Vinícius Faustini
07/08/2020
07:45
Rio de Janeiro (RJ)

Não faltam histórias a Wagner Lopes no futebol. Marcado por ter sido um dos pioneiros jogadores que foram para o futebol japonês e que fez parte da primeira seleção a disputar uma Copa do Mundo, ele manteve seu espírito de "peregrino" também na beira do gramado.

Após ter feito parte da comissão técnica do Paulista na histórica conquista da Copa do Brasil de 2005 (sob o comando de Vagner Mancini), Lopes iniciou sua saga como treinador e esteve à frente de clubes de diversas divisões. Sem clube desde que saiu do Botafogo-SP, o treinador reconhece o quanto continua ingrata a sua profissão.

-  Há uma cultura de avaliar o treinador rapidamente só pelos resultados. Na minha visão, o trabalho de um técnico só pode ser avaliado depois de um ano. Um pênalti mal batido ou executado não são culpas diretamente do comandante. E se a equipe vem de uma sequência de derrotas, a responsabilidade vai também do diretor de futebol, por exemplo - afirmou, ao LANCE!.

LANCE!: Seu início de trabalho na beira do gramado aconteceu na comissão técnica do time do Paulista campeão da Copa do Brasil. Como foi começar logo desta maneira?

Wagner Lopes: Eu já tinha jogado com o Vagner (Mancini, técnico do Paulista naquela conquista) no Japão e dizia para ele que levava jeito para treinador. Por coincidência, assim que acabou meu curso, fui chamado por ele. Foi um privilégio esta conquista logo no início, sem dúvida. Superamos adversários muito complicados, como Juventude, Internacional, Figueirense, Botafogo e seguramos o Fluminense na final em São Januário. Mancini me ajudou mas é claro que cada um tem seu ponto de vista, seus conceitos.

L!: Você retornou ao Paulista por duas vezes como técnico, mas enfrentando uma realidade completamente diferente: com a equipe tendo de disputar a Copa Paulista para buscar uma vaga na Série D. Como foi lidar com este contraste?

A Copa Paulista é uma competição que requer muita atenção. Há obstáculos como as longas viagens, os diferentes tipos de gramado, as torcidas adversárias que soltam fogos na noite anterior à partida...  O cenário não é dos melhores, mas isto acaba ajudando na fase mental. Na edição de 2011, fomos pegando confiança e ganhamos o título. Tenho muito orgulho desta conquista porque projetamos muitos jogadores que hoje brilham em outras equipes. O Reinaldo tinha vindo da Penapolense e atualmente ocupa a lateral do São Paulo. Samuel Xavier, Mayke, o Alan Mineiro... 

'Já lidei com atrasos salariais, tive de tirar dinheiro do bolso para ajudar na suplementação de atletas... Isto ajuda mentalmente, de certa forma', constata Wagner Lopes


L!: Você também comandou muitas equipes de menor investimento, principalmente do interior. Isto deve dar muita "cancha" em relação aos percalços do futebol...

Pois é, rodei bastante... Em alguns lugares, o treinador acaba sendo multifuncional, né?! Já lidei com três, quatro meses de atraso salarial em uma equipe. Aconteceu de eu tirar do bolso porque estava faltando suplementação para o atleta. A gente gerencia, faz programação. Isto, de certa forma, ajuda você mentalmente para encarar todo tipo de trabalho. Inclusive, dá uma certa facilidade ao comandar equipes de maior porte.

L!: Você comandou o Criciúma em 2014. Como foi comandar a equipe justamente em um ano no qual ele estava na Série A?

Eu vinha de um trabalho no Botafogo-SP, no qual fomos muito bem na fase de grupos, passamos em primeiro lugar para a fase do mata-mata, mas fomos eliminados nos pênaltis para o Ituano. Isto chamou a atenção do Criciúma e acabamos fechando. Foi uma grande experiência enfrentar clubes como Fluminense, Flamengo. A Série A tem uma dinâmica de jogo diferente. Você vê uma qualidade técnica dos jogadores muito superior. Trabalham bem a circulação da bola, por exemplo, a capacidade cognitiva é diferente.  Valeu a pena, apesar de não ficarmos até o final.

L!: Logo depois você acertou sua primeira passagem para o Atlético-GO. Como foi o início da relação com o Dragão? 

Pois é, na verdade foram quatro dias apenas desempregado depois de deixar o Criciúma. Aceitei a proposta e foi um casamento muito bom. Mas pegamos uma situação muito complicada, com dificuldades salariais. Com o passar do tempo, as coisas passaram a não se ajustar, aí não seguimos até o fim.

L!: Você experimentou a fronteira da rivalidade goiana ao, no ano seguinte, aceitar a proposta justamente do Goiás...  

Foi bem interessante, porque são décadas de rivalidade. Torna-se compreensível a troca de provocações muito grande entre rivais. No Goiás vínhamos bem, chegamos a ganhar a Granada Cup, uma competição preparatória disputada em Brasília. Foi curto o período, mas muito bom.

L!: Sente mágoa pela demissão no decorrer do Estadual, em especial porque o Esmeraldino vinha com um bom aproveitamento?

Na verdade, eu tenho minha metodologia de trabalho. Quando vem uma interferência, é difícil de aceitar. Prefiro sempre primar pela meritocracia, de escalarmos os melhores. É se mereceu, joga. Houve um desacordo, mas não briguei com ninguém. Deixei amigos e é um grande clube.

L!: Você retornou ao Atlético-GO outras duas vezes. Qual é a importância do Dragão na sua carreira?

Tenho uma sensação de reconhecimento. Em 2016, nós montamos o time que acabou se tornando campeão da Série B meses depois sob o comando de Marcelo Cabo. E a outra passagem é bastante gratificante. Conquistar o Campeonato Goiano tinha sido muito marcante para os torcedores do Atlético-GO, principalmente pela vitória por 3 a 0 no jogo de ida e o triunfo por 1 a 0 no segundo jogo.


L!: Sua demissão em 2019 aconteceu quando a equipe estava bem na classificação da Série B. A que atribui esta decisão da diretoria?

É, das 28 rodadas que fiquei, em 23 estivemos no G4. Estávamos na terceira colocação, com uma boa vantagem sobre o quinto colocado. Nem nos pesadelos mais terríveis eu podia imaginar essa saída, mas a gente não controla as decisões das diretorias. Eu esperava brigar até o fim pelo título. Faz parte...

L!: Como foi a conversa com Adson Batista (mandatário do Atlético-GO)? Ficou algo mal resolvido?

Nada, a gente tem uma relação muito boa. Ele me disse: "a culpa não é sua, preciso mexer no ambiente. Se eu errar, que eu peque pelo excesso". Vínhamos de dois empates, contra o Vila Nova e Cuiabá, em jogos nos quais tomamos gols no final. Fico feliz que o Eduardo Barroca tenha levado a equipe à elite.

Wagner Lopes
Wagner Lopes teve duas passagens pelo Paraná (Divulgação/Paraná)


L!: Você teve uma passagem pelo Paraná e, logo depois, fez as malas para comandar o Albirex Niiagata (JAP). O que pesou para você mudar de ares, ainda mais voltando para o futebol japonês?

Quando aconteceu o convite, esperei o fim do Estadual (de 2017) e acabamos eliminados para o Atlhetico-PR. Somente depois disso selei o acordo. Na verdade, o diretor financeiro do Albirex e eu temos uma amizade muito grande. Quando eu estava no fim da minha carreira. Ele me propôs um contrato para que eu jogasse e disse que ia me preparar para ser o treinador deles. Naquela época, eu estava com um problema muscular, contei que não poderia jogar no mesmo nível. Além disto, queria voltar para o Brasil, meus filhos iriam ficar perto dos avós. Essa sinceridade engatou uma amizade entre nós que culminou na minha ida para o Albirex.

L!: E como foi retornar ao Japão como treinador?

Foi muito legal. Deu para ver o quanto houve evolução desde que eu tinha saído de lá. Os sistemas de jogo ficaram mais claro, o padrão de atletas ficou muito mais alto. Não é à toa que temos japoneses atuando bem no futebol europeu. E lá no Albirex ainda pude jogar com alguns brasileiros como o Rony, que hoje está no Palmeiras, o Jean Patrick, Douglas Tanque, Thiago Galhardo... O Japão é muito interessante, é admirável como eles se preocupam com a educação. Foi um aprendizado a mais.

L!: Seu retorno ao Brasil aconteceu justamente por meio do Paraná. Por que desta vez a equipe não decolou?

A montagem foi toda complicada. Uma das tarefas mais difíceis é mudar a filosofia de trabalho, o padrão de treinamento. Falta às vezes ao jogador visualizar que precisa de tempo para assimilar o que queremos passar e também à diretoria estudar o perfil que quer do treinador.

L!: Sua passagem mais recente foi pelo Botafogo-SP, que se tornou clube-empresa recentemente e decidiu dar prioridade a pagar as dívidas. Como foi lidar com esta situação?

Olha, não posso dizer que não sabia que o clube faria um investimento menor, que pretendia de buscar jogadores de menor salário e teria de lutar para achar maior capacidade. Procuramos quem tinha fome de bola. Infelizmente, as escolhas não necessariamente passam pelo treinador. Em campo, vínhamos de seis jogos com quatro derrotas, a cobrança era muito grande. Isto pesou muito.

O CICLO COMO JOGADOR

Wagner Lopes - Japão
Como jogador, Lopes fez história na terra do Sol Nascente (Divulgação)

L!: A sua trajetória como jogador é muito marcada por histórias. Como foi fazer parte daquela geração fantástica do São Paulo da década de 1980?

É verdade, eu vim da geração que era conhecida como os "Menudos" do São Paulo. Tinha 17 anos e cinco meses quando entrei em campo pela primeira vez. Morava no portão 4, convivia com Müller, Sidnei, Silas, aí o Cilinho passou a dar chance para os jovens. Em 1985 fomos campeões paulistas, depois veio o título brasileiro no ano seguinte e aí em 1987 conquistamos mais um Paulistão. Só que não se tratava de uma equipe, era uma verdadeira seleção. Em vez de matar um leão por dia, tínhamos de matar o zoológico para nos tornarmos titulares, em especial porque as vagas no banco eram limitadas. Só podiam cinco jogadores. E era absurda a capacidade técnica do elenco são-paulino.

L!: Isto contribuiu para você se transferir para o futebol japonês?

Na verdade, eu tinha vontade de conhecer outra cultura. Projetava muito o Cosmos com o Beckenbauer, o Pelé... Mas o Oscar Bernardi, que tinha sido meu colega no São Paulo (e foi zagueiro da Seleção Brasileira nas Copas do Mundo de 1982 e 1986), me chamou atenção de que o futebol japonês podia ser um bom caminho. Eu me lembro que, na época, a diretoria chegou a falar para mim: "vai para lá, fica uns dois, três anos que, assim que o Careca for vendido para a Europa, a gente chama você de volta". Também pensei nisso, em fazer um pezinho de meia. Acabei conhecendo minha esposa lá, me casei, tive uma carreira bem-sucedida... Pude disputar uma Copa do Mundo pelo Japão e, em vez de três anos, fiquei 17 temporadas.

'Na arquibancada, gritavam 'Lopes, Lopes', aí o Claudio López (atacante argentino) achou que era com ele. Mas estavam gritando meu nome', lembrou sobre a partida do Mundial de 1998


L!: Quem ajudou você neste início de adaptação ao Japão?

O Oscar. Ele sempre foi um exemplo de profissionalismo para mim, foi meu treinador no Nissan Motors (hoje chamado de Yokohama Marinos) e só meu deu bons conselhos, um gentleman, um cara que nunca teve vaidade... Fui por duas vezes campeão lá pelo Nissan e tenho muito carinho também pelo clube.

L!: E como era o apelo do futebol nipônico neste período?

Muito baixo, havia média de 200, 300 torcedores por jogo. O único jogo que tinha maior público era a final da Copa do Imperador, com mil pessoas. Tínhamos de cuidar da própria roupa, às vezes até preparar o campo. Era uma aventura.

L!: Você consolidou sua carreira, passou por outros clubes como Kashiwa Reysol, Honda, Bellmare e aí fez parte da primeira seleção do Japão a disputar uma Copa do Mundo. Qual foi a sensação de estar no Mundial da França?

É uma bênção, né? Porque fui muito bem tratado como jogador que sentia uma empatia com os torcedores. Representar um país milenar como o Japão em sua primeira Copa na história é um aprendizado e se torna emocionante ao mesmo tempo.

L!: Este Mundial deve render muitas histórias curiosas...

Nossa, demais, se eu for contar todas... (risos). Mas do nosso primeiro jogo eu acho a mais divertida. Foi contra a Argentina, que era uma seleção muito forte, com Batistuta, Ortega e tinha um atacante de beirada chamado Claudio Lopez. Estava 1 a 0 para a Argentina quando, aos 40 minutos do primeiro tempo, a torcida começou a gritar "Lopes, Lopes...". E ele acenando! Mas na verdade, a maioria esmagadora era de japoneses pedindo que eu entrasse. Eu lá no jogador era conhecido como Lopes. O Claudio ficava acenando mas eu tinha de explicar que era pra mim... (risos).

L!: E depois você entrou para a história da seleção ao dar o passe para o primeiro gol do Japão em uma Copa do Mundo... 

Foi uma alegria aquele gol. Apesar de estarmos desclassificados na última rodada, vira e mexe lembram da jogada, aparece em vídeo. A bola veio de coxa e sobrou para o Nakayama fazer o gol.  Nunca mais vou ser esquecido pelos torcedores japoneses.

L!: Quais outras lembranças você traz dos clubes que defendeu lá?

Acho que vivi minha melhor fase no Bellmare (Hiratzuka), clube no qual me naturalizei e que me abriu as portas para a seleção do Japão. Mas também tenho carinho pelo Avispa, clube no qual parei de jogar e onde sempre foram muitos carinhosos. Digo que são meus "padrinhos", de certa forma.

L!: Quais são seus planos para sua sequência de carreira?

Bom, gosto muito de estudar, isto contribui para a gente rever conceitos. Tenho Licença Pro desde 2018 e me formei como psicólogo esportivo e, no momento, venho lendo artigos sobre futebol, tomadas de decisão. Sabemos que estamos em um ano atípico. Estou, ao lado de minha família, tomando os cuidados com relação à pandemia do novo coronavírus e tentando interagir com as pessoas da melhor forma possível em busca de oportunidades, mesmo neste ano tão difícil.