Olga Bagatini
04/11/2016
06:00
São Paulo (SP)

“O último camisa 10 do futebol brasileiro.” É por essa alcunha que os jogadores do Grêmio se referem ao meio-campista Douglas. Conhecido pelos passes magistrais, jogo cadenciado, sinceridade e boemia, o jogador de 34 anos se firma cada vez mais como referência do elenco tricolor. Com a confiança do técnico Renato Gaúcho, Douglas voltou a mostrar seu melhor futebol e ajudou a classificar o Grêmio para as finais da Copa do Brasil. Após vencer o Cruzeiro por 2 a 0 no placar agregado, o Tricolor vai encarar o Atlético-MG na decisão para tentar encerrar um jejum de títulos nacionais que já dura 15 anos.

Em entrevista ao LANCE!, o Maestro falou sobre as dificuldades de se adaptar ao futebol moderno, sendo um atleta que preza por classe e técnica, sobre o relacionamento com o treinador e a torcida, e garantiu ser avesso a fazer média. O grisalho criticou os colegas de profissão que se escondem atrás das assessorias de imprensa e disse que não vai largar sua habitual cerveja, embora tenha diminuído o ritmo para continuar jogando em alto nível. No geral, Douglas se mostrou despreocupado em relação às consequências de seu estilo de vida - como a falta de uma segunda chance na Seleção Brasileira.

– Tem vários atletas por aí, inclusive na Seleção, que fazem coisas bem piores do que eu. Nunca fui de fazer média, de dar carrinho para levantar a torcida, de ir na imprensa falar babaquice. Nunca precisei disso e não é agora que vou precisar. Estou tranquilo, qualidade para jogar eu tenho – resumiu o camisa 10.

Confira a entrevista de Douglas na íntegra:

Como é se adaptar a um futebol de cada vez mais velocidade e força, sendo um atleta que preza por cadência, técnica e classe?
Não tenho dificuldade. Tento me adaptar do meu jeito, e tem dado certo. Há momentos na partida em que você precisa ter o controle para organizar o time, mas enxergo o jogo de forma muito diferente do que todos falam. Com a bola, tento dar o mínimo de toques possíveis.

E como você enxerga o futebol?
Na minha cabeça, é um jogo muito mais cadenciado. Nada de entrar naquela correria de todo mundo, tem hora que você precisar parar e pôr a bola no chão, ter um pouco mais de tranquilidade. Alguém precisa parar para pensar, e eu gosto desse papel. Já é algo meu. Desde que comecei a jogar, vim aprimorando esse aspecto para poder acompanhar todo mundo. A gente cria um jeito próprio de jogar.

O Grêmio caiu de rendimento sem você no Gre-Nal e contra o Figueirense, e melhorou nos dois jogos contra o Cruzeiro, com você em campo. Como é ser tão decisivo aos 34 anos?

Cair de rendimento é algo que acontece. Aconteceu quando não joguei, mas o elenco do Grêmio é forte e já um estilo de jogo bem definido. Mesmo assim, ser reconhecido dessa forma é importante. Tenho trabalhado muito para que isso aconteça.

Você é sinônimo de resistência para aqueles que não gostam do futebol moderno. Não esconde que bebe sua cerveja, fuma... Ainda enfrenta dificuldades por ser um atleta assim?
Eu não ligo para o que os outros falam. Tenho que dar resposta e retorno no clube onde eu jogo, para a torcida que eu jogo. O que os outros pensam de mim é indiferente. O importante é estar rendendo dentro de campo, não vejo problema nisso.

Você também é muito sincero. É importante que os atletas falem o que pensam em um mundo tomado pelo “media training”?
Na verdade, há muitos outros jogadores iguais a mim. Às vezes falta um pouco de personalidade para assumir as coisas. Ficam se escondendo atrás de assessoria. Eu sou assim e vou continuar sendo, cada um tem seu jeito, sua personalidade. Jogador igual a mim tem de monte.

É verdade que o Tite fez campanha para você largar o cigarro?
Mentira. Certa vez, ele fez um comentário sobre isso durante uma preleção no Corinthians, mas nada que fosse um apelo para que isso aí (parar de fumar) acontecesse.

Cléber Xavier, auxiliar de Tite, já disse que você teria um lugar na Seleção Brasileira se fosse mais preocupado com o físico. O que pensa a respeito disso?
Tem vários jogadores que estão na Seleção que fazem o mesmo que eu faço, até mais. Não vejo problema nisso. Estou tranquilo, qualidade para jogar eu tenho. No momento, estou mais preocupado com o Grêmio, até porque Seleção não é mais para mim há muito tempo. Quero ganhar um título com o Grêmio para poder dar retorno à torcida que me apoia.

Que lembrança tem da passagem pela Seleção? (Convocado por Mano Menezes para amistoso contra a Argentina, em 2010, Douglas perdeu a bola para Messi em lance que culminou na derrota do Brasil. Não voltou a ser convocado)
Eu vivia um momento muito bom naquela época. Aconteceu aquilo e, de alguma forma, eu fui taxado como culpado naquele jogo. Não tive mais chances de voltar. Eu acredito que vivia um excelente momento, teria totais condições de jogar. Isso não me chateia, foram escolhas. Não me arrependo de nada do que fiz.

Como é seu relacionamento com o técnico Renato Gaúcho? Por que acha que tem um rendimento tão acima da média com ele? (Douglas chegou a ser reserva de Bolaños durante a passagem de Roger Machado)
A gente é muito amigo, assim como fui de todos os outros treinadores que tive. Ficamos amigos na primeira passagem dele pelo Grêmio, sempre nos falamos desde então. A gente se dá super bem. Sobre o rendimento, não tem explicação. Essas coisas acontecem naturalmente.

Como avalia suas passagens pelo Corinthians? (De 2008 a 2009, e depois entre 2012 e 2014 - conquistou Libertadores, Mundial e dois Paulistas pelo Timão)
Fiquei muito satisfeito. Ganhei tudo o que disputei. Fazer parte da história do Corinthians foi um sonho para mim. Fiquei satisfeito com tudo o que fiz lá.

E como era a relação com Tite?
Sou fã do Tite. Sempre me dei muito bem com ele. Quando trabalhei com ele, fui muito intenso. Eu me entregava durante os jogos, corria muito, tanto que ele reconhecia isso e mostrava nos papéis o que acontecia. Quando voltei para a segunda passagem, em 2012, o time já estava praticamente fechado, com Alex e Danilo atuando muito bem. Tive que esperar meu momento, buscar meu espaço, e isso aconteceu depois da Libertadores, quando Alex saiu. Comecei a jogar e fiquei até o Mundial.

Você não costuma fazer média com a torcida, coisa que a Fiel gosta. Acha que isso te impediu de ser um ídolo no Corinthians?
Cada um tem seu jeito de ser dentro de campo. Eu nunca fui jogador de fazer média com torcida, dar carrinho para animar torcedor, ir na imprensa e falar babaquice. Nunca fui assim. Nunca precisei disso e não é agora que vou precisar. Ídolo não é só aquele que fala, é mais dentro de campo, com títulos, e tenho títulos para isso.

Você se considera um ídolo no Grêmio? É identificado com o clube e a torcida?
O relacionamento que estou vivendo com a torcida do Grêmio agora é diferente de tudo o que vivi. Algo inexplicável. O pessoal me abraçou de tal forma que é impossível retribuir todo esse carinho.

Para você, qual a melhor parte de ser jogador de futebol? 
É o reconhecimento. Jogar em um estádio cheio, sair de um jogo e ver a torcida de pé, te aplaudindo, é a melhor parte. E incentivar a molecada mais nova. Se eu consigo, eles também conseguem.

Se não fosse jogador, o que seria?
Não sei. Como eu amo jogar bola, nunca parei para pensar no que faria se não fosse jogador.

Você está com 34 anos. Quanta lenha ainda tem para queimar? Onde quer encerrar a carreira?
Eu ainda não sei onde vou encerrar minha carreira, não pensei nisso. Pretendo jogar até quando meu corpo aguentar, mesmo. Ainda é cedo. Estou me cuidando para tal.

Se cuidando de que forma?
Parte de academia, trabalhos funcionais que são importantes para a vida de um jogador. Era algo que eu não fazia quando era mais jovem. Tenho aproveitado isso dentro do Grêmio, e está me ajudando bastante para aguentar a sequência de jogos complicados. E também em relação a outras coisas. 

Em relação aos hábitos boêmios?
Eu tomo minha cerveja e não escondo isso de ninguém, mas agora eu escolho o dia para beber com os amigos. Não dá mais para fazer o que eu fazia antes. A idade não permite, a recuperação não é mais a mesma, eu não conseguiria treinar e jogar. 

Confiante no título da Copa do Brasil? Caso não dê, o Grêmio ainda tem chances de conquistar a vaga na Libertadores pelo G6?
Estamos confiantes, sim. Quero muito dar um título para a torcida do Grêmio. Temos condições. Espero que não aconteça nenhuma tragédia. A prioridade é tirar o Grêmio dessa fila que já dura 15 anos. A gente vem se entregando para que isso enfim aconteça.  

Pela identificação com o Grêmio, você parece alimentar a rivalidade com o Inter. Até brincou sobre sair para beber de trator após a vitória no Gre-Nal 410, garantida com gol seu. Acredita que o rival escapará do rebaixamento?
Não sei mesmo (risos). É difícil de falar sobre o Campeonato Brasileiro, ainda têm seis jogos e eles tem adversários difíceis pela frente. 

MAIORES CONQUISTAS DE DOUGLAS: 

Início de carreira
Revelado nas categorias de base do Criciúma, Douglas começou cedo a rotina de conquistas. Levou uma edição da Série C, outra da B e um Catarinense.
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Pelo mundo inteiro
Douglas saiu do Criciúma para atuar na Turquia, no Rizespor, e depois voltou ao São Caetano e em seguida ao Corinthians.
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Auge no futebol
Tempos de glória para o camisa 10. Na primeira passagem ele ganhou Série B (2008), Paulista (2009), Copa do Brasil (2009). Em seguida defendeu Al Wasl, dos Emirados Árabes, e Grêmio antes de retornar para o Timão.
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Segunda chance
De volta ao Corinthians em 2012, esteve no elenco que venceu mais um Paulista (2013) além de Libertadores (2012), Mundial (2012) e Recopa Sul-americana (2013).
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No Grêmio
Campeão gaúcho de 2010. Até aqui, o único título pelo clube.
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Prêmios individuais
Melhor meia e craque do Catarinense de 2005, melhor da Série B em 2008 e 2014, artilheiro do Vasco em 2014, melhor meia do Carioca em 2014 e na seleção do Gaúcho em 2010, 2011, 2015 e 2016. Vem mais na Copa do Brasil?