrato termina em 2027.
O histórico do clube mostra que superestrelas costumam receber tempo. A comparação com Cristiano Ronaldo aparece frequentemente em Madri. O português também viveu temporadas turbulentas antes de transformar o Real Madrid em uma máquina vencedora. A diferença é que aquele time encontrou rapidamente um equilíbrio coletivo ao redor de seu principal astro.
O atual ainda procura esse ponto. Enquanto isso, Mbappé segue vivendo um paradoxo raro no futebol europeu: ser simultaneamente o jogador mais decisivo do Real Madrid e o principal símbolo de um time que ainda não conseguiu
➡️Siga o Lance! no WhatsApp e acompanhe em tempo real as principais notícias do esporte
📲 De olho no Lance! e no Futebol Internacional. Todas as notícias, informações e acontecimentos em um só lugar.
+ Aposte em diversos jogos de futebol pelo mundo!
*É preciso ter mais de 18 anos para participar de qualquer atividade de jogo de apostas. Jogue de forma responsável.
Tudo sobre
- Matéria
- Mais Notícias


















