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A história da construção de São Januário; como a torcida do Vasco ergueu o gigante

Um estádio financiado por sócios e torcedores para afirmar o Vasco no Rio.

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Lance!
São Paulo (SP)
Dia 19/02/2026
07:48
São Januário recebe Vasco x Juventude pelo Campeonato Brasileiro (Foto: Marcio Dolzan / Lance)
imagem cameraSão Januário foi erguido com arrecadação popular e virou símbolo da força social do Vasco. (Foto: Marcio Dolzan / Lance)

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São Januário foi construído como resposta à necessidade de um estádio próprio, simbolizando autonomia e afirmação do Vasco no futebol carioca.
A obra foi financiada pela mobilização de sócios e simpatizantes, destacando o pertencimento da comunidade vascaína.
Inaugurado em 1927, foi o maior estádio do Brasil e um marco da infraestrutura esportiva, consolidando o Vasco como uma força política no esporte.
Resumo supervisionado pelo jornalista!

São Januário não nasceu como obra de gabinete nem como presente de um grande mecenas. Ele nasceu como resposta. Nos anos 1920, o Vasco já era um clube competitivo, mas o futebol carioca também era um espaço de disputa social: quem tinha lugar, quem mandava, quem podia crescer. A construção de um estádio próprio, grande e moderno, virou a forma mais concreta de o clube afirmar a própria existência e controlar o próprio destino. O Lance! relembra a história da construção de São Januário.

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A diretoria vascaína já desenhava a ideia desde o acesso e o impacto esportivo de 1923, mas o empurrão definitivo veio quando a criação da AMEA acirrou o debate sobre "padrões" para participar do futebol organizado. Entre os argumentos usados contra o Vasco, aparecia a falta de estádio próprio. O clube, que já se destacava por acolher atletas vindos de camadas populares e por abraçar uma torcida plural, entendeu que a resposta precisava ser grande, visível e irreversível.

Foi aí que a palavra "torcida" ganhou sentido literal. São Januário foi erguido com dinheiro e mobilização de sócios, simpatizantes e comerciantes ligados à comunidade vascaína, em especial a presença portuguesa no Rio. Não era apenas uma campanha de doação; era uma operação de pertencimento. O estádio seria a casa do clube, mas também um marco da comunidade que o sustentava.

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A obra, por isso, tem uma narrativa própria: terreno comprado com arrecadação popular, mais recursos levantados para construir, pedra fundamental lançada em solenidade pública, e o estádio ficando pronto em tempo recorde. E, quando foi inaugurado, não era só "mais um campo": era, naquele momento, o maior estádio do Brasil e um dos maiores das Américas, com fachada monumental e vocação de palco cívico.

A história da construção de São Januário

Por que o Vasco decidiu construir São Januário

O Vasco buscava autonomia. Ter um estádio próprio significava independência de aluguel, maior capacidade de público, renda recorrente e poder de organização. Mas, na prática, significava também status: quem tinha estádio grande tinha força política no futebol e na cidade.

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A pressão do ambiente esportivo do período ajudou a acelerar o projeto. O clube via que não bastava vencer em campo; era preciso se afirmar institucionalmente. São Januário se tornou o instrumento dessa afirmação: uma resposta arquitetônica a um cenário que tentava reduzir o Vasco a "intruso" entre clubes mais tradicionais e elitizados.

O estádio também era estratégia de futuro. Um Vasco com casa própria poderia crescer como associação, atrair mais sócios, formar uma base social sólida e construir uma identidade que transcendesse o resultado do domingo. É por isso que a construção de São Januário é lembrada até hoje não só como "obra", mas como gesto político do clube.

A campanha popular e o dinheiro que levantou o estádio

A construção começou com um passo objetivo: comprar o terreno. Em 28 de março de 1925, o Vasco assinou a escritura de compromisso de compra e venda de uma área de 65.445 m² em São Cristóvão, adquirida da Sociedade Anonyma Lameiro, por 609:895$000 réis — valor proveniente de arrecadação popular. Essa primeira vitória mostrava que o projeto não era discurso: era plano com caixa, assinatura e endereço.

A etapa seguinte foi mais dura: levantar dinheiro para a obra em si. Estima-se que foram arrecadados cerca de 2.000:000$000 réis adicionais para construir o estádio. E esse dinheiro não veio de uma única fonte: veio de muitas mãos. Sócios comprando títulos, torcedores contribuindo como podiam, comerciantes ajudando, e o clube estruturando instrumentos financeiros para viabilizar o projeto.

Na prática, São Januário foi "erguido" por uma rede. O Vasco mobilizou sua comunidade para financiar tijolo por tijolo. E essa mobilização tinha um efeito colateral poderoso: ao contribuir, a torcida deixava de ser apenas público. Virava proprietária simbólica do estádio.

Terreno, projeto e obra: quem desenhou e quem construiu

Com o terreno garantido, o clube formalizou a construção. A pedra fundamental foi lançada em 6 de junho de 1926, em cerimônia que envolveu assinatura do então prefeito do Distrito Federal, Alaor Prata. Para executar a obra, foi chamada a firma Cristiani & Severo, e o arquiteto português Ricardo Severo ficou responsável pelo projeto.

A escolha do local — São Cristóvão — também dizia muito. Era uma região com peso histórico na cidade e com conexão afetiva para parte significativa da torcida vascaína, em especial a comunidade portuguesa. O estádio surgia, assim, num ponto de fácil acesso e com potencial de se tornar referência urbana.

A construção teve ritmo acelerado, mas enfrentou obstáculos. Um episódio frequentemente lembrado envolve a tentativa de importar cimento belga, já utilizado em outras obras importantes do Rio. O pedido não foi autorizado pelo governo federal. Sem esse material, a obra precisou de solução alternativa: uma mistura de cimento, areia e pedra britada para dar conta das exigências estruturais. Estimativas apontam o uso de pelo menos 6.000 barris de cimento e 252 toneladas de ferro na construção, números que ajudam a dimensionar o tamanho do empreendimento.

Velocidade e inauguração: o Vasco colocou o estádio de pé em menos de um ano

Um dos aspectos mais impressionantes da história de São Januário é a velocidade. Dez meses após a pedra fundamental, o estádio estava pronto para receber público e cerimônia oficial. A inauguração ocorreu em 21 de abril de 1927, data que marcou a entrada definitiva do Vasco no mapa de infraestrutura esportiva do continente.

O jogo inaugural foi contra o Santos, potência paulista do período. O primeiro gol da história do estádio foi marcado por Evangelista, do Santos, aos 20 minutos do primeiro tempo. O primeiro gol vascaíno em São Januário veio logo depois, aos 23, com Negrito. A partida terminou 5 a 3 para os visitantes, mas o placar era detalhe diante do fato principal: o Vasco tinha seu estádio e ele era gigantesco para os padrões da época.

Antes da bola rolar, houve solenidades. Um dos símbolos desse dia foi o corte de uma fita por Sarmento de Beires, aviador português que realizara a travessia Lisboa–Rio. O gesto reforçava um traço central do projeto: o estádio era do Vasco, mas também carregava uma dimensão comunitária e cultural.

O maior do Brasil, um dos maiores das Américas

Em 1927, São Januário era o maior estádio do Brasil e, por um período, o maior das Américas. Só perderia esse status continental com a inauguração do Estádio Centenário, em Montevidéu, em 1930. Em escala nacional, seguiria como o maior do país até a abertura do Pacaembu, em 1940; e, no estado do Rio, manteria a liderança até o Maracanã, inaugurado em 1950.

Esse tamanho não era apenas "vaidade". Ele era projeto econômico e político: capacidade significava renda; renda significava força; força significava autonomia no futebol. São Januário consolidou um Vasco com musculatura institucional para atravessar décadas.

Até hoje, o estádio guarda essa dimensão de "obra privada com vocação pública": uma arena construída por um clube, mas que se tornou cenário da memória do Rio.

Modernidade e pioneirismo: a iluminação por refletores

A modernização continuou após a inauguração. Em 31 de março de 1928, foram inaugurados os refletores, com jogo contra o Wanderers, do Uruguai, vencido pelo Vasco por 1 a 0. O detalhe histórico é que São Januário tornou-se o primeiro estádio brasileiro iluminado por refletores, elemento que ampliava a possibilidade de jogos noturnos e reforçava o caráter inovador do espaço.

Esse pioneirismo ajudou a consolidar o estádio como símbolo de modernidade esportiva. São Januário não era apenas grande: era atualizado, funcional e pronto para o futebol que crescia em popularidade e escala.

De estádio do clube a palco da cidade

Com o tempo, São Januário virou mais do que casa do Vasco. O estádio passou a sediar eventos esportivos e cívicos, reforçando seu peso urbano. Recebeu jogo da Seleção Brasileira (como o confronto com a Argentina em 1939, pela Copa Rocca) e serviu de palco para outras modalidades, como lutas de boxe em 1946.

Décadas depois, continuaria relevante em decisões e eventos marcantes: finais continentais, finais nacionais e momentos históricos do futebol brasileiro. A permanência de São Januário no centro do imaginário esportivo tem raiz naquela origem: foi construído para ser grande, e cresceu também como símbolo.

A história da construção de São Januário: um estádio erguido como afirmação

Quando se diz que "a torcida ergueu São Januário", não é metáfora romântica. É descrição de um método: arrecadação popular para comprar o terreno, mobilização financeira para construir, participação comunitária para sustentar o projeto e transformar o estádio em patrimônio afetivo.

Por isso, São Januário é lembrado como obra dos vascaínos. Ele materializa uma ideia simples e poderosa: quando um clube se organiza com sua gente, ele constrói mais do que arquibancada. Constrói identidade, autonomia e memória.

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