Coluna do Seda: Flamengo volta a encantar no campo e a ferver nos bastidores
Time vence e convence, mas Bap sofre ataques abertos em reunião de conselho

O Flamengo de 2026 driblou a crise no campo, mas tropeça em si mesmo nos bastidores. E, como de costume, o fim de ano que precede a temporada que termina com eleições presidenciais começa a aquecer a temperatura nos corredores da Gávea. Em reunião do Conselho Deliberativo na última terça-feira, o presidente Luiz Eduardo Baptista, o Bap, sofreu ataques abertos do ex-presidente Rodolfo Landim, enquanto conselheiros de oposição articulam pedidos de comissão de inquérito contra a atual diretoria.
Conversei com diversos conselheiros e pessoas com acesso ao Ninho do Urubu nas últimas semanas e, se no campo o time voltou aos trilhos depois dos jogos contra Vasco e Grêmio, na política do clube o movimento é inverso e caminha para a fervura. Essas comissões de inquérito, que são discutidas por grupos políticos, mas ainda nem sequer foram protocoladas, a princípio devem mirar uso político do clube durante o período da eleição presidencial e questões financeiras, se de fato forem adiante.
No futebol, a situação de José Boto e Leonardo Jardim é incerta. O Flamengo chegou a emitir nota afirmando que não existe intenção de troca, mas especialmente a relação complicada do diretor de futebol com lideranças do elenco e funcionários é algo que começa a ganhar corpo nos comentários à boca miúda.
E é fato que o planejamento rubro-negro deste ano teve falhas. Desde que as que feriram a vaidade de Bap no início do ano com o desastre do time que começou o Carioca e provocou a intervenção da diretoria para o retorno do time principal antes da hora. A situação acabou culminando com a demissão de Filipe Luís, que, seja você contra ou a favor, teve impacto muito negativo nos bastidores do departamento de futebol.
As emendas ainda saíram piores que o soneto. As justificativas que se seguiram não foram bem digeridas. A forma como o técnico foi desligado, logo após a coletiva de uma vitória por 8 a 0 sobre o Madureira em março, garantindo vaga na final estadual, causou não apenas espanto, mas rompeu de vez uma já frágil relação das lideranças do elenco com Boto, que inclusive apresentou algumas mudanças de comportamento na época indicando um distanciamento.
Meses atrás, cheguei a conversar com a assessoria do Flamengo para pedir uma posição a respeito e, na época, recebi explicações razoáveis do próprio Boto sobre essas mudanças, como deixar de assistir no campo aos treinos. Desta forma, nada publiquei. Mas, de lá para cá, os relatos nos bastidores dão conta que a situação pouco mudou. Se não há grandes atritos diretos, também não há proximidade e simpatia fora do foco das câmeras.
Só que as questões internas com Boto começaram muito antes da demissão de Filipe Luís. A primeira delas foi logo ao ser contratado, quando chamou para si os louros de manter o técnico que acabara de ser campeão da Copa do Brasil de 2024 mesmo sendo clara e inequívoca a impossibilidade de troca de comando naquele momento. Tratava-se de um ídolo do clube, vitorioso como jogador, e, naquele momento, já campeão também na área técnica.

Mas a atitude de Boto, que mal tinha assumido o cargo, deixou muito nítido o incômodo que o sucesso de um treinador efetivado pela gestão de Rodolfo Landim causava em Bap. Isso sem entrar nas questões posteriores com Pedro. E é Landim que agora ressurge do exílio político por força de liminar para bater de frente com a atual diretoria.
Na reunião de terça-feira, foram dois momentos em que Landim se pronunciou. Primeiro, em um questionamento mais comedido a números, quando anunciada e votada, a renovação do patrocínio da Shopee com aumento de R$ 1 milhão em relação a 2026. O discurso mais inflamado foi no final da reunião, quando a pauta foi aberta para assuntos gerais.
Bap estava presente quando Landim falou sobre patrocínio, mas deixou a reunião e escapou do coice antes do pronunciamento final de Landim tratando o orçamento do clube para 2026 como peça de ficção. Quem esteve no encontro, porém, relata que não houve um clima bélico, pelo contrário. A reunião transcorreu sem intercorrências.
O assunto ainda deve render. O Flamengo provavelmente fechará o ano em déficit, o que inevitavelmente alimentará a oposição nos meses que estão por vir. E o tema finanças deve ser central na disputa no ano que vem.
O alento para Bap vem do gramado. A eliminação na semifinal da Libertadores, diante de um time tecnicamente inferior e com dois jogos muito ruins da equipe rubro-negra, reviveu o jargão da obrigação de ganhar o Brasileirão. E por pouco a coisa não se complicou.
O pênalti de Renan Lodi no último minuto do empate que se desenhava com o Atlético-MG repeliu a crise que rondava o departamento de futebol, e serviu também para impedir o caldeirão político de borbulhar de imediato. Mas que ninguém se engane: se em campo Leonardo Jardim conseguiu fazer o Flamengo voltar a encantar — que lance do Carrascal contra o Grêmio, aliás —, fora dele o desarranjo financeiro, ainda que pontual, deve provocar ebulição em um futuro próximo.
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