Alecsandro 2015/2016 (FOTOS: Cesar Greco/Palmeiras)

Alecsandro em 2015 e em 2016: ele diz que a camisa cinza o faz parecer gordo (FOTOS: Cesar Greco/Palmeiras)

Fellipe Lucena
18/01/2016
08:15
Itu (SP)

A bola ainda nem rolou, mas as redes sociais de Alecsandro já foram tomadas por elogios em 2016. O motivo? O atacante apresentou-se para a pré-temporada aparentando estar mais fino do que no ano passado, além de estar chamando a atenção nos treinos e de já ter tomado de Cristaldo o posto de reserva imediato de Barrios. Mas ele sorri ao ser questionado sobre o suposto emagrecimento.

- Lógico que eu poderia vender meu peixe e falar que realmente estou mais magro. Mas não, cara. A televisão me deixa um pouco mais gordo, um pouco diferente. Eu estou com 86kg e no ano passado, por incrível que pareça, estava jogando com 84kg. Então, estou com dois quilos a mais. Lógico que, no começo de temporada, com um pouquinho a mais de massa muscular - disse o goleador, ao LANCE!.

O bate-papo com o camisa 90 durou 35 minutos. À beira de um dos gramados do Spa Sport Resort, em Itu, ele falou sobre tudo: a Libertadores deste ano, as duas que já ganhou, o Mundial que os palmeirenses tanto têm citado, a meta de gols que elabora junto com o irmão Richarlyson, racismo nos gramados sul-americanos e sua motivação para o ano que começou:

- O torcedor do Palmeiras vai me respeitar, porque eu vou fazer gols e vou ganhar títulos.

Confira abaixo como foi a conversa com o atacante do Verdão:

LANCE! Você aparenta estar mais magro do que em 2015. Fez algum trabalho nas férias?
Alecsandro:
Não, nada. Isso aí é até engraçado de falar, vi comentários em redes sociais. A fisionomia de estar careca emagrece um pouco mais. Independentemente disso, não trabalho com o que os outros pensam, trabalho em cima daquilo que os profissionais me cobram. Os profissionais do Palmeiras me cobram um percentual de gordura e já estou dentro do que estão me pedindo. Estou procurando diminuir um pouco mais, mas já estou me sentindo muito bem. Que bom que o torcedor palmeirense está empolgado, me achando mais magro. Quando eles me acham mais magro, eu também me acho. O importante é ganhar massa muscular, e eu ganhei. Digo que o Alecgol não ficou mais magro, o Alecgol ficou mais forte para 2016.

"A camisa cinza do Palmeiras dá a impressão de que estou mais forte, eu já reparei e minha família mesmo repara"

Quais comentários você viu?
Ano passado, vi o torcedor palmeirense dizendo que eu estava gordo. Realmente a camisa cinza do Palmeiras dá a impressão de que estou mais forte, eu já reparei e minha família mesmo repara. Minha mãe já me falou: “Nossa, você fica diferente, parece que está gordo”. Ano passado eu também estava dentro do percentual de gordura que o clube pediu. Vi comentários de que esse ano estou mais magro e que vou fazer a diferença, isso me chamou a atenção.

Quando foi contratado, você disse ao Paulo Nobre que estava chegando para disputar a Libertadores. Isso pesou para que não tenha saído agora?

É, também pesou. Tive algumas propostas, outras sondagens, outras que não dá nem para chamar de proposta ou sondagem, que é mais uma amizade que você tem com treinador, com diretor, que queriam saber se eu queria sair, se o Palmeiras queria que eu saísse. Há quase um ano, eu prometi para o presidente que viria para jogar uma Libertadores. A Libertadores está aí e espero que a gente possa fazer uma grande competição. Sempre digo que nunca quero atrapalhar, quero ajudar de alguma forma, ou sendo titular ou entrando nos jogos. No dia em que eu perceber que estou atrapalhando peço para sair.

Em uma derrota para a Ponte, você discutiu com torcedores. Foi inédito na carreira?
Na verdade, foram dois torcedores. Nunca briguei com a torcida do Palmeiras e nem vou brigar, como nunca briguei com nenhuma torcida. O time não vinha bem e os caras quiseram jogar a raiva deles em mim. Eu, com todo o meu sangue frio, aguentei, mas depois ele xingou minha mãe, meu pai, meu irmão, minha esposa. Perdi um pouco a cabeça e acabei só dando uma retrucadinha com os dois. Mas foi só, nunca tive problema com o palmeirense, só aquele ato isolado. Nunca peço para o torcedor passar a mão na minha cabeça, mas peço que ele avalie o jogador Alecsandro de acordo com a partida. Se eu joguei mal, não peço para ele fingir que joguei bem. Só não dou a liberdade para que o torcedor vá à beira do gramado e agrida a mim, minha família. Até o Marcelo ele agrediu naquele momento. Eu perdi a cabeça, saí um pouco da linha e retruquei. E não me arrependo.

E o Alecsandro de 2015 foi bem?

"Vamos pegar como referência o artilheiro do Palmeiras, que foi o Dudu, com 16 gols. Eu terminei a temporada com 15 gols. Fiz 13 no Flamengo e dois no Palmeiras. Isso aí ninguém falou"

Às vezes a gente só enxerga aquilo que quer. Se você quiser enxergar que eu só fiz dois gols no Palmeiras, você vai enxergar. Mas se você quiser enxergar que eu fiz dois gols, que em algumas outras partidas eu dei passe para gol, lutei e ajudei taticamente, você vai ver que acaba sendo até uma passagem positiva. Eu machuquei também, voltei em um ritmo diferente, no fim de temporada, não podia jogar a Copa do Brasil... Em um contexto geral, foram seis meses difíceis para mim. Mas vamos pegar como referência o artilheiro do Palmeiras, que foi o Dudu, com 16 gols. Eu terminei a temporada com 15 gols. Fiz 13 no Flamengo e dois no Palmeiras. Isso aí ninguém falou. Se fosse tudo no Palmeiras, eu teria sido o vice-artilheiro da temporada jogando menos partidas do que todo mundo. E mesmo assim estaria abaixo da minha média, que é acima de 15 gols. Então acho que foi um ano regular.

Costuma estipular meta de gols?
Costumo, só não revelo. Nós já temos uma responsabilidade grande, o centroavante mais ainda, porque é o cara que tem de fazer o gol. Se você disser que vai fazer 30 e fizer 29, que é uma baita marca, nego vai falar: “Alecsandro não cumpriu a meta de 30 gols”. Então eu procuro não falar. Meu irmão (Richarlyson) que faz isso comigo, a gente conversa por telefone e ele fala: “No Paulista tem de ser X gols, X gols na Libertadores e mais X no Brasileiro”. A gente chega em uma conta. Todo ano eu faço isso. Na maioria dos anos eu bati a meta. No ano passado fiquei abaixo, porque a minha meta era fazer mais de 20 e acabei com 15, lembrando que 15 gols no Brasil poucos atacantes fazem. A meta não vai ser revelada. Quem sabe no fim da temporada? E eu falo, viu? Batendo ou não, eu falo.

Alecsandro (FOTO: Cesar Greco/Palmeiras)
Primeiro gol pelo Verdão foi contra o Fla (FOTO: Cesar Greco)

Você já ganhou a Libertadores duas vezes, em 2010 pelo Inter e em 2013 pelo Atlético-MG. O quanto isso pode ajudar agora?
Cara, eu estava até comentando com o Lucas que poucos lembram de 2010, quando fui campeão pelo Inter. Graças a Deus, as duas Libertadores eu joguei. Na do Inter eu fui titular absoluto, fiquei fora da final porque me lesionei na partida de ida. E no Atlético eu joguei todas. Eu não era titular, o Jô vinha em grande fase, mas eu joguei todos, bati pênalti em semifinal, final. Libertadores, cara, é você ganhar os jogos dentro de casa. São duas competições em uma só, porque na primeira fase você perde um ponto ali, aqui, e depois de seis jogos vê o que deu. Quando passa para o mata-mata, já tem que estudar, se joga a primeira em casa, se joga para frente, se joga para trás. É uma competição interessante e dou muita atenção à primeira fase. São 60% ou 70% de chance de ser campeão se fizer uma boa primeira fase.

Lembra de situações curiosas?
Tem zagueiro com chuteira amarrada no tornozelo. Você vai jogar lá contra o The Strongest e tem a altitude, em Quito também. A comida também é diferente. Em 2010, pelo Inter, não lembro se foi no Equador ou na Bolívia, nós chegamos no hotel para comer e descobriram que o cozinheiro era infiltrado, alguma coisa assim. Todo mundo com fome e a nutricionista falou que não podia comer, porque desconfiamos que tinham mexido na comida, uma confusão do caramba, lá na altitude. Aí saímos do hotel para jantar em um restaurante, e correndo o risco também de o cara do restaurante bagunçar com a gente. Lembro contra o Emelec, pelo Inter também, que nós vencemos lá e quebraram o ônibus todo na volta, tivemos que ir com o exército até o aeroporto.

"Vejo casos do pessoal entrando na Justiça porque o cara chamou de macaco, negrito, neguinho... Pô, o que a gente mais escuta na Libertadores é isso"

Já presenciou ofensas racistas?
Ah, tem bastante. Eu seria hipócrita de dizer que não. Até vejo casos do pessoal entrando na Justiça porque o cara chamou de macaco, negrito, neguinho... Pô, o que a gente mais escuta na Libertadores é isso. Você vai jogar contra Equador, Bolívia, Uruguai... A impressão que eu tenho é que todos eles queriam ser brasileiros e têm inveja da gente. Em todo lugar que a gente vai é sempre uma dificuldade, pessoal com cara feia. Eu digo sempre para quem não jogou: “Bem-vindo à Libertadores”.

Por que você acha que lembram pouco da Libertadores de 2010? Você fez gols importantes na campanha. Acha que é por jogar em vários clubes grandes em pouco tempo?
É, pode ser. E o gol mais importante da Libertadores daquele ano, pelo menos que eu acho, foi aquele que eu fiz contra o São Paulo na semifinal (o São Paulo venceu por 2 a 1 no Morumbi, mas o Inter se classificou à final por ter feito 1 a 0 no Beira-Rio). Aquele gol até hoje todo mundo acha que foi do D'Alessandro. Quando o D'Alessandro bate a falta e eu desvio, é no gol do túnel do Morumbi, e nossos roupeiros e massagistas estavam ali. Eu tinha falado para eles: "Eu vou fazer um gol e vou vir aqui falar com vocês". Na hora que eu faço o gol, eu já caio no túnel e o D'Alessandro sai para comemorar, então a TV pegou ele comemorando. Tanto que na narração oficial o cara sai falando "D'Alessandro, D'Alessandro, D'Alessandro". Depois do replay o comentarista é que fala: "Não, não, o gol foi do Alecsandro". Só que eu nunca apareço na imagem. A câmera atrás do gol é que pega o desvio de calcanhar, bem consciente, diferente do que alguns cornetas dizem. Sorte foi, mas também foi consciente. Eu não quis tocar lá no cantinho em que a bola entrou, mas entrei na frente da bola para fazer o gol. Eu lembro até que uma vez o D'Alessandro falou que aquele gol tinha sido dele, que eu tinha passado na frente da bola. Aí eu aproveitei e falei: "Ah, ele não fez nenhum gol mesmo, pode deixar esse para ele". Pegou até mal no Sul (risos). Ele é meu amigo, me chamou para o jogo dele no fim do ano e infelizmente não deu para ir. Mas eu respondi à altura, né? Ele brincou e eu brinquei também, pô.

Na final da Copa do Brasil, você conversou com Marcelo Oliveira antes dos pênaltis. O que achou da escolha do Prass para a última cobrança?

"O quinto batedor tem de ser o pior, né? O Fernando, dos jogadores que iam bater, era o pior. Mas a gente confiava na batida dele"

Sempre quando tem cobranças de pênalti nos treinos, os jogadores de linha batem dez pênaltis. O Fernando sempre bate três, quatro, ele nunca bate dez. Não foi uma coisa que ele foi lá para ver o que dava. Não, ele bate também nos treinos, não com a nossa frequência, mas bate. O Fernando ia bater em terceiro, mudou para quarto e o Marcelo me perguntou. Eu falei: "Cara, deixa o Fernando em quinto". O quinto batedor tem de ser o pior, né? Tinha uma lenda antigamente que o melhor tem que ser o último, mas às vezes nem chega no último, pô. Na Libertadores de 2013 nós fomos campeões sem o Ronaldo (Ronaldinho Gaúcho, à época destaque do Atlético-MG) bater. O Fernando, dos jogadores que iam bater, era o pior. Então deixa o Fernando por último porque se precisar ele vai bater. A gente confiava na batida dele e acabou dando certo. Eu até falei para ele que era para ter pego uns dois para nem precisar bater. Eu falei: "Você que escolhe. Ou você pega logo para não bater ou vai ter que decidir".

Na Libertadores de 2013, se te perguntassem, Ronaldinho seria o primeiro?
O primeiro fui eu, que era o melhor, né (risos). Mas o Ronaldo teria que ser o segundo. Ou ele o primeiro e eu em segundo, entendeu? Mas ali o Ronaldo decidiu por ele. Ele falou: "O Alecsandro bate o primeiro e eu bato o último". Com o Ronaldo não dá para discutir. Mas por todos esses anos que eu tenho de conhecimento de futebol, e eu sou batedor de pênalti, os melhores têm de ser os primeiros.

Voltando à final da Copa do Brasil, o que achou da reação dos jogadores do Palmeiras ao imitarem a careta do Ricardo Oliveira?
Acaba indo todo mundo no embalo. O Ricardo foi muito infeliz e muito feliz ao mesmo tempo. Quando ele fez a careta, que foi considerada deboche, ele falou assim: "Pô, gente, o futebol está muito chato! Não pode fazer mais nada que todo mundo acha que foi desrespeito". Eu acho que deu tudo certo, o pessoal fez a careta também, levaram na brincadeira. Futebol é assim. Daqui uns dias você vai fazer o gol e vai ter que ficar parado. Não pode mais tirar a camisa, não pode fazer careta, não pode mais ir na torcida... Não lembro se foi no Atlético ou no Flamengo, mas fiz um gol, fui comemorar com o banco e o cara me deu amarelo, falou que eu demorei muito. Nesse lado eu concordo com o Ricardo. Futebol está ficando sem graça, tem que voltar a comemoração, aquela provocação de véspera de clássico. Com respeito, eu sou a favor.

Você também tem uma careta característica. Aquela em homenagem ao seu pai...
E tomei amarelo também por causa disso. Jogando pelo Vasco contra o Atlético-PR, numa semifinal de Copa do Brasil, fiz o gol, tomei amarelo e fiquei fora do jogo de volta porque fiz a careta. Mas eu estou com saudade. A careta é sempre pontual, ela sempre aparece na hora que tem de aparecer.

No Palmeiras, já se fala muito de Mundial. Acha que está correto?
Vou dar um exemplo da vida. Não adianta pensar em ter filhos sem casar. Você tem que casar para depois ter filho. É a ordem natural, pelo menos a que nós aprendemos. Hoje nego faz diferente, mas não adianta pensar no Mundial sem ganhar a Libertadores. É válido, porque quando vai começar uma relação, você pensa com a sua futura esposa em ter filho, isso e aquilo, mas antes vai ter que casar, pedir a mão dela para a mãe, para o pai. Mas a Libertadores é muito difícil e temos que focar bastante. Acho que a gente não deve perder força agora com Mundial, mas guardar todas as nossas energias para a Libertadores. Depois você tem quatro meses para pensar em Mundial.

Você se vê em condições de brigar com o Barrios de igual para igual?
Cara, eu não estou aqui para ser reserva. Isso é nítido pelo meu dia a dia, pelo que eu treino, pela minha história no futebol. Eu vou sempre brigar para ser titular. Já comecei atrás, e quem começa atrás corre na subida. Nesse começo de temporada eu estou correndo na subida, porque o Marcelo já sinalizou que vai começar com o Barrios. Vou me esforçar para ser aquela dor de cabeça que todo treinador gosta. Vou incomodar até o último dia. Quero ser titular, quero jogar a Libertadores, quero fazer gol, quero fazer o que fiz em todos os clubes em que passei. Dar volta olímpica, ser reconhecido pelos gols, ser respeitado pelo torcedor. E isso é uma coisa pela qual eu vou brigar muito aqui no Palmeiras. O torcedor do Palmeiras vai me respeitar, porque eu vou fazer gols e vou ganhar títulos. Tenho certeza que no dia que sair daqui vai ser pela porta da frente.