Contra o Grêmio, Sidão pode completar cinco jogos seguidos sem levar gol pela primeira vez no São Paulo

Sidão pode ficar cinco partidas seguidas sem levar gol pela primeira vez no São Paulo (Érico Leonan/saopaulofc.net)

William Correia e Yago Rudá
26/07/2018
08:00
São Paulo (SP)

Sidão já está há 416 minutos sem levar gol e, se não for vazado contra o Grêmio, na partida das 19h30 desta quinta-feira, em Porto Alegre, atingirá sua maior sequência neste quesito no São Paulo. Ainda assim, convive com críticas. Algo que lida com tranquilidade, acreditando que o problema de quem o contesta é mais por gosto do que por seu desempenho.

- Quem gosta, gosta. Quem não gosta, não há nada que eu possa fazer para mudar. Os números estão aí - disse Sidão, em entrevista exclusiva ao LANCE! na qual se mostrou completamente seguro para voltar ao time depois de cumprir suspensão e ver Jean substituí-lo e levar gol na vitória por 3 a 1 sobre o Corinthians, no sábado, no Morumbi.

O jogador de 35 anos conversou com o LANCE! por 15 minutos, antes de viajar com a delegação para o Rio Grande do Sul, nessa quarta-feira. E mostrou-se à vontade para falar de qualquer assunto. Inclusive ao falar da possibilidade de repetir Rogério Ceni e levantar a taça de campeão brasileiro como goleiro e capitão do Tricolor.

Confira a entrevista exclusiva de Sidão:

Você está há 416 minutos sem levar gol. São quatro jogos, igualando sua maior sequência no São Paulo, e, se não levar gol contra o Grêmio, terá sua maior sequência em números de jogos e em minutos - sua maior sequência em minutos é de 495, entre as derrotas para Corinthians e Santos, no início do ano. Como você explica esses números?
Este ano está sendo bom para nós, do setor defensivo, e esse números comprovam isso. É um mérito coletivo de toda a nossa linha defensiva, a partir dos nossos volantes, e até mesmo os nossos atacantes têm ajudados bastante na marcação. A bola tem vindo pouco ao gol, exceção ao jogo do Flamengo, que veio bastante. O nosso time está bem coeso, bem firme na questão defensiva. Isso nos ajuda a ficar muitos jogos sem sofrer gol.

Mas você ainda é muito criticado. Por que acha que te criticam mesmo estando há quase sete horas sem levar gol?
(Risos) Não sei, acho que é gosto. Tem um ditado que diz que gosto não se discute. Quem gosta, gosta. Quem não gosta, não há nada que eu possa fazer para mudar. Os números estão aí. Isso me ajuda, e ajuda a comissão técnica a manter a posição. Comprova que tenho condições de ser o titular, confirma tudo isso. Os números estão ao meu favor.

Você acompanha esses números?
Não. Eu sabia que estávamos há quatro jogos sem sofrer gols, mas números assim, de minutos, não procuro saber, não. A preocupação é sempre passar jogo a jogo sem sofrer gol.

Na última vez em que você sofreu gol, na derrota por 3 a 1 para o Palmeiras, em 2 de junho, você foi muito contestado pela torcida, que o criticou principalmente por não sair do gol. Mudou algo desde então?
Sempre revemos os gols, junto com o Marquinhos e o Octávio (Marco Antônio Trocourt e Octávio Ohl, preparadores de goleiro do clube), para vermos o que fizemos de errado e certo nos jogos. E sempre há coisa a corrigir. Mesmo nesses jogos sem sofrer gol, temos corrigido muitas coisas que poderiam ter virado gol, mas não virou. A partir daquele jogo, corrigimos algumas coisas e já ficamos quatro jogos sem sofrer gol. Mas esses números acabam só criando um tabu para ser quebrado. Não posso dar muita importância para isso. É pensar jogo a jogo e, a cada jogo, tentar não sofrer gol.

Estar com o sistema defensivo arrumado não acaba te prejudicando de alguma forma? Você aparece menos...
Essa que é a questão. Em time grande, vem uma ou duas bolas e você precisa pegá-las para fazer a diferença. Não vem bola toda hora como em clubes menores, onde o goleiro se destaca porque vem muita bola. Em clube grande, como o São Paulo, com o sistema defensivo funcionando, a bola vem pouco, mas, quando vem, são decisivas e você precisa garantir para que o placar fique em branco.

Qual desses jogos sem sofrer gol você destaca?
Fizemos um bom jogo contra o Atlético-PR, quando quebramos um tabu importante (o São Paulo nunca tinha vencido na Arena da Baixada), e esse último jogo, contra o Flamengo, foi importante para sairmos com o resultado positivo.

O jogo desta quinta-feira é contra o Grêmio, que tem um ataque forte. Há alguma preparação especial para enfrentar equipes com este perfil?
Especial, não. Mas tentamos fazer uma preparação melhor por conta do que o adversário vai oferecer. O Marquinhos e o Octávio têm alguns vídeos de como os caras gostam de jogar, das características individuais deles, e isso nos ajuda a prevenir algumas coisas para o jogo.

Tem algum jogador do Grêmio que exige algum cuidado especial?
O time do Grêmio é muito bom. Tem muita peça individual de alto nível. É um time bem entrosado. Precisamos tomar cuidado com todos eles porque todos têm algo especial que pode nos prejudicar. Precisamos ter um cuidado especial com todos eles.

E você é o capitão do São Paulo. Para os uruguaios, essa função costuma ter uma importância até maior. O Aguirre conversou com você? Como foi essa escolha?
Pior que não teve conversa. Eu estava lesionado, voltei contra o São Caetano (20 de março, volta das quartas de final do Paulista, segundo jogo de Aguirre no clube), e já com a faixa de capitão. Mas costumo dizer que temos muitos capitães nesse time: Diego Souza, Nenê, Hudson, Anderson Martins. Nosso time tem muitos líderes bons, e é por isso que estamos com essa campanha boa. A faixa só muda de braço de um para o outro.

Mas quem costuma falar antes de entrar nos jogos é você. É uma postura de capitão.
Geralmente, sou eu que falo, mas Nenê e Hudson também falam antes jogos. Nosso time está bem de liderança. Quando as lideranças são positivas, o time caminha bem.

Jogando duas vezes por semana, não é fácil fazer um discurso diferente em cada jogo. Como funciona isso? Você lê antes e se prepara ou sai na hora?
Tem que procurar o diferente mesmo. É difícil ficar tocando em motivação. Com o cara vestindo essa camisa, e os jogos que temos feito, você não precisa ficar forçando motivação. Estamos todos motivados. Falo mais da questão do cuidado, de manter os pés no chão e enxergar algumas coisas que podem nos prejudicar para passar para a galera. Preciso estar bem atento ao grupo e ao que está acontecendo no nosso ambiente e, nas concentrações, procurar alguma palavra que pode impactar os caras antes do jogo.

Você tem algum livro ou um escritor específico para se inspirar?
Não. Procuro ler muita coisa. Um livro que leio muito é a Bíblia, mas há muitas outras frases de grandes homens que dá para impactar.

O que o São Paulo tem de diferente para fazer essa campanha no Brasileiro?
O grupo que temos hoje. As pessoas, hoje, se dão muito bem. É lógico que a vitória torna qualquer ambiente saudável e tranquilo, mas o ambiente precisa ser preparado para as vitórias. Foi isso que aconteceu. Nós nos juntamos muito, de verdade. Entre nós, não tem mentira. Quando precisamos falar algo, falamos. Isso tem feito nosso grupo forte para estar onde está. Formamos uma família. O professor Aguirre conseguiu juntar mesmo a rapaziada em um único propósito. Nas conversas extracampo, sempre estamos falando em vencer os jogos e ganhar título. Isso mostra que todos estão com o mesmo pensamento. É isso que temos levado para campo para ter bons resultados.

Antes de sair, o Petros comentou que, quando chegou ao São Paulo, ninguém se falava, mas que o clima é bem diferente hoje.
Quando se tem muitas derrotas, o ambiente fica mais pesado, fica mais difícil lidar com as pessoas. Uns enfrentam a derrota com mau humor, outros de outras maneiras. Você precisa aprender a lidar com o humor das pessoas em um ambiente de derrota. Mas isso mudou bastante. Precisamos preparar um ambiente de vitórias para que elas viessem.

E você se sente um dos trunfos para o São Paulo lutar pelo título brasileiro?
Acho que sim. No ano passado, em um período bem difícil, que foi quando as coisas aconteceram para eu virar capitão. Foi por conta do que fizemos no ano passado, com um trabalho interno, sem ninguém ver, sem fazer barulho nem alarde, mas cuidando de um a um para o grupo ser forte e se juntasse como está agora. Estamos só colhendo os frutos do que colhemos no ano passado.

Falando sobre isso, a diretoria sempre enalteceu seu ambiente com o elenco. O que você faz exatamente para ter isso?
Eu me preocupo muito, principalmente, com os caras que não estão jogando. É isso que faz a diferença. Os 11 que estão jogando estão bem e contentes. Precisamos tomar cuidado com quem está fora, mostrar que são importantes e fazem parte do grupo. Por conta disso, acabei me tornando um cara agradável para o grupo. Por cuidar, principalmente da molecada. Os moleques sobem cheios de sonhos e esperanças e acabam ficando fora de três, quatro jogos seguidos e já querem abaixar a cabeça. Encosto nesses caras, tentando dar ânimo para eles, para o treino ter qualidade, e nossos jogos terem qualidade também.

O Lugano sempre fala que quem faz o ambiente são os jogadores que não estão atuando com frequência...
Esse foi um cara que me fez crescer muito, profissionalmente e como pessoa, por ter convivido com ele aqui no ano passado. É um cara que eu admirava já como jogador e, após ter conhecido como pessoa, admiro muito mais. É bom ter o Lugano aqui com a gente, assim como Raí e Ricardo Rocha, que são lideranças natas. São pessoas que têm feito com que o São Paulo cresça.

Falando dessa seu preocupação com quem não joga, teve aquele desentendimento com o Jean, em março, por publicações em redes sociais. É um episódio já superado?
Foi só um mal-entendido, uma má interpretação de algumas pessoas que passaram para ele uma informação errada. Ele acabou acreditando, mas conversei com ele, e ele entendeu. São águas passadas. Estamos bem demais agora. Estamos todos bem: ele, Lucas Perri, os meninos que sobem da base, como o Paes. Estamos todos no mesmo ambiente, na mesma batida. O Jean já jogou, deixou o São Paulo com mais uma vitória (contra o Corinthians, no sábado, substituindo Sidão, suspenso). Estamos todos no mesmo barco.

Você já consegue se imaginar como capitão levantando a taça do Campeonato Brasileiro?
Ainda não. Tem muita coisa para acontecer, muita coisa mesmo. Estamos chegando à metade do campeonato ainda. Precisamos manter os pés no chão para, lá no final, quem sabe, a gente ter algum êxito.

Não passa mesmo na cabeça essa imagem?
Desde o momento em que assinei o contrato e vesti essa camisa, o que passa na minha cabeça é levantar uma taça. Não é de agora. Hoje, as coisas estão caminhando bem para isso. Mas é manter os pés no chão, porque tem muita coisa para acontecer ainda.

Os últimos títulos do São Paulo tinham um goleiro como capitão, Rogério Ceni...
Na verdade, no último (Copa Sul-Americana de 2012), o Rogério passou a faixa para o Lucas, e o Lucas que acabou erguendo a taça. Mas o Rogério teve até tendinite no ombro de tanto levantar taça (risos).