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'O Menino da Última Barca': as histórias de Lucas Paquetá, do Flamengo

Conheça mais da história do jogador do Flamengo

Redação Lance!
Rio de Janeiro (RJ)
Dia 16/05/2026
09:55
Capa do Documentário Lucas Paquetá, Flamengo, produzido pela Lance! TV
imagem cameraCapa do documentário de Lucas Paquetá

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Dois anos após o início da investigação mais longa da história da Football Association, a trajetória de Lucas Paquetá ganha as telas da Lance! TV. O documentário "O Menino da Última Barca" estreia neste sábado (16), às 10h (de Brasília), e mergulha na história do garoto que saiu da Ilha de Paquetá para se tornar um dos principais nomes do futebol brasileiro e europeu — atravessando, no caminho, o maior desafio da carreira dentro e fora de campo. Da rotina nas barcas às 5h30 rumo aos treinos no Flamengo até a absolvição no caso que ameaçou encerrar sua carreira na Inglaterra, a produção reúne relatos inéditos, bastidores e personagens fundamentais da caminhada do meia rubro-negro.

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➡️ Veja o documentário aqui!

O documentário reconstrói a ascensão de Paquetá desde os campos improvisados do Clube Municipal de Paquetá até os holofotes da Premier League, mostrando como a relação com a ilha, a família e o Flamengo ajudou a moldar o jogador em meio às turbulências da fama, das cobranças e das acusações que colocaram seu futuro em xeque.

Capa do Documentário Lucas Paquetá, Flamengo, produzido pela Lance! TV
Capa do Documentário Lucas Paquetá, do Flamengo, produzido pela Lance! TV (Foto: Editoria de Arte)

O menino da última barca

Prólogo — Londres, 31 de julho de 2025

A sala era pequena para o tamanho do que havia acabado de acontecer.

Lucas Paquetá saiu do tribunal com os advogados, sem dar entrevista. Do lado de fora, Londres seguia seu ritmo indiferente. Ônibus vermelhos, chuva fina. Mas dentro daquele corredor, algo havia mudado de forma permanente.

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Trezentas e quatorze páginas. Era o tamanho do veredicto que a comissão independente levou quase dois meses para redigir depois de encerrar as audiências. O processo mais longo da história da Football Association.

A conclusão coube em poucas linhas: Lucas Paquetá estava inocentado de todas as acusações de manipulação de apostas. A FA pedira o banimento vitalício do futebol. Não havia meio-termo possível.

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Em algum momento daquele dia, é possível que ele tenha pensado na barca, onde tudo havia começado.

Lucas Paquetá, ex-Flamengo, em ação pelo West Ham durante amistoso contra o Everton (Foto: Patrick McDermott/AFP)
Lucas Paquetá em ação pelo West Ham (Foto: Patrick McDermott/AFP)

A barca das 5h30

Seu Altamiro não acordava cedo para pescar.

A maioria dos homens da Ilha de Paquetá tem essa razão. A corvina e a piraúna que nadam nas águas da Baía de Guanabara antes que o calor as afugente para o fundo. Mas Altamiro tinha outro motivo. Tinha um neto para levar ao continente.

A travessia de barca durava aproximadamente uma hora. Do lado de lá, ônibus até o Flamengo. Saíam de manhã, voltavam meia-noite na última embarcação, comendo um lanche no meio do caminho porque comer fora no Rio era caro demais.

O pai de Lucas, Marcelo, era paraquedista do Exército. A mãe, Cris, trabalhava fora também. Então o avô assumiu aquela rotina como se fosse sua profissão.

Após cerca de um ano nessa rotina, os pais tomaram uma decisão: alugaram um apartamento simples no Rio para ficarem mais perto dos treinos. Lucas tinha onze anos. A ilha ficou para trás. Geograficamente.

A pérola esquecida

O Clube Municipal de Paquetá não tem placa na entrada.

Tem duas traves, um campo meio de grama, meio de terra batida, e tem Irakitan Almeida, o Iraki, que aparece por lá voluntariamente desde que se lembra, treinando as crianças sem cobrar nada de ninguém. O clube não tem empregado, não tem funcionário. Os próprios diretores pegam na vassoura quando é preciso.

"O Lucas é o jogador mais famoso que saiu daqui", diz Wellington, presidente do Municipal. "Mas essa visibilidade não se transforma em investimento pro clube. Nenhuma empresa de material esportivo chegou para bancar o uniforme da escolinha. Nenhum patrocinador."

A ilha tem essa lógica própria. Cinco mil habitantes, sem violência, sem milícia, sem assalto. Um bairro do Rio de Janeiro que parece o interior, cercado de água por todos os lados. Sem carros particulares. Só bicicletas, quadriciclos (os "eco táxis") e os pés. Um lugar encantado e encantador, como dizem os moradores, mas sistematicamente esquecido pelo poder público.

Foi nesse campo que Lucas Paquetá deu os primeiros chutes da vida. Irakitan se lembra do menino de cinco, seis anos que ficava do lado de fora batendo bola na parede enquanto o pai jogava nos torneios de veteranos. "Só na batida da bola, eu já via que teria potencial. Ele já tinha uma canhotinha especial." Era traquina, líder natural, o tipo que os outros seguiam sem que ninguém precisasse eleger ninguém.

Seu Altamiro, que havia sido treinador no próprio Municipal, que havia jogado ali, que conhecia cada palmo daquele campo, foi vendo o talento crescer. E num determinado momento, decidiu fazer algo com o que via.

Foi a mãe, Cris, quem encontrou o anúncio. "Peneira no Flamengo". Recortou o pedaço do jornal. Ligou para marcar. E num dia que a família não esquece, foram todos, Cris, Altamiro, Lucas e Matheus, fazer o teste.

O Matheus passou no campo. Lucas passou no salão. Naquele dia de peneira, o salão da Gávea confirmou o que o campo do Municipal já suspeitava.

O menino que sumiu

Em algum ponto entre os onze e os quinze anos, o corpo de Lucas Paquetá começou a teimar.

O menino que chutava mais forte do que qualquer um da sua idade foi cedendo espaço para um adolescente que simplesmente não crescia. Aos quinze anos, Lucas tinha 1,53 metro. Tecnicamente, era brilhante. Todos no Flamengo sabiam, e Irakitan sabia antes de qualquer um. Mas no futebol de base técnica sem corpo é tipo música sem som. Os adversários ganhavam no físico.

A situação chegou a um ponto crítico no sub-17: Lucas ficou afastado. A família ficou chateada.

Zé Ricardo, que acompanhou Lucas de perto na base, recorda as reuniões com a família: "Toda vez era reiterada a importância dele." Mas não há conversa que console um adolescente de quinze anos que sente que está perdendo o sonho da vida.

O que aconteceu nos dois anos seguintes é a parte que ninguém conta direito. Lucas ficou. Treinou. E cresceu. Não numa guinada súbita de autoconfiança, mas literalmente cresceu: vinte e sete centímetros em três anos. De 1,53 para 1,80. O corpo que havia travado na adolescência decidiu compensar com juros.

Quando subiu para os juniores e Zé Ricardo o reencontrou, havia um jogador diferente esperando do outro lado. Tecnicamente, era o mesmo menino da canhotinha especial, agora com estatura para fazer valer o que sempre soube.

A Copa São Paulo de Futebol Júnior de 2016 foi o palco. Lucas foi titular na final. Fez um gol, que foi anulado. O time venceu nos pênaltis.

Logo depois, o telefone de Zé Ricardo tocou. Era Muricy Ramalho, técnico do profissional. Queria subir um meia. Tinha um nome em mente, mas quis ouvir Zé Ricardo antes.

"Professor, são todos jogadores com qualidade, mas eu acho que o momento é do Paquetá."

Pausa do outro lado da linha.

"Eu ia falar isso, mas não queria que você não quisesse."

Em março de 2016, Lucas Paquetá estreou pelo time profissional do Flamengo. Tinha dezoito anos. O menino da última barca havia chegado.

O uomo squadra

Ninguém prepara um jovem de 21 anos para ser o salvador de um time em crise num país estrangeiro.

Quando o AC Milan anunciou a contratação de Lucas Paquetá, em outubro de 2018, por 35 milhões de euros - a segunda maior venda da história do Flamengo, atrás apenas de Vinícius Jr. -, os jornais italianos usaram uma expressão que carrega peso específico no Calccio: uomo squadra. O homem que bota o time no bolso. O cara que carrega.

Lucas Paquetá - Milan
Paquetá com a camisa do Milan (Foto: Miguel Medina / AFP)

O problema é que o Milan de 2018 não era o Milan de Maldini e Shevchenko. Era um clube saindo da era Berlusconi sem saber exatamente quem era. Um gigante em reconstrução. E havia ainda Zlatan Ibrahimovic voltando ao clube: um jogador de trinta e sete anos, ego descomunal.

A roupa suja lavada no vestiário se tornou rusga pública. Ibra não usou de meias palavras para criticar Paquetá na sua rede social.

"O Ibra é chato para c****, né", brinca Lúcio de Castro, jornalista que acompanhou de perto a chegada de Paquetá ao Milan. "Você exigir de um jovem que ele já chega e bote um time no bolso, eu acho que é muito complicado."

Não deu. Em 2020, o Lyon pagou 23 milhões de euros para tirá-lo da Itália.

Na França, Paquetá se transformou em jogador de elite: melhor estrangeiro da Ligue 1 na temporada 2021/22, com dez gols e sete assistências em 42 partidas.

Foi no Lyon que Pep Guardiola começou a observá-lo. Felipe Kieling, que cobriu a passagem do jogador pela Inglaterra, tem a definição mais direta: "Guardiola queria o cara. Quem sou eu para questionar se o Guardiola gosta?"

O West Ham pagou mais de cinquenta milhões de libras para tirá-lo do Lyon em 2022. Mais de cem jogos na Premier League. Um título inédito, a Conference League de 2023, primeiro troféu europeu da história do clube.

O carinho da torcida que Kieling descreve como raro: sempre que o nome de Paquetá aparecia no telão, o estádio gritava.

E então, em agosto de 2023, tudo parou.

Os 60 CPFs da ilha

A Betway é uma casa de apostas. Era também a patrocinadora oficial do West Ham.

Em agosto de 2023, os algoritmos da Betway identificaram algo anômalo: um volume desproporcional de apostas no cartão amarelo de um único jogador da Premier League. As apostas tinham origem geográfica concentrada. Uma ilha na Baía de Guanabara.

Sessenta moradores da Ilha de Paquetá tinham aberto contas em casas de apostas e apostado, em valores entre sete e quatrocentas libras, que Lucas Paquetá receberia cartão amarelo em determinadas partidas. Sessenta pessoas num lugar com cinco mil habitantes. Cerca de dois por cento da população total.

A Betway reportou à FA. A FA abriu investigação. E o Manchester City, que acenava com 100 milhões de libras por Paquetá, desistiu da transferência.

A acusação formal veio em maio de 2024: quatro violações da Regra E5.1, envolvendo os jogos contra Leicester, Aston Villa, Leeds e Bournemouth.

O jogador teria forçado os cartões amarelos deliberadamente para beneficiar apostadores. A pena pedida: banimento vitalício do futebol.

"Aqui no Brasil, in dúbio pro réu - na dúvida, a lei mais benéfica favorece o réu. Lá não.", explica Márcia Peixoto, advogada especialista em direito esportivo: "O sistema jurídico desportivo inglês funciona por probabilidades. Se houver 51% de probabilidade de que alguém manipulou o resultado, então manipulou."

Era um sistema feito para condenar com menos evidência. E as evidências, embora circunstanciais, eram perturbadoras: sessenta apostadores da mesma ilha, num lucro estimado de R$ 720 mil.

O julgamento começou em março de 2025 e foi o mais longo da história da FA. Em junho as audiências foram encerradas.

A comissão independente absolveu Paquetá de todas as acusações principais.

"Paquetá sai daquele julgamento não com um atestado de santidade, mas com o benefício da dúvida. E a dúvida no mundo do futebol é suficiente para que seja assinado o próximo contrato milionário.", arremata o jornalista Fernando David, que cobriu o caso do início ao fim.

A última barca, de volta

A ligação com o empresário foi gravada sem cerimônia.

"Vamos embora, Flamengo. Vamos hoje. Vamos hoje, porra! Arruma o voo pra ir logo. Nossa família."

Era esse o homem de vinte e oito anos que havia jogado mais de cem partidas na Premier League, conquistado a Conference League, sobrevivido a um processo que pediu seu banimento do futebol. Naquele momento, havia uma coisa só na cabeça: voltar.

O Flamengo fechou a negociação por 42 milhões de euros. A maior contratação da história do futebol sul-americano.

A chegada foi ao amanhecer, num aeroporto tomado por rubro-negros. Guilherme, o Fla-Zoeiro, transmitia ao vivo. Dono do canal com 2.6 milhões de inscritos no youtube, o influenciador mobilizou 15 profissionais para a cobertura. Câmeras espalhadas pelo terminal. Até um drone acompanhando tudo de cima.

"O Flamengo talvez não precisasse dele, mas ele estava precisando desse acolhimento.", sintetiza o FlaZoeiro,.

Paquetá tirando fotos com os torcedores do Flamengo no aeroporto (Foto: Lucas Bayer/Lance!)
Paquetá tirando fotos com os torcedores do Flamengo no aeroporto (Foto: Lucas Bayer/Lance!)

Seu Altamiro não está mais aqui para ver.

O avô que acordava antes do sol, que pegava barca e quatro ônibus debaixo de chuva, que passou anos levando os netos de volta para a ilha na última embarcação, faleceu anos atrás.

Lucas raramente fala sobre isso em público. É o tipo de dor que fica guardada: "A ilha significa muito para mim, onde eu cresci, onde eu dei os meus primeiros passos. Mas é difícil voltar."

Na ilha, a vida seguiu no ritmo de sempre. Sem carros, sem pressa.. O Municipal Futebol Clube continua sem patrocínio. Irakitan continua aparecendo por lá de graça. As crianças do sub-9 continuam jogando sem pagar nada.

A última barca ainda sai à meia-noite.

*Participaram da produção do documentário: Fernando David, Pedro Calazans, Pedro Leal, João Lidington, Letycia Farias e João Fraga.

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