Ronaldo Monteiro de Castro

Para Castro, clube-empresa é visto como um caminho urgente para o futebol brasileiro se modernizar (Divulgação)

Vinícius Faustini
21/04/2020
07:25
Rio de Janeiro (RJ)

A sensação de que a pandemia do novo coronavírus é só mais um dos obstáculos que o futebol brasileiro terá pela frente norteia o pensamento de Rodrigo Monteiro de Castro. Embora creia que, neste momento, o Estado tem de dar algum amparo para que os clubes se mantenham, o advogado é categórico.

-  O futebol brasileiro não está com tantos problemas devido à pandemia. Ele já estava com um problema estrutural que tem de ser corrigido, para que o Estado não fique dando novas ajudas futuramente - afirmou. 

Ao LANCE!, Castro crê que o futebol brasileiro é "pouco atrativo" e não atinge o seu potencial. E, diante da calamidade mundial que afetou também o país, vê o período pós-pandemia como a chance de uma guinada para o futebol brasileiro.

LANCE!: Quais são os caminhos para os clubes brasileiros voltarem a se estruturar diante dos tempos difíceis de uma pandemia? 

Rodrigo Monteiro de Castro: Este fato extraordinário não pode turvar a visão dos verdadeiros problemas do futebol nacional. Seria o mesmo que um paciente com câncer ser infectado com outro vírus. Ele é tratado e se cura do vírus, em uma solução imediata, mas segue com um câncer.  Não podemos ficar mais com aquela ideia de agremiações que pertencem a um grupo de bairro, isto tem de ser superado! A hora é de mudar e conseguir recursos para o futebol brasileiro. Caso contrário, o Estado soluciona o problema imediato (o impacto econômico causado pelo novo coronavírus), mas depois tem de se organizar mais uma vez para resolver os problemas, repetindo aquela velha história de clubes querendo adiantar cotas, pedir perdão, etc... 

L!: Como o Estado tem de agir neste momento em relação aos clubes?  

É claro que, inicialmente, o Estado terá de interferir e ajudar mais do que os liberais gostariam. O futebol brasileiro tem de se organizar primeiramente como indústria. Desta maneira, o Estado dirá aos clubes que já são mais de 100 anos de isenções, perdões, TimeMania, Petrobras. Não dá mais para o Estado ficar salvando o futebol! Há uma convergência atualmente entre o projeto do clube-empresa, do deputado (federal) Pedro Paulo (DEM-RJ) e do senador Rodrigo Pacheco (DEM-MG), sobre Sociedade Anônima do Futebol (SAF), na qual participei, que se complementam. Caberia ao Estado conceder linhas de financiamento e, aos poucos, contribuir para que o futebol seja uma indústria própria, que não comprometa geração de riquezas. 

L!: Atualmente, há um plano emergencial no qual bancos "socorreriam" os clubes em meio à pandemia do novo coronavírus. O que acha desta medida?

Bom, os movimentos têm de ser pensados apenas numa situação imediatista, para salvar a indústria por agora. O balanço do público, os estádios, os salários dos atletas indicam que não haverá condições de trabalho tão cedo no futebol. Por isto, em algum momento, o Estado vai ter de "relaxar" e ajudar. Contudo, estas medidas emergenciais não podem ser, mais tarde, deturpadas para resolver problemas estruturais. É preciso um ajuste, reinventar a roda! Nem todo mundo será o que o Flamengo é, mas diversos clubes serão fortes o bastante para disputar vagas em competições, de estar em uma semifinal de um torneio.

'As medidas emergenciais (para ajudar os clubes em meio à pandemia do novo coronavírus) não podem ser deturpadas para resolver problemas estruturais' 

L!: Qual impacto a "migração" para o clube-empresa pode trazer a uma agremiação?

O financiamento passa pelo "Match Day", patrocínio e a negociação de jogadores. Com tudo isto em mãos, ele começa a fazer um plano de negócios e tem uma base para criar um ambiente de atração de recursos. É por isto que precisamos de um Marco Regulatório no futebol, que permitirá ao investidor preferir um modelo crível, que tenha maior transparência e credibilidade.

L!: De que forma o clube pode atrair os investidores?

Tudo vai depender da tese de investimento. Pesará a empresa que começou a resolver suas dívidas. O futebol é uma atividade que congrega pessoas no planeta. Naturalmente, estamos em uma situação difícil e vão ocorrer ajustes em todos os setores, com redução de salários de jogadores, patrocinadores "segurando" um pouco. Todos os agentes têm de superar... Mas na hora em que as portas forem reabertas, haverá muito a investir no futebol nacional, e inclusive com investidores brasileiros. Infelizmente, é uma atividade que não é explorada em seu melhor.

Brasil x Senegal
'Jogadores vão embora cedo e a Seleção Brasileira não leva mais grande público no exterior', diz Ronaldo Monteiro de Castro (Foto: Lucas Figueiredo/CBF)

L!: Por que acha que o Brasil não explora o seu futebol na sua melhor forma?

Por não ter condições de oferecer um produto de qualidade. O investimento de imagem, "ensuring" (segurança), a participação maior do torcedor. Aqui, a relação da torcida é mais passional. Em geral, os clubes daqui não têm como investir em melhorias. A busca é por saldar a folha de pagamento. Já na Europa, temos um ambiente no entorno, maior visibilidade e chance de ascensão gradativa. O exemplo maior é o Manchester City, que há dez anos estava na Segunda Divisão e hoje é um dos cinco mais poderosos clubes da Inglaterra.

'Caso tivéssemos nos adequado lá atrás (ao clube-empresa), não estaríamos tão atrasados em relação a outros países'


L!: Acha que, diante de tantos percalços no país, é cedo para que as agremiações debatam o clube-empresa?

Acho que não. A questão do clube-empresa começou a surgir na década de 1990. Passamos os anos 2000, 2010 e estamos em 2020 já! Caso tivéssemos nos adequado lá atrás, o futebol brasileiro não estaria da forma que está hoje, tão atrasado. Os jogadores partem cada vez mais jovens para o futebol europeu, o qual o Campeonato Brasileiro não é atrativo e jogos da Seleção Brasileira levam um público ínfimo no exterior. Perdemos o mundo midiático devido ao comodismo da estrutura do Estado perdoar dívidas de clubes. Afinal, a Seleção funcionava em campo, venceu as Copas de 1994 e 2002. Agora, a solução está no Congresso e temos um longo caminho para pavimentar. Espero que seja um momento de virada para nós.