A história da construção de São Januário; como a torcida do Vasco ergueu o gigante
Um estádio financiado por sócios e torcedores para afirmar o Vasco no Rio.

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São Januário não nasceu como obra de gabinete nem como presente de um grande mecenas. Ele nasceu como resposta. Nos anos 1920, o Vasco já era um clube competitivo, mas o futebol carioca também era um espaço de disputa social: quem tinha lugar, quem mandava, quem podia crescer. A construção de um estádio próprio, grande e moderno, virou a forma mais concreta de o clube afirmar a própria existência e controlar o próprio destino. O Lance! relembra a história da construção de São Januário.
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A diretoria vascaína já desenhava a ideia desde o acesso e o impacto esportivo de 1923, mas o empurrão definitivo veio quando a criação da AMEA acirrou o debate sobre "padrões" para participar do futebol organizado. Entre os argumentos usados contra o Vasco, aparecia a falta de estádio próprio. O clube, que já se destacava por acolher atletas vindos de camadas populares e por abraçar uma torcida plural, entendeu que a resposta precisava ser grande, visível e irreversível.
Foi aí que a palavra "torcida" ganhou sentido literal. São Januário foi erguido com dinheiro e mobilização de sócios, simpatizantes e comerciantes ligados à comunidade vascaína, em especial a presença portuguesa no Rio. Não era apenas uma campanha de doação; era uma operação de pertencimento. O estádio seria a casa do clube, mas também um marco da comunidade que o sustentava.
A obra, por isso, tem uma narrativa própria: terreno comprado com arrecadação popular, mais recursos levantados para construir, pedra fundamental lançada em solenidade pública, e o estádio ficando pronto em tempo recorde. E, quando foi inaugurado, não era só "mais um campo": era, naquele momento, o maior estádio do Brasil e um dos maiores das Américas, com fachada monumental e vocação de palco cívico.
A história da construção de São Januário
Por que o Vasco decidiu construir São Januário
O Vasco buscava autonomia. Ter um estádio próprio significava independência de aluguel, maior capacidade de público, renda recorrente e poder de organização. Mas, na prática, significava também status: quem tinha estádio grande tinha força política no futebol e na cidade.
A pressão do ambiente esportivo do período ajudou a acelerar o projeto. O clube via que não bastava vencer em campo; era preciso se afirmar institucionalmente. São Januário se tornou o instrumento dessa afirmação: uma resposta arquitetônica a um cenário que tentava reduzir o Vasco a "intruso" entre clubes mais tradicionais e elitizados.
O estádio também era estratégia de futuro. Um Vasco com casa própria poderia crescer como associação, atrair mais sócios, formar uma base social sólida e construir uma identidade que transcendesse o resultado do domingo. É por isso que a construção de São Januário é lembrada até hoje não só como "obra", mas como gesto político do clube.
A campanha popular e o dinheiro que levantou o estádio
A construção começou com um passo objetivo: comprar o terreno. Em 28 de março de 1925, o Vasco assinou a escritura de compromisso de compra e venda de uma área de 65.445 m² em São Cristóvão, adquirida da Sociedade Anonyma Lameiro, por 609:895$000 réis — valor proveniente de arrecadação popular. Essa primeira vitória mostrava que o projeto não era discurso: era plano com caixa, assinatura e endereço.
A etapa seguinte foi mais dura: levantar dinheiro para a obra em si. Estima-se que foram arrecadados cerca de 2.000:000$000 réis adicionais para construir o estádio. E esse dinheiro não veio de uma única fonte: veio de muitas mãos. Sócios comprando títulos, torcedores contribuindo como podiam, comerciantes ajudando, e o clube estruturando instrumentos financeiros para viabilizar o projeto.
Na prática, São Januário foi "erguido" por uma rede. O Vasco mobilizou sua comunidade para financiar tijolo por tijolo. E essa mobilização tinha um efeito colateral poderoso: ao contribuir, a torcida deixava de ser apenas público. Virava proprietária simbólica do estádio.
Terreno, projeto e obra: quem desenhou e quem construiu
Com o terreno garantido, o clube formalizou a construção. A pedra fundamental foi lançada em 6 de junho de 1926, em cerimônia que envolveu assinatura do então prefeito do Distrito Federal, Alaor Prata. Para executar a obra, foi chamada a firma Cristiani & Severo, e o arquiteto português Ricardo Severo ficou responsável pelo projeto.
A escolha do local — São Cristóvão — também dizia muito. Era uma região com peso histórico na cidade e com conexão afetiva para parte significativa da torcida vascaína, em especial a comunidade portuguesa. O estádio surgia, assim, num ponto de fácil acesso e com potencial de se tornar referência urbana.
A construção teve ritmo acelerado, mas enfrentou obstáculos. Um episódio frequentemente lembrado envolve a tentativa de importar cimento belga, já utilizado em outras obras importantes do Rio. O pedido não foi autorizado pelo governo federal. Sem esse material, a obra precisou de solução alternativa: uma mistura de cimento, areia e pedra britada para dar conta das exigências estruturais. Estimativas apontam o uso de pelo menos 6.000 barris de cimento e 252 toneladas de ferro na construção, números que ajudam a dimensionar o tamanho do empreendimento.
Velocidade e inauguração: o Vasco colocou o estádio de pé em menos de um ano
Um dos aspectos mais impressionantes da história de São Januário é a velocidade. Dez meses após a pedra fundamental, o estádio estava pronto para receber público e cerimônia oficial. A inauguração ocorreu em 21 de abril de 1927, data que marcou a entrada definitiva do Vasco no mapa de infraestrutura esportiva do continente.
O jogo inaugural foi contra o Santos, potência paulista do período. O primeiro gol da história do estádio foi marcado por Evangelista, do Santos, aos 20 minutos do primeiro tempo. O primeiro gol vascaíno em São Januário veio logo depois, aos 23, com Negrito. A partida terminou 5 a 3 para os visitantes, mas o placar era detalhe diante do fato principal: o Vasco tinha seu estádio e ele era gigantesco para os padrões da época.
Antes da bola rolar, houve solenidades. Um dos símbolos desse dia foi o corte de uma fita por Sarmento de Beires, aviador português que realizara a travessia Lisboa–Rio. O gesto reforçava um traço central do projeto: o estádio era do Vasco, mas também carregava uma dimensão comunitária e cultural.
O maior do Brasil, um dos maiores das Américas
Em 1927, São Januário era o maior estádio do Brasil e, por um período, o maior das Américas. Só perderia esse status continental com a inauguração do Estádio Centenário, em Montevidéu, em 1930. Em escala nacional, seguiria como o maior do país até a abertura do Pacaembu, em 1940; e, no estado do Rio, manteria a liderança até o Maracanã, inaugurado em 1950.
Esse tamanho não era apenas "vaidade". Ele era projeto econômico e político: capacidade significava renda; renda significava força; força significava autonomia no futebol. São Januário consolidou um Vasco com musculatura institucional para atravessar décadas.
Até hoje, o estádio guarda essa dimensão de "obra privada com vocação pública": uma arena construída por um clube, mas que se tornou cenário da memória do Rio.
Modernidade e pioneirismo: a iluminação por refletores
A modernização continuou após a inauguração. Em 31 de março de 1928, foram inaugurados os refletores, com jogo contra o Wanderers, do Uruguai, vencido pelo Vasco por 1 a 0. O detalhe histórico é que São Januário tornou-se o primeiro estádio brasileiro iluminado por refletores, elemento que ampliava a possibilidade de jogos noturnos e reforçava o caráter inovador do espaço.
Esse pioneirismo ajudou a consolidar o estádio como símbolo de modernidade esportiva. São Januário não era apenas grande: era atualizado, funcional e pronto para o futebol que crescia em popularidade e escala.
De estádio do clube a palco da cidade
Com o tempo, São Januário virou mais do que casa do Vasco. O estádio passou a sediar eventos esportivos e cívicos, reforçando seu peso urbano. Recebeu jogo da Seleção Brasileira (como o confronto com a Argentina em 1939, pela Copa Rocca) e serviu de palco para outras modalidades, como lutas de boxe em 1946.
Décadas depois, continuaria relevante em decisões e eventos marcantes: finais continentais, finais nacionais e momentos históricos do futebol brasileiro. A permanência de São Januário no centro do imaginário esportivo tem raiz naquela origem: foi construído para ser grande, e cresceu também como símbolo.
A história da construção de São Januário: um estádio erguido como afirmação
Quando se diz que "a torcida ergueu São Januário", não é metáfora romântica. É descrição de um método: arrecadação popular para comprar o terreno, mobilização financeira para construir, participação comunitária para sustentar o projeto e transformar o estádio em patrimônio afetivo.
Por isso, São Januário é lembrado como obra dos vascaínos. Ele materializa uma ideia simples e poderosa: quando um clube se organiza com sua gente, ele constrói mais do que arquibancada. Constrói identidade, autonomia e memória.
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