Vinícius Perazzini
18/07/2018
13:15
São Paulo (SP)

Nem tudo é glamour no futebol da Comunidade de Madri. Paralelamente ao rico Real Madrid, um outro clube da região, modesto, fez história na temporada passada: o minúsculo Club de Fútbol Rayo Majadahonda, de Majadahonda, cidade da Grande Madri situada a 16 quilômetros ao noroeste da capital. Fundado em 1976, o Rayo era um clube de poucos feitos nacionais, que chegou na quarta divisão espanhola na temporada 1987/88. Em 2015/16, o clube conseguiu se firmar na Terceirona e, na última temporada, chegou ao seu ápice, obtendo o acesso à Segundona com um gol aos 51 minutos do segundo tempo. A festa foi grande naquela tarde de 27 de maio, mas a promoção improvável quase escapou pelos dedos por conta de duas exigências, uma delas inusitada, da Liga Espanhola. De repente, o clube que tinha conquistado na bola o direito de crescer, estava perto de ser mandado para o "limbo" mais uma vez. Até que foi salvo pelo Atlético de Madrid, em uma história de arrepiar.

Primeiramente, para entender a história, é preciso conhecer as diferenças de patamar entre as duas primeiras divisões da Espanha e as divisões inferiores. A Federação é responsável por organizar o campeonato da terceira divisão – que é regionalizada – e todas as outras divisões inferiores. Já a Liga manda nas duas primeiras divisões. Ao mudar de nível, o Rayo Majadahonda se deparou com problemas por conta das regras da Liga. Para jogar a Segunda División, o time precisaria ter uma casa para 6 mil espectadores. No entanto, o estádio do Rayo, o Cerro del Espino, que pertence ao município e é gerenciado pelo clube, comporta apenas 3.376 torcedores. O clube ainda iniciou obras para tentar uma adequação, porém o prazo de entrega se esticou para janeiro do ano que vem. A Liga deu um mês e meio para o Rayo se resolver, e, no desespero, a diretoria do clube enviou cartas para todos os clubes da Grande Madri com estádios acima de 6 mil lugares. Getafe, Logroñes e Alcorcón recusaram emprestar suas casas. O Rayo Vallecano também disse não, alegando que sua arena também passa por reformas. Já o Real Madrid nem respondeu o contato.

- Eles não podem tirar de nós algo que ganhamos em campo - disse Casto Gallardo, secretário geral do Rayo Majadahonda, em declaração para a imprensa espanhola quando a situação se encaminhava para um triste final.

O EMOCIONANTE GOL QUE LEVOU O RAYO PARA A SEGUNDONA


A ÚLTIMA ESPERANÇA

Faltava só um retorno do Atlético de Madrid, dono do mais novo dentre os estádios da Espanha, o Wanda Metropolitano, aberto em setembro de 2017 e com capacidade de 67.829 torcedores. No último dia do prazo dado pela Liga, o Atleti respondeu o Rayo com um surpreendente sim. Por sorte do Rayo, o Atlético tem Miguel Ángel Gil Marín como principal acionista do clube. Miguel e Casto Gallardo, dono da declaração citada acima, são amigos de infância.

Além dos laços entre os dirigentes, os clubes têm uma ótima relação. Em uma parceria com o Rayo e a prefeitura de Majadahonda, o Atlético B manda desde 1997 seus jogos no estádio Cerro del Espino, que naquele ano passou a fazer parte do centro de treinamento do Atleti, estabelecido ao lado do estádio. E foi como prova da lealdade entre as partes e pela amizade entre os cartolas que um time pequeno passou a contar com um dos maiores palcos da Europa.

- Sem a ajuda do Atlético, agora estaríamos rebaixados. Nem sei como agradecer - falou Casto Gallardo, aliviado com a cessão do Metropolitano.

SEGUNDO PROBLEMA

A definição pelo estádio saiu no dia 11 deste mês. O drama parecia encerrado, mas aí surgiu outra exigência, mais ingrata do que a primeira. Em razão do acordo de transmissão de jogos da Liga Espanhola, todo time deve garantir que a arquibancada oposta às câmeras de TV tenha ao menos 75% de ocupação, sob pena de multas. O motivo da regra é uma imposição da TV, sob a alegação de que um estádio semi-vazio para o teleespectador "desvaloriza o produto".

- Eles têm que entender que a nossa situação é diferente. Não podem nos afastar de algo que ganhamos no terreno de jogo. Entendemos que a televisão vende um produto, mas nossa principal tarefa é focar nos esportes - comentou Casto Gallardo, em mais um apelo feito diante da imprensa espanhola.

O Rayo tem apenas 300 sócios e apresentou média de público de mil torcedores na Terceirona. As multas significariam o fim de qualquer plano para estruturar a equipe e o rebaixamento seria inevitável. Mas aí o Atlético de Madrid surgiu novamente, com um auxílio criativo envolvendo sua torcida.

A SOLUÇÃO

A arquibancada oposta às câmeras de TV no Wanda Metropolitano precisa ter, de acordo com o tamanho do estádio, pelo menos 5 mil pessoas presentes para atender a obrigatoriedade dos 75% de ocupação. Diante deste cenário, o Atleti cedeu aos seus sócios entradas grátis para os jogos do Rayo. E para tornar isso ainda mais atraente e procurado, ofereceu também aos sócios que forem às partidas do Rayo pontos na hora da definição das prioridades de venda de carnês dos jogos do Atlético para a temporada 2019/2020.

- Tinha que ser com este clube amigo, com uma relação de autêntica irmandade, que possibilitará um sonho - destacou o Rayo em nota oficial.

REFORÇO DE NOME

A Segunda División 2018/19 começa em agosto e terá clubes com grande fama, como Deportivo La Coruña, Málaga, Mallorca e Zaragoza. O Rayo Majadahonda tem o menor poderio financeiro entre todos os times da competição, mas está se movimentando no mercado e, na semana passada, conseguiu contratar por empréstimo junto do Lausanne Sport (SUI) o meio-campista Enzo Zidane, de 23 anos, filho do campeão mundial e ex-técnico do Real Madrid Zinédine Zidane.

Enzo Zidane
Anúncio de Enzo Zidane pelo Rayo Majadahonda (Imagem: Divulgação)

Enzo teve passagens pela seleção francesa sub-19 e fez sua formação de base no Real Madrid, mas acabou não vingando no clube, indo para o Alavés em julho do ano passado e depois para o Lausanne Sport, em janeiro deste ano.

No começo de 2018, o Rayo retorna para o Cerro del Espino. Já para a Terceirona, os seus torcedores - e os do Atlético - esperam que nunca mais.