Alexandre Barroso, ao L!: 'Importante é resgatar a autoestima do Villa Nova'

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Graduado em Educação Física pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e com passagens por Atlético-MG, Cruzeiro e clubes do exterior, Alexandre Barroso, técnico do Villa Nova, implanta conceitos diferentes sobre o futebol. Basta apenas uma conversa com o treinador para ter certeza que ele foge à regra e destoa do perfil 'boleiro'.
O trabalho que exerce no clube de Nova Lima transcende as quatro linhas. No Leão do Bonfim, ele executa a função de manager, conceito novo no esporte nacional. Além de trabalhar o jogo da equipe, Barroso capta recursos para a agremiação, busca reforços e redige contrato dos atletas. Grande parte destas tarefas ele realiza através de um software criado por ele mesmo.
Na semana anterior ao jogo de ida da semifinal do Campeonato Mineiro, diante do Cruzeiro, o comandante recebeu a equipe do LANCE!Net em sua casa para falar sobre a sua carreira, os planos no Villa Nova e muitos outros assuntos.
Confira, abaixo, a conversa de 50 minutos com o treinador do Villa Nova:
LANCE!Net: Você teve passagens por Cruzeiro e Atlético. O que leva disso para a sua carreira?
Como me formei em Educação Física na UFMG, comecei como preparador físico no júnior do Cruzeiro. Posteriormente, fiquei pouco tempo lá e já fui para o elenco profissional, onde trabalhei como auxiliar de preparação física. Eu acho que esse período, entre 1989 e 1997, foi legal, porque foi minha pós-graduação. Trabalhei com grandes nomes do esporte, como Carlos Alberto Silva, Jair Pereira. O maior de todos, na minha opinião, Ênio Andrade. Eu vi e convivi com Paulo Autuori, Nelsinho Baptista... É ali no campo que você aprende futebol. Estar com esses caras te ajuda a formar a opinião. Você vai sendo moldado em função das influências. Nesse período que fiquei no Cruzeiro, fui moldado.
No Atlético, encontrei uma nova realidade, uma escola diferente, maneira de encarar futebol. Embora sejam de Belo Horizonte, são maneiras completamente distintas, maneira de jogar, gestão, relacionamento com a torcida.
O que levo disso? É a minha base. Sou privilegiado, porque ter uma base em Atlético e Cruzeiro? São poucos que conseguem isso.
LANCE!Net: Na semana passada, você disse que gostaria de enfrentar o Cruzeiro na semifinal. Arrepende-se de ter dado aquela declaração?
Não me arrependo de absolutamente nada. Eu não posso ficar me moldando por aquilo que as pessoas entendem que eu falei. Eu tenho que falar aquilo que eu creio. Eu falei e vou repetir: eu prefiro jogar com o Cruzeiro, não é porque é um time pior. A maneira como o Cruzeiro joga, para o Villa Nova, equipe mais parecida com o Cruzeiro, é melhor. O histórico do Cruzeiro é o toque de bola, a posse de bola, a virtude da técnica. É um time que joga e deixa jogar.
O Atlético está jogando muito, por ser uma equipe mais consolidada e na mão do Cuca há dois anos é mais madura. Por parecer mais com o jogo do Villa Nova e por estar se formando, é melhor para mim.
Estamos vivendo um momento chato de politicamente correto. Eu penso que, se o Marcelo (Oliveira) está precisando disso para instigar o time dele, está tudo errado. Eu posso dar umas cinco, seis declarações polêmicas só para ajudar. Depois do jogo contra o Tupi, o Borges disse que queria jogar contra o Villa Nova. Então, ele pode escolher, mas eu não? Na semana anterior, o Atlético batalhou para não enfrentar o São Paulo e foi para lá para eliminá-lo. Nem por isso o Cuca foi xingado. Eu sei que tem a questão da rivalidade, mas não desrespeitei o Cruzeiro.
LANCE!Net: O Villa Nova chegou desacreditado para o Campeonato Mineiro. O que mudou em sua gestão?
Eu cheguei lá e os caras fizeram a seguinte proposta: 'Estamos te trazendo, mas não queremos cair'. Eu disse para o presidente (Jairo Gomes) que estávamos pensando muito pequeno. Falei que tínhamos que lutar para chegar à semifinal do Campeonato Mineiro e garantir a Série D. O que o presidente e a diretoria do Villa fizeram foi me entregar o clube. Toda a gestão do futebol foi colocada na minha mão. Defini a pré-temporada, quando e onde. A responsabilidade de trazer jogadores foi minha, eu escolhi, liguei, negociei, redigi os contratos, sentei com cada jogador e entreguei aquilo que necessitava.
Fizemos uma comissão técnica forte, com gente capacitada, tenho um preparador de goleiros que estava em Londres com a Seleção Brasileira Feminina de Futebol. O preparador físico trabalhou no Atlético, Cruzeiro, América, Arábia Saudita e Coréia do Sul. Eu que faço a relação para a FMF. Eu já falei que, para o segundo semestre, temos que mudar algumas coisas. O Villa já está percebendo que existe vida inteligente no futebol. O bacana é resgatar a autoestima do torcedor do Villa Nova. Essa autoestima, aliada ao fato de mudar os paradigmas da diretoria são situações importantes.
LANCE!Net: Quais seriam esses paradigmas?
O Villa tem uma ligação umbilical com a Prefeitura de Nova Lima. Existe uma Lei Municipal que ajuda o clube. O atual prefeito ajuda bastante. Às vezes, as relações permeiam para o lado político, o que não é bom. Como tenho que fazer modificações muito profundas na diretoria, esbarramos na questão política. O atual prefeito tem dado um apoio bacana para gente. O Villa tem alguns procedimentos de 40, 50 anos atrás. Fizemos um choque de gestão. Eu tenho um coordenador técnico e um diretor de futebol que, na teoria, eu deveria ficar submissos a eles. Mas, na prática, eles me ajudam. Eu ajudei o Villa a refazer o contrato com uma empresa de marketing. O meu legado no Villa é deixar a coisa estruturada, caminhando, quando eu sair. O sucesso é fazer um bom sucessor. O que fiz no Juventude foi normatizar os procedimentos de gestão. As pessoas que estão no Villa hoje estão querendo mudar.
LANCE!Net: Como é o software que você usa para contratar atletas?
Na verdade, não tem muito segredo, basta ter um bom banco de dados. Se você acessar a internet para ver alguns sites, você tem acesso a muita informação. Essa ferramenta está disponível para todo mundo. O que fiz foi montar um bom banco de dados com jogadores que estão debaixo dos panos. Buscar quem está em evidência é fácil. Mas descobrir aquele jogador que ninguém está vendo é o grande segredo.
Tenho alguns softwares que eu mesmo desenvolvi para acompanhar os jogadores, avaliar as performances. Então, eu abro o meu computador e começo a analisar quais os atletas que eu quero. Dá para saber a condição do atleta no momento, se ele está em atividade, voltando de lesão ou teve algum problema recente. São programas que me ajudam a errar pouco, não eximem o erro. Das 15 contratações que fizemos, numa avaliação tranquila, erramos apenas uma.
LANCE!Net: Como foi convencer os jogadores a acreditar no projeto do Villa Nova?
Quando ia conversar com eles, prometi duas coisas. Primeiro, a relação comigo vai ser olho no olho, sem sacanagens. Dois, prometo treinamento de qualidade. Eu não venho para cá, encostado no muro, rodando o apito. Se você não souber onde errou, não sabe o que fazer para consertar. Temos o controle de treinamento, com o registro de tudo o que fizemos no clube. Eu tenho todos os treinos de todos os dias.
Tenho o percentual de cada treinamento que dei. Tenho a relação de volume e da intensidade. Sei qual foi a semana mais árdua e a mais intensa. Com isso, consigo brincar com meu trabalho, sabendo o que farei a cada semana. Na pré-temporada, o volume é muito alto, demos uma caída proposital, para subir de novo nas finais. Nós deixamos cair um pouco de propósito para que possamos subir na semifinal. Eu faço o planejamento da semana, para não deixar uma coisa avacalhada. Eu sei tudo de cada jogador. Aqui, você começa a quebrar paradigmas. Acredito no trabalho, com sustância e qualidade.
LANCE!Net: Todos os seus softwares podem igualar uma decisão contra um clube maior?
Não tem como mensurar o quanto o Cruzeiro está na nossa frente. Sabemos que é um clube de maior tradição, maior força política, qualidade técnica. Temos uma folha de R$ 148 mil. É o salário de um jogador do Cruzeiro e Atlético, que talvez nem seja titular absoluto. Só vou empatar na tática e no motivacional. Não igualarei na técnica, na reposição. Se o Ronaldo não jogar, o Cuca tem o Luan, o Morais. Eu tenho 11 jogadores apenas... Meu diferencial é na tática e no motivacional. Treinador é tudo isso, mas tem que ser gestor de pessoas. Quando eu pego na alma, o atleta se motiva mais.
O Tchô, por exemplo, está jogando, porque eu peguei na alma dele. Ele tem 25 anos, é pai de família. É um jogador que tem o Samuel, com oito meses. Eu perguntei a ele: 'Você vai correr por quem?'. O Tchô é fascinado pelo filho dele.

Equipe do LANCE!Net conversa com Alexandre Barroso (Foto: Frederico Ribeiro)
LANCE!Net: Até que ponto você se sente importante para a reestruturação do Villa Nova?
Falar da gente é complicado. Eu sei que sou importante, não sou essencial. Eu fui um bom catalisador. Se eu tiver um mérito, talvez seja esse. O mais importante é resgatar a autoestima do Villa Nova. O que me anima é ver os caras na cidade animados com o time. Depois do jogo contra o América-MG, tinha um cara em prantos no Castor Cifuentes. Eu acho que esse é um dos grandes baratos do trabalho.
LANCE!Net: Pensa na Série D?
Eu estou trabalhando. Conversei com o presidente para saber sobre orçamento, se teremos que diminuir ou aumentar para o segundo semestre, e qual vai ser a extensão da minha autonomia para trabalhar. Não me importo de fazer o que faço, mas não é legal eu bolar contrato de treinador, perder tempo de treino para buscar recursos para o Villa Nova. Não é o meu papel tratar com o prefeito a questão do novo estádio. Converso com a secretaria de esportes de Nova Lima para tratar da construção do CT e do novo estádio.
Tenho a minha lista com atletas para o segundo semestre. Tem 110 jogadores. Eu sei quem vou liberar, contratar e manter no grupo. Tenho minha projeção de salário aqui e, dentro disso, vou fazer contatos com os jogadores.
LANCE!Net: Tem alguma proposta?
Eu tenho uma mensagem no meu e-mail, com uma proposta do ASA, de Arapiraca. É Série B, mas sei que eles não vão pagar o que quero para poder me deslocar para lá. Eu tenho alguma expectativa de rolar algo no Sul e no Sudeste. Por enquanto, estou fazendo o trabalho todo voltado para a Série D.
LANCE!Net: Qual o planejamento do Villa Nova para ter estádio e centro de treinamentos?
As obras do CT estão na terraplanagem. Estou me reunindo com a Letícia, secretária de esportes, e o Glauco Santiago, arquiteto, para discutir esta questão. Posto isso, vamos partir para o estádio. O prefeito quer um estádio para 25 mil pessoas. Se fizermos um estádio, CT e levarmos o Villa Nova para a Série B, isso será top de linha. Se tem o Villa na Segunda Divisão, com estádio municipal, o clube fica auto-suficiente. A torcida do Villa é grande. O América leva 400 pessoas, o Villa leva 5 mil. O clube tem tudo para ser auto-suficiente. O BMG quer que eu assuma tudo, ser tipo um manager. Eles vão querer que eu fique cinco, seis anos aqui. Para abraçar um projeto desse patamar, tem que ser bacana financeiramente e você tem que ter tesão.
Eu tenho ambição de chegar a um vôo alto. Tenho ambição. Não tenho relacionamento com empresário, não cobro dinheiro para colocar jogador na equipe. Não dou dinheiro para vocês da imprensa, porque eu sei de treinador que faz isso. Tem treinador com lobby dentro das grandes corporações de mídia. Tem treinador que só coloca jogadores do seu empresário. Se for para ser assim, fico aqui.
LANCE!Net: Qual seu sonho?
Tinha o sonho de trabalhar no interior pela curiosidade. Fui para a Arábia. Subi o Ipatinga da Série C para a Série D. Meu grande projeto é trabalhar na elite do futebol brasileiro. A grande fissura não é financeira, mas ser formador de opinião. Um cara que é meu amigo é o Paulo Autuori. Ele é inteligente, acima da média, formador de opinião. Eu quero poder influenciar, ajudar a sociedade. Treinador não sabe a força que tem para ajudar jogador a crescer. Acho que posso dar uma boa contribuição.
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