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Perda do pai, dispensa e faxina: as superações do novo titular santista

Dia 01/03/2016
01:14

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O Santos se preparava para encarar o Sport, há quase duas semanas, quando o lateral-direito Cicinho torceu o tornozelo esquerdo e precisou ser retirado do campo. O camisa 4 seria a novidade do técnico Marcelo Fernandes, que precisou repensar seus planos. Em vez de manter Victor Ferraz na direita e escalar Chiquinho na esquerda, o comandante resolveu ousar. Chamou Daniel Guedes, de 21 anos de idade, e lhe deu oportunidade de sair jogando nas últimas três partidas. Era o que o garoto precisava para se firmar.

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– Quando o Marcelo montou os times do treino, eu estava fazendo golzinho no outro campo. Aí o Cicinho caiu e me chamaram, achei que fosse para o time reserva. Mas aí ele falou "vai lá que é você" e eu fui. Para mim foi uma surpresa – disse, ao LANCE!.

A ousadia deu certo. Hoje, Daniel é o lateral do Santos que mais acertou cruzamentos e lançamentos no Campeonato Brasileiro – isso além da assistência na última rodada. Os números evidenciam que os quatro jogos que o garoto completa nesta quarta-feira, às 19h30, contra o Atlético-MG, no Independência, são apenas o início de uma trajetória positiva.

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Para o jovem nascido no interior de São Paulo, na cidade de João Ramalho, conquistar a condição de titular foi "só" mais um desafio enfrentado. Longe de ser o maior.

– É complicado ser titular quando tem jogadores como Cicinho e Victor Ferraz. Mas comparando aos problemas da vida é bem mais fácil – admitiu, entre risos tímidos.

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Daniel Guedes perdeu o pai ainda na infância e viu bem de perto o sofrimento da mãe para superar a morte do marido e abrir mão de etapas importantes da criação dos filhos mais novos na necessidade de sustentar a casa. Foi na faxina que ela conseguiu dinheiro para comprar as chuteiras do garoto que sonhava em jogar futebol. E que realizou o sonho aprovado no São Paulo.

O problema é que o Tricolor dispensou Daniel de Cotia aos 16 anos. Segundo a lembrança do garoto, falaram que ele "não estava no nível dos outros". De volta a João Ramalho, o jovem atleta foi observado por empresários e levado ao Santos já no sub-20. Uma chance que ele se esforçou para não desperdiçar. Pelo que mostrou até agora...

– Eu cheguei na época do Neymar, elenco forte, não tinha brecha para a base. Cheguei a procurar outras coisas, porque não achei que fosse jogar. Mas teve essa reviravolta aí, que eu batalhei bastante para conseguir. Entrei na pressão, mas faz parte.

E nasceu mais um Menino da Vila.

BATE-BOLA com DANIEL GUEDES
Lateral-direito do Santos, ao L!

Como foi sua entrada na equipe titular?
O Marcelo montou os dois times, a gente estava no outro campo fazendo golzinho e de repente eu vi o Cicinho caído. Aí ele me gritou no outro campo e eu achei que ele colocaria o Chiquinho na esquerda, voltaria o Victor Ferraz para a direita e pronto. Mas ele me falou: "vai lá que é você". Para mim foi uma surpresa ele me dar essa moral, essa confiança.

Ano passado foi a mesma coisa para você?
Não foi bem assim. Eu estava atuando pelo sub-20, aí ele (Marcelo) e o Enderson me chamaram e falaram que dependendo de como seria o jogo com o Botafogo, eu teria oportunidade. Mas também não imaginava que ia jogar os dois jogos.

É mais fácil ou mais difícil conseguir uma chance no olho do furacão?
Bem mais difícil, porque você entra em uma pressão um pouco complicada. É mais fácil você entrar quando o time está ganhando, não está precisando tanto de resultado. Mas a gente precisa conviver com isso, independente da situação do time. No futebol faz parte. O mais importante é aproveitar a oportunidade, me firmar, e ter uma sequência até o fim do ano.

E o torcedor está gostando das suas atuações...
Eu recebo muitos elogios, o pessoal fala bastante da facilidade de cruzar, acertar os companheiros dentro da área. Isso para mim não é tão complicado, mas também não acho que seja para os outros laterais. Você chegar no fundo, acertar um bom cruzamento e estar sempre participando pode me dar uma sequência boa de jogos. Estou otimista.

A gente pesquisando sobre a sua vida vê que nada veio de mão beijada. Você foi dispensado do São Paulo e encarou muitas dificuldades...
Eu jogava no São Paulo, mas o pessoal me dispensou, falou que eu não estava no nível, não apresentei o esperado. Voltei para casa, joguei um campeonato pela minha cidade e conheci pessoas do futebol que foram lá observar garotos. Aí conheci uma pessoa influente no Santos que me deu oportunidade e sou muito grato a essa pessoa que abriu as portas para mim. Joguei pelo João Ramalho FC, uma escolinha pequena, mas muito boa que tinha lá. Aí fizemos um bom time, chegamos longe, e eu acabei conhecendo essas pessoas. Para mim tem dado muito certo, e isso já tem quatro anos que saí do São Paulo, fui para casa, joguei campeonato e comecei a jogar pelo Santos, quase quatro anos.

Achava que conseguiria se profissionalizar pelo Santos?
Também não imaginava que isso podia ser realizado. Cheguei na época em que o Neymar estava aqui, o elenco era muito forte, tinha dois ou três jogadores em todas as posições, sem dar nenhum tipo de brecha para qualquer jogador da base. Eu só olhava e achava impossível jogar. Tinha pensamento de no término do contrato procurar outro lugar, porque aqui não ia dar. Acabou dando essa reviravolta e estou aqui.

Ter essa chance de uma sequência de jogos agora te faz lembrar de todas essas dificuldades?
Com certeza. Isso é natural de todo atleta que sofre com as dificuldades da vida. Tive uma infância que não posso reclamar dos meus pais, do que a minha mãe abriu mão. Mas é difícil perder um pai... Além de eu perder muito cedo, ele faleceu no Dia dos Pais, isso machucou bastante, porque eu vi a dor de todo mundo, mesmo sendo criança. Passar uma borracha nisso não foi fácil. Mas as consequências que isso trouxe foram difíceis, porque meu pai não deixou salário, aposentadoria. Minha mãe teve que abrir mão de cuidar dos meus irmãos pequenos para trabalhar. Graças a Deus conseguimos superar, passar, porque eu sempre tive a cabeça muito boa, passei pelas dificuldades e quando tenho oportunidade procuro agarrar para dar um futuro melhor para mim e minha família.

Virar titular do Santos é mais fácil que enfrentar tudo isso, não?
Muito mais fácil. Não quando se tem Cicinho e Victor Ferraz. Eu sou fã do Cicinho pela raça que ele tem, Victor também é excelente, mantém regularidade, não é fácil. Mas comparando aos problemas da vida é bem mais fácil.

Hoje você acha que a vaga já é sua?
Eu acho que ele (Marcelo) me deu oportunidade porque eu estava bem nos treinamentos. Mas se tivesse ido mal nos jogos ele já teria me tirado. Eu tenho atuado bem, com participação em gols, e mantendo sequência boa acho que é possível.

E por que você acha isso?
Batalhei bastante, me lesionei no início do ano, uma fratura por stress nas duas pernas. O Enderson disse que tentaria guardar vaga pra mim no Paulista, mas não foi possível e eu perdi um campeonato importante. Achei que seria muito mais difícil essa volta, não esperava que fosse agora, mas hoje me sinto muito mais confortável, parece que jogo há muito tempo. O futebol é dinâmico, a gente tem que estar preparado. Espero que as oportunidades apareçam.

O Geferson do Inter foi convocado para a Seleção com 15 jogos pelo profissional. Isso anima?
Isso serve de exemplo para todos os outros garotos. Se esse jogador já foi observado é porque outros também já foram, e se ele foi convocado outros podem ser. Isso é difícil, mas vamos procurar fazer nosso trabalho no dia a dia. Sendo convocado ou observado, o importante é ajudar o clube da melhor maneira.

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