Lara

O Deportivo Lara não conseguiu jogar  contra o Cruzeiro por  apagões aéreos e de energia elétrica que o impediu de chegar a Belo Horizonte-Divulgação Deportivo/Lara

Valinor Conteúdo
18/03/2019
20:33
Belo Horizonte

Desde que o Cruzeiro teve o seu jogo contra o Deportivo Lara, da Venezuela, adiado duas vezes, passando para o dia 27 de março, quarta-feira, após estar inicialmente marcado para o dia 13 e depois para o dia seguinte, 25 de março, por dificuldades do time venezuelano sair do seu país e chegar ao Brasil, alguns questionamentos foram levantados sobre a capacidade das equipes do país vizinho em disputar a Libertadores.

A Venezuela vive talvez o seu pior momento como povo na sua história com uma crise econômica, humanitária e política que está afetando sua população em todas as áreas, inclusive no esporte. O Lara não saiu de território venezuelano por não conseguir um transporte aéreo direto para o Brasil, pois os aeroportos estão em constantes paralisações por falta de estrutura mínima como energia elétrica, afetando todos os serviços aeroviários do país.

Em tentativa desesperada de chegar a Manaus e fazer uma conexão para Belo Horizonte, o Deportivo Lara percorreu 1500 km de sua sede, na cidade de Cabudare, para Valência, onde tentou alugar um avião. Porém, não foi possível, pois a empresa contratada não tinha autorização da ANAC(Agência Nacional de Aviação Civil), órgão brasileiro que regula nosso espaço aéreo, para fazer a viagem.

A expectativa que o Lara consiga uma solução para vir ao Brasil na quarta-feira dia 27, e jogar contra o Cruzeiro para não perder o jogo por WO com 3 a 0 para a Raposa.

Mas afinal de contas, o que está acontecendo na Venezuela, que paralisa o país e aflige a sua população, com reflexos diretos no esporte?

Para entender como o contexto social, político e econômico da Venezuela afeta o esporte e coloca em risco os clubes locais de serem até eliminados da Libertadores, o LANCE! fez um resumo da atual situação do país.

1 - Crise política e disputa pelo poder

O caos social e econômico da Venezuela tem origem em uma grave crise política, que pode ser atribuída à ascensão de Hugo Chávez ao poder, em 1999, usando da força militar para s manter no poder até 2013, quando morreu, mas deixando a semente do seu regime, longe de ser uma democracia, plantada.

Em seu lugar assumiu o atual comandante do país, Nicolás Maduro, que tem se perpetuado no poder há anos e usa de forma sistemáticas os recursos do país para garantir a permanência no governo e de seus aliados. Maduro controla o poder judiciário e os militares e a única instituição que faz oposição é a Assembleia Nacional, que é a versão deles do nosso Congresso.

Em 2009, em seu segundo mandato, Chávez conseguiu, por meio de um referendo com voto popular, aprovação para alterar a Constituição e mudar a regra de reeleição para presidente. Desde então, os presidentes venezuelanos passaram a poder concorrer a reeleições sem limites, demonstrando a alta concentração de poder em um mesmo grupo político, alijando do processo opositores.

O chavismo foi uma construção de projeto de poder que se fortaleceu na primeira eleição de Hugo Chávez, que se baseou em uma atuação grande do Estado no dia a dia da população, usando programas de caráter social para a população mais

Funcionou por um tempo, mas não houve um trabalho econômico sustentável para manter as demandas da população pobre de forma estável.
Chávez usava como base de seu modelo econômico as grades reservas de petróleo que o país possui para sustentar o seu regime, o que gerou instabilidade com o tempo, principalmente com as sanções aplicadas a compradores do óleo venezuelano, como os Estados Unidos, maior comprador e que sempre era o alvo principal de críticas de Chávez pela suposta política imperialista dos norte-americanos.

2 - Crise do petróleo

Apesar do caos econômico, a Venezuela deveria ser um país rico e bom para o seu povo, pois há recursos suficientes para isso. Os mares e territórios venezuelanos têm as maiores reservas de petróleo do mundo, mas o recurso é praticamente a única fonte de receita externa do país, pois faltou algo longo dos anos Chávez e atualmente com Maduro, investimentos para o desenvolvimento de outras áreas econômicas do país.

Após a Primeira Guerra Mundial, vários governos venezuelanos colocaram o desenvolvimento agrícola e industrial de lado para focar em petróleo, que hoje responde por 96% das exportações. O país recebeu cerca de 750 bilhões de dólares provenientes da venda de petróleo em 2013, que foram aplicados em medidas paliativas sociais e não em uma estrutura econômica sólida.

Todavia, em 2014, o preço do petróleo caiu muito, deixando a Venezuela com altos estoques e tendo de vender a preços baixos, o que inviabilizou a economia, destruindo a indústria local.

A Venezuela depende muito de importações de alimentos e medicamentos e até pneus e peças de reposição para o sistema de transportes, o que dificulta até os deslocamentos internos no país, e, claro viagens internacionais. O dinheiro para importação rareou, gerando desabastecimento, faltando até papel higiênico nos supermercados.


3-Crise humanitária

A falta de um processo econômico e político estável, levou a um colapso social. A crise venezuelana não é um fato de 2019. Um dos principais problemas do país neste momento é a fome do seu povo, que já fez os venezuelanos perderem, em média, 11 quilos no em 2018 por falta de alimentação.
Aliada à falta do que comer, com supermercados sem mercadorias, por falta de produção interna de alimentos e sem estrutura para importações, o país vizinho também está assolado em um alto índice de violência, pois o povo não possui recursos para trabalho e acabam se entregando a criminalidade, o que esvazia as ruas das grandes cidades quando anoitece. Essa a situação provoca um êxodo em massa para países vizinhos, incluindo o Brasil para buscar melhores condições de vida.

A Venezuela está a 12 trimestres seguidos com retração econômica, de acordo com a Assembleia Nacional Venezuelana. Entre 2013 e 2017, o PIB venezuelano teve uma queda de 37%, uma queda que supera todos os países da América Latina.

Para o advogado internacionalista e professor de Direito Internacional do IBMEC, Dorival Guimarães Pereira Júnior, a única solução para iniciar o processo de recuperação da Venezuela é a saída imediata de Nicolás Maduro e seus aliados, dando a chance do país ter um governo eleito de forma democrática, sem interferências do poder de origem chavista. Ele comentou que o problema no futebol é um reflexo direto da crise em todas as áreas venezuelanas.


- O contexto do futebol é reflexo da crise. Houve até a paralisação do campeonato local com a recusa dos times de jogarem. A grande questão é que o processo eleitoral da venezuela estava contaminado. Maduro assume depois da morte do Chávez e em maio de 2018 foi reeleito, mas, as duas eleições foram um processo com fraudes. Porém, a situação está num patamar tão catastrófico para o povo que pela primeira vez a posição se uniu havia e conseguiu ter a maioria dos parlamentares na Assembleia Nacional, tendo inclusive destaque de deputado Juan Guiadó que se tornou uma liderança e até se encontrou com líderes estrangeiros, o que pode ser uma esperança futura para a Venezuela-disse.

Dorival explica que a atual crise tem gerado apoio internacional para os oposicionistas de Maduro, o que pode ajudar internamente numa queda do atual governo.

-O governo começa a sofrer pressão internacional. A venezuela tem as maiores reservas de petróleo do mundo ainda sim há um sucateamento da economia. O governo Maduro não consegue exportar seu principal produto, pois com as sanções, não tem dinheiro para refinar sua produção e vender. Como falta energia num país com tantas riquezas-questiona.

Por fim, o advogado avisa que a crise no país vizinho só terá fim se a comunidade internacional aumentar a pressão, ainda mais depois da recusa de Maduro de receber ajuda humanitária de outras nações.

-A crise que era econômica, se tornou humanitária com falta comida, medicamento; Alguns países estão enviando ajuda e isso gera mais pressão internacional já que o governo tem recusado esse auxílio. O apagão geral na Venezuela levou à morte de pessoas, os comércios estão fechados. Alguns supermercados estavam dando comida para a não estragar. As dificuldades do Deportivo Lara são reflexo de todos os problemas. os dramas é um reflexo da sociedade. O país está agonizando. Sem a queda de maduro, não tem solução. Ele aparelhou o estado. Enquanto for a força o povo vai sofrer. A causa não é política ou ideológica. É humanitária-concluiu.

Além do Deportivo Lara, outra equipe venezuelana pode ter dificuldades de conseguir se manter na disputa da Libertadores. O Zamora, que é adversário do Atlético-MG no Grupo E da competição sul-americana, deverá ter complicações parecidas com o seu compatriota para realizar seus jogos fora da Venezuela.

E o Galo, vendo a situação Cruzeiro, já deve estar atento, pois recebe o Zamora no Mineirão, no dia 3 de abril. O rival do alvinegro conseguiu fazer seus dois jogos no torneio em casa diante do Nacional-URU, derrota por 1 a 0, e contra o Cerro Porteño, outro revés diante os paraguaios por 2 a 1, em Assunção.

Os mineiros terão de aguardar os próximos desdobramentos para terem certeza poderão receber os times da Venezuela em casa, mas principalmente organizar a logística de viagem para o vizinho que neste momento precisa de muita ajuda para o seu povo, que vai além de compreensão esportiva.