Paulo Autuori - Botafogo

Paulo Autuori em treino do Botafogo (Foto: Vítor Silva/Botafogo)

Sergio Santana
14/02/2020
05:30
Rio de Janeiro (RJ)

Paulo Autuori chega ao Botafogo para encarar um desafio nada fácil: assumir uma equipe que ainda não havia mostrado uma grande performance no ano, convive diariamente com problemas financeiros e necessita de bons resultados dentro de campo para se manter. O novo comandante retorna ao Alvinegro pela quarta vez e sabe como funcionam as coisas nos bastidores do clube - pelo menos, esta é a aposta da diretoria.

A dificuldade de contratar jogadores, uma clara consequência dos cofres vazios, por ora, não deve ser uma dificuldade para Autuori. Primeiro, o treinador afirmou que não fez nenhum pedido à diretoria, que, vale ressaltar, já fez 13 contratações para a atual temporada. Em segundo, o treinador chega ao clube de General Severiano com uma clara intenção: valorizar a base.

- Em nenhum clube que passei como treinador eu exigi vinda de jogador, não é característica do meu trabalho. Minha característica é o desenvolvimento do jogador. Outra característica é que, por onde que passei, utilizei jogadores das categorias de base, o futebol precisa de um trabalho de formação bem feito - afirmou Autuori, durante a apresentação no Estádio Nilton Santos.

Por onde passou nos últimos anos, o comandante buscou deixar rastros de mudanças nas gestões dos clubes e 'plantou uma semente', seja com a entrada de novos profissionais ou a apresentação de distintas visões sobre o desenvolvimento do futebol, sempre com o foco a médio e longo prazo. Foi assim no Athletico-PR, Fluminense e Santos, apesar do pouco tempo como dirigente em ambas as instituições.

Quando Paulo Autuori chegou no Botafogo pela primeira vez, em 1995, ainda como um desconhecido de grande parte do público brasileiro vindo do futebol português, era raro ver um jogador formado em General Severiano na equipe principal do Alvinegro, até mesmo sendo reserva. Vinte e cinco anos depois, o cenário é oposto: o Glorioso foi o clube que mais utilizou jogadores da base no último Campeonato Brasileiro.

- O próprio Botafogo passou um tempo sem isso e o (Manoel) Renha foi o responsável pelo Botafogo ter, hoje, muitos jogadores da base. O clube tem que ter um olhar profundo e delicado na formação. Nem toquei em nome de jogador, até porque sabemos da condição que vamos trabalhar. O importante é que, daqui para frente, a vinda de jogadores obedeça um critério. Não é contratar por gostar. É preciso ter uma análise de mercado bem feita e que obedeça critérios claros, é preciso ser convergente com o estilo de jogo desejado - analisou o treinador.

Por exemplo, Paulo Autuori, durante a passagem como treinador pelo Athletico Paranaense, em 2017, tinha 60% dos jogadores daquele elenco formados nas categorias de base. O atual comandante do Botafogo, inclusive, é considerado uma peça importante - também exercendo a função de Coordenador Técnico - no atual momento vivido pelo CAP, campeão da Copa do Brasil em 2019 e da Sul-Americana no ano anterior.

Durante a passagem pelo futebol japonês, quando treinou o Kashima Antlers em 2006, Paulo Autuori promoveu a subida de Atsuto Uchida ao time principal da equipe. O lateral-direito, à época com 17 anos, teve um voto de confiança do brasileiro mesmo vindo direto do ensino médio das escolas japonesas. Anos depois, o defensor se estabilizou como um dos maiores nipônicos do atual século, com uma carreira consolidada no Schalke 04-ALE.

No Botafogo, até por necessidade, a história deve se repetir: o trabalho que vem sendo implementado nas categorias de base desde o começo da década  tende a ficar cada vez mais sincronizado com as decisões do futebol profissional. Apenas o futuro dirá, contudo, se o trabalho de Autuori conseguirá ir além do que simplesmente o trabalho tático e técnico dentro das quatro linhas.