Obesidade no futebol: os desafios de uma atleta profissional contra a balança
Carreira em alto rendimento expõe luta diária contra o peso e o impacto na performance

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Imagine uma atleta nova, com passagem por dois dos clubes mais tradicionais do futebol feminino e um futuro promissor pela frente quase colocar um ponto final na carreira por causa do peso. Essa é a história da meio-campista Analu, de 20 anos, que passou por Santos e São Paulo e hoje, no Grêmio Mauaense, está recomeçando no futebol depois de enfrentar uma dura luta contra a balança.
Analu passou a encarar uma batalha silenciosa que envolve não apenas treino e alimentação, mas também saúde mental, autoestima e avaliação dentro de campo. A experiência escancarou como o peso corporal pode interferir na forma que uma atleta é observada, cobrada e até escalada, mesmo quando entrega desempenho nos treinos e nos jogos. Com acompanhamento nutricional e endocrinológico, ela tenta reconstruir a confiança e alcançar uma condição física que permita render o máximo sem abrir mão da saúde
— Eu sempre tive muita dificuldade em relação ao peso na minha trajetória, porém, o momento que mais me atrapalhou foi após a minha lesão, quando eu quebrei o 5º metatarso (osso do pé). Nos meses que eu fiquei de repouso e gesso, ganhei 15 quilos. Desde lá, as coisas complicaram muito. Quando eu digo sobre luta silenciosa é principalmente a minha luta mental. Às vezes, a gente acha que o problema do peso está só na alimentação e nos treinos, mas a verdade é que, se a cabeça não estiver boa, não adianta de nada — disse Analu em entrevista ao Lance!.
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A luta contra a balança passou a ser uma batalha diária dentro do próprio futebol. Analu passou a enfrentar julgamentos e dificuldades para dar continuidade à carreira e conquistar espaço nas equipes por onde passou.
— Render em campo acredito que seja difícil para qualquer atleta, tem dias e dias, mas para aquelas que têm dificuldade e estão acima do peso acaba sendo ainda mais. Também acredito que, em alguns momentos, fui avaliada visualmente e não com números e pelo que eu entregava nos treinos, e isso acabou me atrapalhando muito. 'Analu é acima do peso, não vai aguentar'"', sem ao menos tentar colocar para ver. Mas tive pessoas boas que acreditaram e me avaliaram com o que eu entregava nos treinos, e isso me ajudava a querer ser melhor e chegar o mais rápido na melhor parte física. Também acredito que, para aquelas treinadoras que acreditaram e me colocaram para jogar mesmo com essa dificuldade, não se arrependeram. Entreguei resultados e ajudei muito a equipe — comenta.
A obesidade em atletas de alto rendimento e a autoestima
Pode parecer contraditório imaginar que uma atleta, que treina diariamente e conta com acompanhamento médico e nutricional, enfrente problemas com a balança. Apesar da surpresa, o cenário é mais comum do que se imagina.
No futebol masculino, casos como Anderson Pico, Ronaldo Fenômeno e Walter ficaram marcados pela dificuldade em manter o peso ideal. No futebol feminino, Gláucia, atualmente no Palmeiras, já falou abertamente sobre o tema.
— O sobrepeso pode surgir mesmo para jovens que possuem uma rotina intensa de treinos. Normalmente, os casos mais comuns são de jovens que apesar da rotina de treinos apresentam superávit calórico no dia a dia, ou seja, consomem mais calorias do que gastam. No entanto, há casos de jovens atletas que estão com sobrepeso por conta de causas hormonais. As causas mais comuns são: alterações tireoidianas, especialmente o hipotireoidismo subclínico, que reduz o gasto energético basal; resistência à insulina que dificulta o uso eficiente da glicose e favorece o acúmulo de gordura; e disfunções ovarianas nas mulheres, como a síndrome dos ovários policísticos (SOP), que podem provocar irregularidade menstrual, retenção de líquido e maior tendência a ganho de peso explica a Dra. Marcela Perigrino, médica endocrinologia e nutrologia, proprietária da "Laiffe Clinic".
— Além do mais, qualquer atleta, seja jovem ou adulto, pode desenvolver um quadro chamado metabolic overtraining, quando há excesso de carga física sem recuperação adequada. Esse quadro eleva o cortisol, hormônio ligado ao estresse, que em níveis cronicamente altos promove aumento de apetite, retenção de líquido e redução de massa magra — completou.
O modo como o excesso de peso se instala no corpo da atleta também precisa ser analisado. De acordo com a nutricionista esportiva Monique Comar, o processo tende a ser progressivo, o que dificulta a percepção imediata das perdas de rendimento dentro de campo.
— O impacto do peso corporal no desempenho técnico e físico no futebol não ocorre de uma vez, ele aparece de forma gradual, dependendo do teor de gordura, força relativa, função metabólica, posição em campo e fase da temporada. Mas o ponto crítico do qual a performance começa a cair, segundo os estudos e a prática esportiva mostram um padrão consistente: A partir de +2 a +3% acima do percentual de gordura ideal da atleta — aponta.

Além dos impactos físicos, o excesso de peso também afeta o aspecto emocional da atleta. Em um esporte marcado por padrões corporais e alta cobrança por rendimento, questões ligadas à imagem e à autoconfiança passam a interferir diretamente na trajetória profissional.
— O físico pesa por conta da autoestima, porque atletas de futebol acabam tendo um padrão, e quando você é diferente isso acaba mexendo com a gente. O emocional principalmente porque futebol é o meu sonho, e quando você pensa em acabar antes de realizar tudo que você almejou é complicado — explica Analu.
— Sim, tinha medo de não entregar o que as profissionais esperavam, tinha medo do uniforme não ficar bom, ficar apertado, tinha medo de não conseguir entregar tudo em um jogo e as pessoas usarem a minha parte física como 'desculpa' — conclui.
Diferenças do sobrepeso em atletas e pessoas "comuns"
A comparação entre o excesso de peso em atletas e em pessoas fora do esporte de alto rendimento exige cautela. Embora o número na balança possa ser semelhante, o contexto físico e funcional é diferente, já que quem vive o esporte profissional mantém rotinas intensas de treino e demandas específicas de performance, o que muda a forma como o corpo responde ao peso extra.
— A comparação entre o excesso de peso em atletas e em pessoas fora do esporte de alto rendimento exige cautela. Embora o número na balança possa ser semelhante, o contexto físico e funcional é diferente, já que quem vive o esporte profissional mantém rotinas intensas de treino e demandas específicas de performance, o que muda a forma como o corpo responde ao peso extra — explica a Dra. Marcela Perigrino.
Para um atleta de alto rendimento, o sobrepeso tem impacto ainda mais significativo.
— Em muitos momentos. Eu sei que, para ser atleta, você precisa ter o melhor corpo para entregar o seu melhor. Não tiro essa responsabilidade de mim e sei que muitas vezes falhei. Reconheço que isso é uma luta minha comigo mesma e que as pessoas da área estão tentando entregar o melhor assim como eu, então, desde já, não culpo ninguém pelos meus atos e pela minha forma física — desabafa Analu.

Como os clubes influenciam o cuidado com o corpo
A forma como as instituições esportivas lidam com o tema passa a ser determinante para o desenvolvimento da atleta. Mais do que cobrar resultados imediatos, o ambiente precisa oferecer suporte adequado para que o processo físico aconteça de maneira segura e sustentável.
— O clube é responsável por garantir as condições estruturais e organizacionais para que o acompanhamento nutricional aconteça de forma contínua e eficiente e a comissão técnica é responsável por integrar a nutrição ao modelo de jogo e ao plano de desenvolvimento físico-técnico — disse Monique Comar.
— Uma atleta de 19 anos que vive "em batalha constante contra a balança" não precisa de mais regras, ela precisa de uma orientação que combine ciência, acolhimento e estratégia. O que define sua evolução não é o peso isolado, e sim a sua força relativa, sua composição corporal, sua capacidade de recuperação e sua consistência de treino — seguiu a nutricionista.
Os riscos e a sensação de 'nova vida'
Segundo a endocrinologista Marcela Perigrino, a pressão por resultados imediatos pode levar atletas a decisões arriscadas quando o emagrecimento vira prioridade absoluta, o que pode comprometer a saúde e trazer prejuízos à carreira.
— O maior risco é esse atleta não procurar um médico especialista no assunto e adotar métodos radicais e, na grande maioria das vezes, prejudiciais à saúde. A saúde sempre deve vir em primeiro lugar. Depois temos outros riscos que é esse atleta fazer uso de substâncias e remédios sem indicação ou acompanhamento médico e que podem fazer com que seja pego no doping — explicou.
Após um período marcado por instabilidade física e emocional, Analu vive uma nova fase na carreira. Com acompanhamento profissional e rotina mais estruturada, a meio-campista busca alcançar uma condição corporal compatível com as exigências do futebol de alto rendimento e retomar a regularidade dentro de campo.
— Mudou totalmente minha cabeça e a forma como eu me amava e cuidava mais de mim mesma. Foi mágico voltar a jogar. Começou pelo vestiário: quando você veste o uniforme e aquela camisa que não cabia começa a caber, os olhares começam a mudar também — disse Analu.
— Agora tenho uma preocupação a mais, porque eu tenho muito receio de voltar ao peso que eu tinha ou de voltar a ter a dificuldade que eu tinha. Isso me ajuda ainda mais a focar, me alimentar melhor para a vida, porque eu sei que, se eu não focar e não treinar no dia a dia, não fazer treinos por fora, isso tudo pode voltar e pode voltar a me atrapalhar. Eu não cheguei ainda na forma que eu deveria chegar, não estou ainda no meu auge, no meu corpo em que eu renderia 100%, mas estou buscando para estar totalmente preparada. Estou treinando por fora dos períodos, tentando comer certo, tentando perder o quanto eu consigo em pouco tempo, porque o futebol não espera, então a gente tem que pegar pesado. Essa é a parte ruim do futebol: quanto mais velha você fica, mais difícil fica ainda. Mas acredito que, com o treino, a alimentação e esse receio, esse medo de voltar a pesar tudo aquilo que eu pesava antes, isso ajuda a não querer voltar. Isso te faz ter mais força de vontade, mais disciplina, mais resiliência, e assim a gente vai chegando no nível que tem que chegar — concluiu.
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