Jonas Moura
10/11/2018
08:00
Enviado Especial a Maringá (PR)

Dono de quatro medalhas olímpicas na natação e formado em Economia pela Universidade de Michigan, Gustavo Borges pede um voto de confiança ao governo de Jair Bolsonaro no setor esportivo, tema pouco abordado pelo futuro presidente da República e sua equipe até agora.

O paulista, padrinho dos Jogos Universitários Brasileiros (JUBs), em Maringá (PR), que terminam neste sábado, defende mudanças na aplicação de verbas e diz não temer maior dificuldade de eficiência e transparência com a provável fusão dos ministérios do Esporte e da Cultura com o da Educação. A medida transformará os dois primeiros em secretarias.

AO LANCE!, o ex-atleta de 45 anos falou sobre suas perspectivas para o espore brasileiro nos próximos anos, reconheceu a importância das estatais na área e cobrou uma política mais clara do governo para o segmento.

O esporte vive um momento de indefinições no Brasil. A fusão do Ministério do Esporte com os da Educação e Cultura está nos planos do presidente eleito Jair Bolsonaro. Qual a sua opinião sobre a iniciativa?
Parece que é uma ideia que será levada adiante. É lógico que muita coisa precisará ser feita de forma diferente em relação aos últimos anos, mas essas mudanças são perfeitamente possíveis com ou sem ministério. Você pode fazer um ótimo trabalho ou um trabalho ruim, em ambos os cenários. Não acredito que a existência ou não da pasta seja o ponto que vai levar o esporte a avançar ou a retroceder. O que fará a diferença é uma política para o esporte. Sabemos dos benefícios que ele traz para as pessoas, e há diversos exemplos de países sem ministérios que fazem ótimos trabalhos nesta área. Enquanto não há um plano e não se sabe bem o que vai ser, fica a especulação. Se (a fusão) é um direcionamento do novo governo, antes de criticar devemos ouvir os planos.

O problema é que o novo governo praticamente não menciona o esporte...
Muita coisa precisa ser feita de maneira diferente, pela própria questão de como vivemos em termos de gastos no Brasil. Mas o esporte já sofreu com isso nos últimos anos, então não será nenhuma novidade. É uma realidade desde o fim dos Jogos Olímpicos do Rio. Há a intenção de eliminar custos com pessoas e infraestrutura. Se isso melhorar a eficiência do esporte, pode ser uma boa decisão. Se piorar, pode afetar o esporte e deverá ser reavaliado.

"O discurso do presidente eleito foi muito voltado ao combate à corrupção, então me causaria surpresa se ele fizesse algo para deixar algo menos transparente"

Os críticos da fusão dos ministérios temem que poderia ser difícil dialogar por recursos e fiscalizar as despesas se o esporte for apenas uma secretaria dentro de uma pasta com diversas outras prioridades. Isso te preocupa?
Não tenho uma visão tão ampla assim. Não sei se haverá menos ou mais transparência sem ministério. Ela se constrói dentro das instituições, como federações e clubes, independentemente de ter três ou quatro áreas dentro de uma. Para isso, existem iniciativas não só do governo, mas da sociedade, como Pacto Pelo Esporte, Rating, Atletas pelo Brasil, Instituto Ethos e uma série de ferramentas que deixam mais claro como você deve gerir uma instituição. O discurso do presidente eleito foi muito voltado ao combate à corrupção, então me causaria surpresa se ele fizesse algo para deixar algo menos transparente.

O novo governo já deu sinais de que estimulará o alto rendimento, mas o processo para que o atleta brasileiro chegue até lá tem sido cada vez mais difícil. Ao mesmo tempo, o esporte não é encarado como prioridade. Quais são as suas perspectivas para o futuro do esporte no país?
Prioridade é uma. Quando colocamos um "s", começa a confusão entre todos os segmentos. Temos um problema fiscal no país que influencia em todas essas áreas. É lógico que a prática esportiva é fundamental para a saúde do país, e não estou falando apenas em alto rendimento. Ganhar medalha na Olimpíada não garante um país com uma cultura esportiva ou menos sedentária. No Brasil, só 4% da população pratica atividades em academias. Nos Estados Unidos, chega a 20% e, dependendo do estado, a um terço. Não é que as pessoas precisem ir para academias. Mas podem praticar esportes em parques. No Rio de Janeiro, vemos muita gente andando em Copacabana, o que é legal, mas isso é muito pouco para a população.

Em Maringá, você incentiva uma iniciativa como a do JUBs. O esporte, hoje, depende e verba pública. Como conciliar essa questão no cenário atual de cortes de gastos?
A educação por meio do esporte é fundamental, e o JUBs mostra isso. Tivemos discussões nos últimos anos sobre a obrigatoriedade ou não Educação Física nas escolas, a infraestrutura nas escolas municipais e estaduais, que são deficientes, e até da contratação de professores. As escolas não levam essa disciplina a sério. O envolvimento da família nessa construção também é importante. O financiamento do alto rendimento faz parte do contexto, e há várias estatais que fazem este trabalho. Isso é importante e deve ser mantido. Ao mesmo tempo, a iniciativa privada precisa aumentar. E voltando à transparência, quanto mais ela existir, mais empresas se interessarão pelo produto.

"O financiamento do alto rendimento faz parte do contexto, e há várias estatais que fazem este trabalho. Isso é importante e deve ser mantido. Ao mesmo tempo, a iniciativa privada precisa aumentar. E voltando à transparência, quanto mais ela existir, mais empresas se interessarão"

O Mundial de piscina curta, em dezembro, na China, deverá marcar a despedida do Cesar Cielo das competições, depois de ele ter prolongado a carreira em busca do último título. O que achou da decisão e o que espera dele?
A decisão de um atleta do nível do Cesar tem de ser respeitada, seja ela qual for. Ele chegou ao final da carreira, o que pode acontecer agora no final deste ano ou em 2020, até porque na prova dele já vimos Garry Hall ganhando medalha olímpica com 31 anos, Anthony Ervin com 35... é difícil. Se for no Mundial, que ele faça bem feito. Se não tiver com medalha, ele precisa aceitar como resultado importante para a carreira. Não é um resultado que vai afetar a carreira. É uma questão pessoal dele. Vai ser uma competição dura para ele, sobretudo os americanos, que já fizeram a seletiva. O Caeleb Dressel é o maior atleta da atualidade. Ninguém é mais do que ele hoje, em perspectiva para Tóquio. Mas o Cesar sabe disso. Ele não está preocupado só com isso, mas em fazer uma boa competição. Sabemos que ter ficado fora da última Olimpíada foi um baque, e ele merece um encerramento digno.

E do Brasil? Quais as suas expectativas e como vê esse evento na preparação olímpica?
O revezamento 4x100m anima. Temos a volta do Matheus Santana. E diversos jovens em destaque na temporada. O Mundial de curta não conta com todos os melhores atletas do mundo, embora tenha um bom nível. Ele não tem essa presença, como terá o Mundial do ano que vem. É uma etapa de treinamento, para que possamos focar no ano que vem. Ali sim, o mundo inteiro vai querer bater recorde.

Como foi carregar a tocha olímpica na abertura do JUBs?
Fazia tempo que eu não carregava a tocha olímpica, e aqui tive essa oportunidade na cerimônia de abertura. É sempre um orgulho quando a gente une esporte e educação. Vejo um profissionalismo na organização e o brilho nos olhos dos atletas, tanto para diversão quanto para a competição.

Como foi sua experiência no esporte universitário? Você ganhou duas pratas na Universíade de 1995, em Fukuoka (nos 100m livres e no 4x100m livres).
Fiz faculdade em Michigan, nos Estados Unidos, que te características distintas das do Brasil. Tive uma ótima experiência. Lá, eles tem a NCAA, que é mais fatiada. Cad esporte tem a seu campeonato, e é muito competitivo. Na Universíade, foio inesquecível. Estava em fase se ascensão, e foi um evento super organizado. É muito interessante o envolvimento entre os jovens, Aprendi muito nesse cenário. Tenho um filho de 19 anos na Universidade de Michigan, a mesma em que estudei. Servir de exemplo para os mais novos é muito legal.

* O repórter viaja a convite da Confederação Brasileira do Desporto Universitário (CBDU)

QUEM É ELE

Nome
Gustavo França Borges
Nascimento
2 de dezembro de 1972, em Ribeirão Preto (SP)
Altura e peso
2,03m e 95kg
Formação
Economia
Conquistas
Quatro medalhas olímpicas, sendo duas de prata (100m livres em Barcelona-1992 e 200m livres em Atlanta-1996), e duas de bronze (100m livres em Atlanta-1996 e 4x100m livres em Sidney-2000). Segundo maior medalhista brasileiro em Jogos Pan-Americanos, com 19 pódios, atrás de Thiago Pereira. Tem 31 medalhas em Copas do Mundo de natação.