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Flávio Murtosa: 'O segredo é que somos sinceros'

Dia 21/10/2015
14:09

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Há quem diga que Flávio Teixeira possui o melhor emprego do mundo. Auxiliar técnico de Luiz Felipe Scolari, está distante das cobranças e das críticas, normalmente direcionadas ao treinador. Pode ser, mas Murtosa também dificilmente leva o crédito pela vitória ou pelo acerto. Coisas da vida, de quem garante ser o segundo por opção.

Presença constante nas reuniões de planejamento feitas na sede da CBF neste começo de ano, ele tem mais influência no destino da Seleção do que muitos enxergam. Murtosa parece não ligar e afirma que muitas vezes consegue notar um jogador que passa despercebido por Felipão.

Em 2013, ele completa 30 anos como o fiel escudeiro do treinador. A parceria, por pouco, não aconteceu. Rivalidade, divididas mal resolvidas, desconfiança. Tudo isso esteve no caminho dos dois. Ao LANCE!Net, ele revela que não gostava do então técnico dos juniores do Juventude, em 1983. Mesmo assim, referendou a ida do ex-adversário para o Brasil de Pelotas. Foi onde tudo começou, três décadas atrás.

– O segredo de tanto tempo juntos é a pessoa ser honesta e sincera. Ambos, em qualquer momento, são autênticos. Se tiver de dizer uma coisa na hora, diz. O outro pode ficar sentido, não ficar com uma cara boa, mas está entendendo que é o posicionamento que deve ter. Não ficamos com meio termos. Jogamos às claras – resumiu.

LANCE!Net: De onde vem sua ligação com o futebol?

Flávio Murtosa: Meu avô teve nove filhos, sete homens e duas mulheres. Dos sete, cinco jogaram futebol profissionalmente. Eu sou a segunda geração esportiva da família. Eu fui um ponta-direita típico da época. Era veloz, batia bem na bola e cruzava.

L!Net: Você e Felipão são contemporâneos. Vocês se enfrentaram?

F.M: Joguei umas sete, oito partidas contra ele. Ele era o típico zagueiro da época no Sul. O zagueiro que não era xerifão, não tinha valor. A primeira dividida tinha que quase tirar o pescoço do atacante, porque o juiz não expulsava. Tudo o que era zagueiro, na primeira entrada, chegava e chegava bem (risos).

L!Net: Como e quando vocês começaram a trabalhar juntos?

F.M: Em 1983, eu era preparador físico do Brasil de Pelotas e estávamos sem técnico. Queriam que eu assumisse, mas recusei. Havia sido treinador um ano antes, mas recusei. Um dia, o capitão da equipe veio me perguntar: "Você daria uma chance ao Felipão?" Eu retruquei: "Que Felipão?". Ele me disse quem era e respondi: "Eu não gosto dele, jogamos um contra o outro e tivemos nossas diferenças. Agora, se acha que o cara dará certo, tudo bem".

L!Net: E como foi o começo do trabalho de vocês?

F.M: No primeiro dia dele, eu estava dentro de campo, trabalhando. Ele apareceu à beira do gramado. Eu me aproximei e perguntei no que poderia ajudá-lo. Ele olhou para mim e disse: "Você, faça a sua parte que eu faço a minha". Eu olhei e pensei: "Que isso, que chegada... Parece até que está jogando ainda". Passou uma semana e os jogadores perceberam que não conversávamos. Começou então o boato de que ele traria um novo preparador.

L!Net: Como vocês se acertaram?

F.M: Um dia, veio o diretor do Brasil e nos perguntou se tínhamos algum problema um com o outro. Nós negamos. Então, Felipão perguntou para mim: "Você não era técnico?" Respondi que sim. "E agora, quer ser técnico ou preparador", ele quis saber. Eu disse: "Se eu quisesse ser técnico, você não estava aqui. Como eu não quero ser técnico esse ano, quero ser preparador, indiquei você". Ele olhou para mim e disse: "Então, o que podemos fazer juntos para arrumar o time?"(risos).

L!Net: E qual é o segredo de tanto tempo de parceria?

F.M: O segredo é a pessoa ser honesta e sincera. Ambos são autênticos. Se tiver de dizer uma coisa na hora, diz. O outro pode ficar sentido, não ficar com uma cara boa, mas entende. Não ficamos com meio termos. Jogamos às claras, "não gostei disso, não gostei daquilo". Além disso, tem o bom ambiente. Nosso grande mérito é criar bons ambientes.

L!Net: Você foge um pouco da mera função de auxiliar. Participa de reuniões de planejamento...

F.M: Desde que começamos, tive essa participação aberta. Eu tenho liberdade de expressão, posso tomar qualquer atitude, falar o que quiser, e ele acata ou não. Eu entendo que tem de ter hierarquia. Ele me dá a liberdade de ser o "um" em vários momentos, até em momentos de dificuldade.

L!Net: É um caminho natural de todo auxiliar, depois de um tempo, buscar a carreira solo. Você nunca pensou nisso?

F.M: Tive várias chances de trabalhar sozinho. Mas nunca fui uma pessoa ambiciosa, de pensar o que eu poderia ter sozinho. Poderia ter uma parte financeira melhor. Na parte da vaidade, eu poderia aparecer mais. Porém, da mesma forma que poderia ter ido para cima, poderia ter ido para baixo, e acabado com a minha carreira.

L!Net: E depois da Copa, vocês pensam em se aposentar?

F.M: Na vida da gente, vai chegando o momento de parar. Nós temos de entender que, ao terminar a Copa, se tiver uma nova oportunidade, é para se pensar. Mas é para se pensar também que pode ser um momento de fazer uma nova tentativa em uma nova área, tentar um outro rumo. No momento, estou preocupado em dar o melhor, tentando sempre crescer.

L!Net: Como você está vendo essa nova parceria com o Parreira?

F.M: É interessante, já tinha acontecido um encontro entre ele e o Felipão um tempo atrás. O Parreira disse que gostaria de ficar em uma área de coordenação e disse que se tivesse uma oportunidade de o Felipe voltar à Seleção, que ele gostaria de trabalhar nessa nova função. Está sendo uma somatória muito positiva.

L!Net: Qual é o desafio maior: 2002 ou 2014? Ainda há um friozinho na barriga em um recomeço de trabalho como agora?

F.M: Todo Mundial tem seus desafios, desde o começo até o encerramento. Temos de entender que haverá o momento de dificuldade. Que venha depois o momento de superação. Não há uma ansiedade, o que está batendo é o desejo de que as coisas tomem o rumo certo, de que possamos tomar as atitudes certas.

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