Irlanda do Norte x Alemanha

A política influenciou no futebol alemão (Foto: AFP)

Igor Galletti*
09/11/2019
10:35
Berlim (ALE)

Há exatos 30 anos, no dia 09 de novembro de 1989, o Muro de Berlim foi derrubado e, junto dos tijolos, caiu também a separação entre duas Alemanhas: a Ocidental, no espectro capitalista, e a Oriental, do lado socialista. Dois territórios que, com o fim da Guerra Fria, projetavam a unificação. O futebol alemão não ficou à margem dessa situação política. O LANCE! entrevistou o jornalista Gerd Wenzel, da ESPN, especialista em futebol alemão, para entender o impacto da política nos clubes germânicos, antes e depois da queda do muro e desmistificar algumas questões que envolvem o desenvolvimento do esporte na Alemanha.

UM MURO ENTRE NÓS
A influência da guerra no esporte é antiga na Alemanha. Após o fim da Segunda Guerra Mundial e a derrota alemã, boa parte das organizações esportivas foram desmanteladas. O governo alemão, aos poucos, foi reestruturando o esporte. Com a criação do muro, o lado Ocidental seguiu com investimentos no futebol, enquanto na parte Oriental, o esporte, de uma forma geral, era controlado pelo Estado, com clubes passaram a atender mais as aspirações do governo do que da sociedade em si. Boa parte das equipes eram amadoras e reguladas pelo governo ou como define Wenzel: “subvencionados pelo Estado”.

- Os clubes do lado oriental eram, entre aspas, amadores, não havia profissionalismo. Os jogadores na maior parte das vezes tinham um emprego, mas na realidade eram praticamente funcionários do Estado – pontua, e conclui:

- Infelizmente, para a Alemanha Oriental - o que já acontecia, mesmo na Guerra Fria -, muitos jovens talentosos no futebol acabaram indo para a Ocidental, onde perceberam que teriam melhores chances de se desenvolver – completa.

A atuação do Estado era tão grande, que chegou a ser criada um clube de futebol da polícia da Alemanha Oriental, conhecida como ‘Stase’. Wenzel aponta que a equipe “ganhou título adoidado”, pois nenhum clube “tinha coragem de ganhar” do time de autoridades.

DIVISÃO DE BENS
Com a queda do muro e o desmantelamento do Estado socialista, os clubes da Alemanha Oriental penaram para permanecerem ativos. Muitos profissionais que trabalhavam com futebol, na parte Ocidental migraram para essas cidades, mas, não com a preocupação de desenvolver o esporte, mas na busca de garimpar novos atletas e também de se aproveitar financeiramente.

- Essa “invasão ocidental” fez mais mal do que bem para o futebol da Alemanha Oriental, porque, literalmente, sangraram muitos jovens talentos e deram golpes nesses clubes que já estavam caindo pelas tabelas. Essa é uma das explicações de porque os clubes da Alemanha Oriental não conseguiram se desenvolver, pois, em muitos casos, foram vítimas desse capitalismo selvagem – pondera Wenzel.

DIFICULDADES FINANCEIRAS
O futebol no lado Oriental não sofreu apenas com o parasitismo dos antigos “rivais”, mas também com a falta de poder de investimento local. As indústrias e outros serviços sofreram com a queda do muro e não conseguiram manter uma devida saúde financeira sem o apoio que outrora recebia do Estado.

- Essas empresas foram praticamente desativadas por estarem obsoletas tecnologicamente. Economicamente, a Alemanha Oriental, no começo, teve que viver de subvenções da Ocidental. Isso também explica porque os clubes da parte Oriental, pós-queda, acabaram tendo uma vida mais ou menos vegetativa. Resistem mais do que sobrevivem.

O QUE O FUTURO RESERVA
O que exemplifica a superioridade ocidental no futebol pode ser vista no título da Copa do Mundo de 1990, com o título da Alemanha Ocidental, poucos meses antes da reunificação. Anos depois, em 2006, a Alemanha unificada sediava sua primeira Copa. No elenco, a ex-parte socialista estava presente e representada por jogadores importantes, como os defensores Schneider e Linke e os atacantes Jancker e Michael Ballack.

Apesar de ainda produzir bons atletas, o meia do Real Madrid, Toni Kroos, é um exemplo, a ex-parte socialista ainda passa por momentos de dificuldades com os clubes, que não conseguiram se restabelecer.

*sob a supervisão de Leonardo Martins