Leco - São Paulo
Marcio Porto
27/12/2015
07:00
São Paulo (SP)

Carlos Augusto de Barros e Silva, o Leco, chega ao encontro com o LANCE! 30 minutos depois do horário combinado. A conversa é iniciada enquanto o dirigente assina uma montanha de papéis entregues pela secretária na sala da presidência do Morumbi. Justifica-se: o atraso e a pilha de afazeres são frutos de quem acaba de assumir um clube arruinado e tem a responsabilidade de recolocá-lo nos trilhos. O papo, porém, compensa a espera. Durante mais de uma hora, o dirigente exibiu uma serenidade surpreendente para quem tem fama de lidar mal com as emoções.

Mas assim, sem alarde, a gestão do advogado de 77 anos, que neste domingo completa dois meses como presidente, fechou a contratação do técnico argentino Edgardo Bauza, bicampeão da Libertadores. E é assim que pretende trabalhar para devolver a credibilidade ao São Paulo, após as denúncias que pairam sobre a gestão de Carlos Miguel Aidar, de quem Leco vem sofrendo fortes críticas. A resposta, então, soou definitiva.

– Melhor ele não perder tempo querendo me atingir, porque não vai conseguir nunca. Melhor ele se preocupar com as coisas que fez aqui e estão sendo apuradas.

Leco tem mandato-tampão até abril de 2017, com a renúncia de Aidar, e será candidato para ficar até 2020. O tempo dirá se terá sucesso. Não custa lembrar que o ex-presidente, assim que assumiu, não gostava de deixar a imprensa esperando, ele mesmo dava a notícia.

O que mudou desde que você sentou na cadeira de presidente?
Fiquei muito feliz, honrado, mas atribulado, porque é uma missão grandiosa cuidar de uma instituição desse porte, que exige muita dedicação, empenho e isso é uma coisa que tenho tentado dar, associado ao que colecionei de experiência e o amor que nutro pelo São Paulo. Agora só vou ao escritório de manhã. Salvo os dias que tenho compromisso aqui, não venho pela manhã, venho à tarde.


O que já conseguiu fazer?
(Respira fundo) Devolvi ao São Paulo a tranquilidade, a naturalidade, especialmente no relacionamento entre os dirigentes e entre os funcionários. Passou a ter um trato mais suave, mais natural, e com isso a alegria voltou ao São Paulo. Era como se o São Paulo tivesse sido tomado por uma nuvem, que aos poucos foi dissipada e hoje vivemos um ambiente de responsabilidade, harmonioso, onde há no relacionamento de forma muito clara, confiança.

Como fez isso?
A gente percebe claramente a energia com funcionários, sócios, o clube está mais feliz. O São Paulo afastou a nuvem negra e está coberto por uma energia positiva. E essa energia positiva já trouxe algumas coisas. Trouxe a classificação heroica para a Libertadores. Porque depois de passar por aquele momento traumático da derrota para o Corinthians, conseguimos a classificação de uma forma muito especial. A base, em um mês e meio que estou aqui, conquistou três títulos. A Copa do Brasil Sub-20, a Copa Ipiranga e o Paulista Sub-17. É uma outra energia, outro ambiente.

Há alguns integrantes da diretoria do ex-presidente Juvenal Juvêncio (morto no útimo dia 9 de dezembro) em sua gestão. O assessor dele (José Franscisco Manssur) é seu vice de comunicação e marketing. Não perdeu a chance de formar uma administração própria?
Não, não tenho vínculo nenhum com o Juvenal. Eu não posso ignorar toda uma trajetória vitoriosa que ele teve aqui, e com ele pessoas importantes trabalharam. E não é porque trabalharam com ele que não podem trabalhar comigo. Eu tenho inclusive duas ou três pessoas que trabalharam na última gestão. Procurei escolher gente importante, que se envolve, que tem interesse e ama o São Paulo, que tem por que dirigir o São Paulo. Coloquei pessoas de grande oposição nos últimos anos e têm servido de forma valiosa.

Quem?
Meu diretor de manutenção, Coronel Tércio Bispo Molica, e meu assessor da presidência, agora só tem um, o Rodrigo Gaspar.

A demissão de Doriva ajudou o time a chegar à Libertadores?
Não quero debitar na conta do Doriva o fato de não ter sido ele, não é por ele. Mas sentimos, a partir do momento em que tínhamos mais de dez dias de prazo, que a presença do Milton Cruz poderia ser mais animadora, útil, envolvedora com os atletas. Evitamos que a coisa ficasse assim num processo de mesmice, quisemos mexer com a estrutura do futebol. Conseguimos o resultado contra o Atlético-MG, passamos pela tragédia do 6 a 1 (para o rival Corinthians) e assim fomos buscar forças para conseguir milagrosamente aquela classificação.


Já digeriu o 6 a 1?
Já, tranquilamente. Ao longo da vida, aprendi que também se perde. E ter grandeza na vitória é fácil, tem de ter na derrota. Extrair dela todas as experiências e acho que isso já extraímos. Principalmente da atitude de levar nossos jogadores à consciência de que aquilo não era motivo para relaxarmos, baixarmos a glória, mas continua a luta pelo resultado e conseguimos.

Como defesa, o Aidar colocou o 6 a 1 na sua conta...
Claro que não está na minha conta, nem posso assumir um resultado depois de estar 15 dias como presidente. O São Paulo tem toda uma história e o que acontece hoje claro que está influenciado por um comportamento, um clima de uma direção. Mas tem uma coisa que é histórico e não podemos ignorar. É uma sucessão de erros, coisas negativas, e acabou desaguando naquele triste acontecimento. Não credito especialmente na minha conta qualquer grande virtude e nem tenho um débito como grande problema.

Colocar os títulos da base na sua conta então não são um exagero?
Não estou colocando na minha conta, só estou dizendo que está em momento mais favorável, uma alegria maior. E essa alegria se mostra nas atitudes, nas pessoas, traz resultado.

A gestão passada atrapalha?
Estamos assim agindo para que tudo o que aconteceu no São Paulo nos últimos tempos seja devidamente analisado e identificado. O primeiro passo é identificar, depois vemos as consequências que vai causar. Para isso existe uma consultoria de muita credibilidade, estamos tentando a transparência que o clube precisa.

"Uma coisa digo, melhor ele (Aidar) não perder tempo querendo me atingir, porque não vai nunca. Melhor ele se preocupar com as coisas que fez aqui e estão sendo apuradas"

Já trouxe algum resultado?
Tenho diversas constatações que fiz, independentemente da diretoria, sobre o quê não gostaria de falar.

Fala sobre contratos, comissões?
Exatamente, tudo isso está sendo levantado. Coisas que infelizmente não fizeram bem ao São Paulo.

Mas seria importante o torcedor saber sobre isso.
Não é o momento, tudo está sendo objeto de apuração. Sobre a figura do ex-presidente (Aidar) que você citou, quero deixar claro que não há em mim uma coisa só que me identifique com ele. Portanto, qualquer consideração que ele fizer sobre mim e ele vem fazendo, só me qualifica. Não tenho nenhum tipo de identificação com ele e nem quero ter.

Ele disse que o São Paulo não está em boas mãos com você.
Verdadeiramente, não reconheço nele a menor condição, seja ela qual for e também moral, para fazer qualquer tipo de avaliação. Mas isso só serve para estender uma coisa política que não é benéfica para o clube. Não é momento, parece que estamos à beira de novo processo eleitoral. Se ele está tentando me desqualificar é besteira, porque não dou a mínima.

O Rogério disse que ele precisa de ajuda. Concorda com ele?
Não sei, não quero perder tempo falando nisso. Uma coisa digo, melhor ele não perder tempo querendo me atingir, porque não vai nunca. Melhor ele se preocupar com as coisas que fez aqui e estão sendo apuradas.

Como está a crise financeira?
Essa grave crise que ele fez questão de alardear desde o início, não esconde uma intenção subalterna de querer atribuir a isso algumas coisas que não ficaram bem conduzidas e esclarecidas. O São Paulo tem, sim, uma grave crise financeira, tem, sim, uma situação que não é diferente dos outros clubes e vai ser resolvida. Tenho atitude e está baseada não só na minha percepção, mas daquilo que ouço da minha diretoria financeira, só não fazer nada errado, nada ilícito que vamos devolver ao São Paulo a tranquilidade de sempre.

HOME - Leco é eleito presidente do São Paulo (Foto: Ari Ferreira/LANCE!Press)
 Leco, ao ser eleito presidente do São Paulo no dia 27 de outubro (Foto: Ari Ferreira/LANCE!Press)


A dívida informada de R$ 280 milhões cresceu ou diminuiu?
Não, ela diminuiu, porque ela não era desse valor. Fizemos uma adesão à Lei do Profut, enfrentando situações fiscais gravíssimas que a outra gestão não pagou. Adesão é nossa, agora. E vai pagar isso com tranquilidade com os recursos que vem da Timemania. Vai pagar com tranquilidade. A questão bancária, de fornecedores, temos compromissos mas não são nada alarmantes que não poderão ser resolvidos. Fique tranquilo o são-paulino que sairemos disso.

A investigação da gravação que Ataíde Gil Guerreiro fez de conversa com Aidar ficará para 2016?
Nem tem como fazer isso agora.

Resolve em 2016?
Espero que sim porque a comissão de ética teve contratempos e nesse período se desenvolveram e se agravaram insinuações, acusações a respeito da fita e do Ataíde. E entendemos por bem que ela fosse levada a conhecimento porque a imagem do Ataíde estava sendo injustamente acusada. Como se não fosse verdade, colocar tudo em pizza, jogar para baixo do tapete e o torcedor meio que inconscientemente acaba lançando manifestações, agressões, que precisam ter resposta, enfrentamento. E dar o conhecimento da fita foi uma forma disso acontecer. Agora o conselho tem a oportunidade e obrigação de levar a cabo essa missão.

O presidente do Conselho de Ética (José Roberto Blum) criticou o vazamento, disse que vai contra o estatuto do clube. Não acha que Ataíde pode ser prejudicado?
Não vejo como. Como conselheiro, não vi nenhum tipo de transgressão na revelação da fita. A outorga do direito de conhecê-la foi dado e pronto.

O Ataíde ficou desgastado neste processo. Ele pode sair?
Claro (que ficou desgastado), o desgaste era crescente, tinha muita conotação injusta e ele precisa ser respeitado, porque senão isso transborda os limites da pessoa dele e acaba manchando a instituição. Não queremos isso.

"O Osorio tem assim coisas mais inovadoras do que o Bauza, mas com as características inovadoras dele, perdemos de três e de quatro do Palmeiras, né? Sem fazer gol"


Falando de futebol... Como espera o time do Bauza?
Uma equipe dinâmica, com intensidade, que tem formação defensiva, que não seja retranqueira, mas forte, como é a do Corinthians. E com bons jogadores de meio e ataque certamente acabarão fazendo gols. O que não pode ter é uma defesa fraca que tome três, quatro gols. A visão que tenho dele é que nem perde nem ganha de muito.

Ele é o oposto do Osorio, né?
Não sei. O Osorio tem assim coisas mais inovadoras, mas com as características inovadoras dele, perdemos de três e de quatro do Palmeiras, né? Sem fazer gol.

É uma crítica ao Osorio?
Não, de forma alguma, porque ele, mesmo sem os resultados, manteve o carinho da torcida, a imprensa, todo mundo absorveu isso e acabou entendendo.

A sua história como presidente acaba em 2017?
Pode acabar, mas uma coisa é certa: se não acabar em 2017, acaba em 2020. Se eu for eleito em 2017, paro em 2020.

O Rogério Ceni segue participando do clube?
Agora não, está no processo meio enganoso de viver festas e férias. Quando voltar em janeiro, e ele volta, bate a angústia, porque vai bater. Mas ele vai cuidar das coisas dele, da família, dos investimentos. E acho que começar um processo de aprimoramento para ser técnico, que ele tem toda qualidade para isso.

Técnico do São Paulo?
Muito possível, né? Mas mais para frente.

Pode tê-lo como técnico?
É muito possível. Acredito.

Gostaria de tê-lo como técnico?
Eu gostaria de ter até 2020 o Edgardo Bauza, ganhando Libertadores, Campeonato Brasileiro, no patamar do São Paulo.

Mas aí não teria o Ceni.
Aí, não, o Rogério espera um pouco mais (risos).

Quantas vezes já ouviu na rua: “Contrata o Lugano”?
Umas 500 mil (risos).

E o que diz?
Estamos analisando.

Quando ele se apresenta?
Se for, vou confiar isso a meu vice-presidente de comunicação e marketing (José Francisco Cimino Manssur) e ao diretor (Vinicius Pinotti), porque pela festa que fez terá a melhor competência para fazer uma nova.

Já curtiu o sonho de ser presidente?
Muito, curto a cada momento. Assinar papel faz parte. É impossível dirigir uma instituição desse tamanho sem a responsabilidade que traz. Mas traz muita coisa boa.

Como tem sido a reação das pessoas nas ruas?
Tenho recebido inúmeras manifestações de apoio, certamente. Claro que isso passa pela boa performance da equipe de futebol, mas a lisura, a transparência na gestão, isso também acaba sendo incorporado. Esse pessoal que está no São Paulo está interessado no São Paulo. Ninguém mais que eles estão interessados.

Defina a sua gestão.
Estou muito feliz e muito honrado, tenho confiança na minha gestão porque é de transparência, seriedade, relação confiável em todos os níveis. A constituição da minha diretoria é algo de que me envaideço muito.