Jonas Moura
08/12/2018
08:00
Enviado Especial a Nassau (BAH)*

Com a experiência de Secretário Nacional de Esportes do Brasil na gestão de Fernando Henrique Cardoso, o velejador Lars Grael é o nome preferido de grande parte da comunidade esportiva para ser o homem forte do setor na equipe do presidente eleito Jair Bolsonaro. Mas não viu no novo governo, até o momento, um terreno produtivo para levar seus conhecimentos.

O paulista é uma das atrações da Star Sailors League Finals, que termina neste sábado, em Nassau (BAH). Ainda em alto nível nas competições da classe, ele veleja ao lado do proeiro Samuel Gonçalves. A dupla se classificou entre as dez melhores e disputará as quartas de final, a partir das 14h (de Brasília). Nos últimos anos, também se destacou como voz ativa em Brasília, na defesa dos interesses de atletas e entidades.

Ao LANCE!, o iatista não mostrou oposição ao fim do Ministério do Esporte, mas criticou sua submissão à Cidadania, bem como a falta de relevância dada ao segmento. E afirmou que só aceitaria um cargo no governo se houvesse uma mudança de tratamento em relação ao esporte, com uma secretaria especial, ligada à Presidência, e com presença nas reuniões ministeriais.

– Da forma como está proposto, eu não tenho interesse – afirmou Lars.

O que acha da nova configuração do governo federal para a gestão do Esporte?
Eu entendo a necessidade do novo governo de dar um recado para a sociedade e cumprir uma promessa de campanha, que é a redução do número de ministérios para mostrar uma diminuição da máquina pública, para que tenha mais dinheiro ao contribuinte, sem que o custo seja absorvido pelo poder público. A mensagem ficou clara. Todos nós, ligados ao esporte, gostaríamos da manutenção do Ministério do Esporte. Mas, se for pensar assim, é impossível fazer a redução. Acho que, se fosse para fazer uma fusão, a lógica seria com Educação e Cultura. Na própria Constituição, há um capítulo que trata de educação, cultura e desporto. E o artigo 217, o único que rege sobre o esporte, diz que é dever do Estado o fomento ao desporto educacional. A relação entre as áreas é natural.

"Não vejo um cabo de guerra entre o setor esportivo e o novo governo, que acabou de ser eleito pela maioria da população e merece crédito. Mas fica um sentimento de frustração"

Qual será o impacto da subordinação do Esporte à Cidadania?
O que foi feito parece mais uma gambiarra. Cidadania é um termo genérico e respeitável. Porém, a área do Desenvolvimento Social e Ação Social terá um orçamento 960 vezes maior do que o Esporte. Se confirmar a discrepância, que deverá existir, é uma lástima. Além de rebaixado ao segundo escalão, nossa área será uma partícula em um Ministério muito maior. Não vejo um cabo de guerra entre o setor esportivo e o novo governo, que acabou de ser eleito pela maioria da população e merece crédito. Mas fica um sentimento de frustração.

O General Marco Aurélio Costa Vieira é cotado para a Secretaria de Esportes no Ministério. O que acha do nome?
O novo governo tem pessoas ligadas ao esporte. Convivi com o General Augusto Heleno (que será Ministro do Gabinete de Segurança Institucional), que tem profundo conhecimento do setor, e o General Fernando Azevedo e Silva (futuro Ministro da Defesa). Ouvi dizer que o General Marco Aurélio também tem. Cabe a nós apoiar. Jamais devemos adotar a política do "quanto pior, melhor". Vou desejar que ele faça uma boa gestão.

Grande parte da comunidade esportiva pede seu nome em uma Secretaria. Se o futuro governo te convidar para um cargo, você aceitaria ou recusaria?
Eu aceitaria conversar. Ser apenas o coveiro do esporte no novo governo não seria interessante. Poderíamos até deixar de ter o status de Ministério, mas que tivéssemos uma secretaria especial, ligada à Presidência da República, com assento nas reuniões ministeriais e com ênfase nos programas e metas da área. Deste modo, eu entenderia que o esporte estaria prestigiado, mesmo dentro de outro Ministério. Da forma como está proposto, não teria interesse.

"Poderíamos até deixar de ter o status de Ministério, mas que tivéssemos uma secretaria especial, ligada à Presidência, com assento nas reuniões ministeriais e com ênfase aos programas e metas"

Você acaba de deixar o Comitê Brasileiro de Clubes (CBC), onde ocupou o cargo de Superintendente de Relações Institucionais. Por que tomou a decisão?
Saí porque eu havia recebido um convite para o ciclo de implantação de uma política de descentralização de recursos federais, para criar critérios de repasse dessa verba às agremiações. Agora, em 2018, o ciclo terminou. O CBC entrará, digamos, no piloto automático. Dei por encerrada a minha missão. Também considero importante eu ter minha independência para falar sobre o esporte.

Quais são seus planos para 2019? Já tem um calendário de competições?
Pesaram muito em minha decisão liberdade e independência. Em 2019, quero me dedicar bastante ao Star. Em fevereiro, vamos correr a Master's Cup e Midwinter, em Miami. Depois, temos a Bacardi Cup, também em Miami, e, em maio, o Campeonato Europeu, no Lago de Garda, na Itália. Em junho, tem o Mundial, em Porto Cervo, na Itália.

Pelo segundo ano seguido, você disputa a SSL Finals, umas competição idealizada pelos velejadores e que tem crescido. O que acha deste novo caminho que o esporte tem seguido?
A Star Sailors League tem democratizado o processo decisório com os atletas. Em vez de impor uma regra, eles apresentam as propostas e a submetem ao grupo, que dá opiniões, permitindo críticas de dentro, construtivas. É uma abordagem que a vela não tem lá fora. A World Sailing (Federação Internacional de Vela) é uma entidade totalmente hierarquizada. A distância entre quem decide e quem pratica o esporte é um abismo.

QUEM É ELE

Nome
Lars Schmidt Grael
Nascimento
9/2/1964, em São Paulo
Títulos
Conquistou duas medalhas olímpicas na Classe Tornado (bronze em Seul-88 e Atlanta-96), foi campeão Mundial de Snipe em dupla com o irmão Torben, campeão mundial de Star em 2015, é 10 vezes campeão sul-americano e 23 vezes campeão nacional em classes olímpicas e pan-americanas.
Acidente
Em 6 de setembro de 1998, o velejador foi atingido por uma lancha enquanto treinava em Vitória e precisou ter a perna direita amputada.
Outros cargos
Foi Secretário Nacional dos Esportes entre 2001 e 2002, e Secretário da Juventude, Esportes e Lazer do Estado de SP de 2003 até 2006. Atuou como Superintendente da LIGHT entre 2007 e 2008, e foi é Superintendente Técnico do Comitê Brasileiro de Clubes (CBC), Presidente do Conselho Empresarial do Esporte da Associação Comercial do Rio de Janeiro e Vice-Presidente da Comissão Nacional de Atletas.