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Luiz Fernando Gomes: 'O exemplo Martinelli'

Avaliação de Klopp à parte, um fato incontestável é que a trajetória que o garoto de Itu começa a construir no Arsenal é simbólica e resume a disparidade dos continentes

Liverpool x Arsenal
imagem cameraGabriel Martinelli dá os primeiros passos no futebol europeu (Foto: Paul ELLIS / AFP)
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Lance!
São Paulo (SP)
Dia 02/11/2019
15:08
Atualizado em 03/11/2019
18:20

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A menos que você seja um daqueles leitores alucinados por futebol, ou que acompanhe de perto os jogos de Premier League, é grande a chance de nunca ter ouvido falar em Gabriel Martinelli. Pois fique ligado: você pode estar perdendo o desabrochar do talento futebolístico do século. Ao menos na opinião do técnico Jürgen Klopp, do Liverpool, que, esta semana, se encantou com o jogo do atacante brasileiro, já considerado a grande revelação do futebol inglês na temporada, vestindo a camisa do Arsenal. Os elogios do alemão vieram depois que Martinelli marcou dois gols no empate histórico por 5 a 5 dos Reds contra os Gunners.

Martinelli chegou à Europa, com apenas 18 anos, em junho deste ano. Nunca vestiu a camisa de um clube grande da elite nacional, nunca disputou um Campeonato Brasileiro. Pertencia ao Ituano que negociou seus direitos para o Arsenal. Edu Gaspar, atual diretor de futebol do clube inglês, com quem o atacante teve contato quando começou nas categorias de base do Corinthians, funcionou como olheiro, negociador e agora converteu-se em uma espécie de tutor do menino na Inglaterra. Na transação, o Arsenal pagou ao Ituano, então comandado por Juninho Paulista, hoje diretor de desenvolvimento de futebol da CBF, três milhões de libras esterlinas, cerca de R$ 30 milhões em valores de hoje. Um negócio e tanto, o maior do história do clube interiorano.

A história do menino de Itu não é única. Talvez tenha sido a menos badalada pela mídia. Nos dois últimos anos, o futebol brasileiro perdeu talentos que, se não candidatos à craque do século, jogam acima da média e ainda tinham muita história para construir por aqui. Só para lembrar alguns, vale citar o rubro-negro Vinicius Júnior - a maior transação de um jovem já ocorrida no Brasil em todos os tempos -; Rodrygo, do Santos; Paulinho, do Vasco; Pedro e João Pedro, do Fluminense. Os meias Pedrinho, do Corinthians, e Reinier do Flamengo devem ser os próximos a engrossar essa lista.

Sob o ponto de vista meramente econômico, seria um exagero afirmar que o investimento de anos feito pelos clubes na formação desses jogadores foi desperdiçado. Afinal, não são pequenas, especialmente para os padrões do futebol tupiniquim, as quantias que acabam por faturar nessas transações. No entanto, quando se traz o assunto para dentro das quatro linhas, perder precocemente esses meninos é com certeza um prejuízo incalculável e que, em última análise, tem forte impacto no nível técnico do futebol praticado por aqui.

Mais do que isso: o culto aos ídolos é fundamental para alimentar a paixão do torcedor pelo seu clube. Não tê-los, vê-los atravessar o Atlântico antes de criar um vínculo, antes de suar a camisa do clube de onde vieram, é sempre uma ducha de água fria para o torcedor. Quando as pesquisas de opinião revelam que é grande a quantidade de brasileiros não tem um clube de preferência – somam 22% da população, segundo a última pesquisa do Datafolha – esta carência de ídolos certamente é um forte componente a interferir nessa equação.

A geração de ouro do final dos anos 70, início da década de 80 – onde brilhavam craques como Zico, Sócrates, Júnior, Falcão e companhia – só tomou o caminho do exterior depois de ter marcado sua passagem por clubes brasileiros. Alguns, ainda hoje, são considerados os maiores ídolos da história. E isso faz toda a diferença. Foram mais velhos, voltaram ainda em condições de jogar em alto nível. Como, aliás – e isso sim é uma boa notícia – voltou a acontecer ultimamente com Rafinha, Filipe Luís, Diego Alves, Daniel Alves, Hernanes, Gil e outros retornados.

Mas, voltando ao início desse texto, cabe uma pergunta: o que representa Gabriel Martinelli, afinal? A avaliação de Klopp certamente carrega uma boa dose de exagero. Pode-se discutir sobre se o atacante tem ou não talento para ser o nome do século. O que é um fato incontestável, porém, é que a trajetória que o garoto de Itu começa a construir no Arsenal é absolutamente simbólica, resume a disparidade existente no futebol dos dois lados do Atlântico. É um fator determinante para explicar o abismo que, ano após ano, aprofunda-se entre eles e nós.

Sobre o texto acima, a comunicação do Ituano enviou à coluna o seguinte comunicado:

"Martinelli chegou ao Ituano com 13 anos para jogar no Sub 15. Motivo: o pai mudou-se de Guarulhos para Itu ao se aposentar e pediu a dispensa do filho do Sub 13 do Corinthians.

Martinelli fez teste no Ituano, e obviamente passou. Jogou no Sub 15 e Sub 17 do Ituano. Aos 16 anos e 9 meses (março de 2018) ele foi lançado no profissional. Neste período, pela boa relação com os clubes ingleses, Juninho manteve contato com o Middlesbrough, Manchester United e por último o Arsenal que fez a proposta oficial. Ninguem do Corinthians jamais procurou o Ituano. Edu Gaspar não participou em nenhum momento da negociação. Não esteve presente em nenhuma reunião. Até porque ele assumiu a direção do Arsenal após a Copa América".

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