Luiz Fernando Gomes, editor chefe do LANCE!
06/06/2016
14:38
São Paulo (SP)

O que faz um sujeito se despencar do Rio ou de São Paulo para Brasília, enfrentar mais de mil quilômetros de estrada e até 15 horas dentro de um ônibus para assistir a um jogo que na prática não vale quase nada. Não me venham dizer que é amor pelo Flamengo ou pelo Palmeiras, façam-me o favor. Isso não tem nada a ver com paixão pelo futebol.

O motivo ficou claro nos corredores do Mane Garrincha.

É óbvio que a briga entre a Mancha Verde e a Raça Rubro-Negra não aconteceu por acaso. Como quase sempre, tudo foi planejado, convocado através das redes sociais. Uma verdadeira agenda do crime. Só a polícia e a organização do jogo não sabiam disso. Mas a incompetência das autoridades de Brasília apenas agravou a situação, permitiu que os vândalos encontrassem campo livre, ainda dentro do estádio e durante o jogo, para desfiar toda a sua fúria e irracionalidade.

É incrível que, seja em Brasília, em São Paulo ou no Rio, episódios como esse continuem a surpreender à polícia. Repressão, evidente, e necessária. Mas cacetada e gás de pimenta não vão resolver essa parada. Antes, é preciso prevenir. O que falta, é um trabalho efetivo de inteligência, de investigação. Fazer o rastreamento da comunicação digital dessa gente, identificar de forma realmente eficaz esses bandidos, coisas simples assim, que já seriam um bom adianto para poupar vidas e restabelecer a ordem nos estádios e nas cidades em dias de jogos.

O torcedor do Flamengo ferido em estado grave não é vítima, que fique claro. É também agressor. Apenas, por azar, levou a pior. Mas não foi a primeira vez que se meteu em confusão, assim como certamente boa parte dos palmeirenses detidos já é figurinha carimbada no rol da bandidagem torcedora. Que essa gente continue a andar livremente pelas ruas e estradas e a entrar nos estádios é que definitivamente não pode ser mais admitido pela sociedade.

Fazer clássicos de torcida única, como em São Paulo, é ridículo. Suspender por algum tempo uma ou outra organizada, como é usual no Rio, igualmente não resolve nada. Estar no estádio, ver o jogo, é o que menos importa para esses bandidos. Brigar, espancar, matar se pode fazer em qualquer lugar. E quem faz isso não é uma “TORCIDA”, essa coisa vaga. São pessoas, com rosto e documento de identidade.

Enquanto a polícia, o Ministério Público e a Justiça não personalizarem as punições, levando os casos às últimas conseqüências – leia-se cadeia e não apenas essa brincadeirinha de proibir um ou outro de frequentar estádios – o futebol vai continuar a contar seus mortos e feridos. E os verdadeiros torcedores vão ficar na poltrona de casa, em segurança. Até quando sua paixão resista.