John Textor - Botafogo

O norte-americano John Textor já caiu de vez nas graças da torcida do Botafogo (Foto: Vítor Silva/Botafogo)

Rafael Ribeiro
24/05/2022
07:40
São Paulo (SP)

Ele não é jogador, tampouco brasileiro. Mas é o novo queridinho da torcida do Botafogo: John Charles Textor. O homem branco, de meia idade e bochechas rosadas se tornou algo muito além do acionista majoritário da SAF do Botafogo. O fato desse estadunidense de Kirksville - cidade cuja população de 16.988 habitantes não encheria sequer um setor do estádio alvinegro - ter elevado o nível do Glorioso já o fez cair nas graças da torcida botafoguense. E o gringo, que foi de skatista profissional a 'guru do streaming', enfim parece aproveitar cada momento de uma veneração que parece ter nascido pronto para desfrutar.


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Não, não é exagero. Pequeno 'redneck' (como são chamados de forma pejorativa os homens brancos que moram no interior daquele país) do Missouri, Textor sempre flertou com uma fama que nunca alcançará até assumir as rédeas do Glorioso. Flertou com o futebol americano na universidade, caminho natural para os jovens do centro-oeste estadunidense, mas acabou caminhando para o skate, onde por mais que tenha construído uma carreira de relativo sucesso nos anos 1970 e 1980, sempre permaneceu à sombra do octacampeão mundial Rodney Mullen, uma lenda do esporte.

Uma grave lesão na cabeça abreviou a carreira de esportista de Textor, que durante o período de incertezas que rondou sua recuperação se apaixonou pelo futebol. Com a realidade de clube-empresas ainda distante, seguiu para o tradicional caminho do empreendedorismo norte-americano e foi nos anos 1990, com o advento da internet, que começou a montar sua fortuna.

Todo mundo pode admirar alguém que acumula fortuna com bancos e transmissões de eventos digitais. É chamado pela revista 'Forbes' de 'guru' e tem uma empresa que acumula oito estatuetas do Oscar de efeitos especiais na estante. Mas só o esporte é capaz de transformar o mero culto à personalidade em devoção. E como conhecedor do futebol, Textor sabia que o esporte mais popular do mundo poderia lhe fornecer as ferramentas necessárias não só para o lado profissional, de investidor, mas também pessoal, de ego, por que não?

'Para o homem que tem tudo'

O primeiro alvo para entrar no futebol, agora aberto ao modelo empresarial de gestão, foi a milionária Premier League inglesa. Em agosto de 2021 acertou a aquisição de 18% do Crystal Palace.

Apesar de ser considerado pequeno, o clube do sul de Londres tem uma torcida considerada fanática, que quase descumpre a obrigatoriedade de se ver jogos sentados na terra da Rainha. A diferença é que lá Textor é sócio minoritário e visto com desconfiança, algo normal com os britânicos quando se trata de investidores vindos dos EUA.

Havia uma ganância pessoal do próprio Textor em, primeiro, ter controle total das ações, e, em segundo, sentir de perto esse reconhecimento pessoal trazido pelo futebol. Foi então que surgiu o Botafogo. E o casamento foi celebrado com uma paixão que parece não ter data para acabar.

– É interessantíssimo ver essa química. Sem dúvida o torcedor abraçou o Textor e com um olhar muito carinhoso, de muita esperança. Acho que passa muito pela personalidade dele de interagir, de desafiar, mostrar uma visão inovadora. O torcedor estava vivendo uma realidade dura há vários anos, muito apertada, e de repente surge uma possibilidade de fazer o Botafogo uma potência novamente da noite para dia. É contagiante - destacou o CEO do Botafogo, Jorge Braga.

Carisma ou não, Textor atendeu as expectativas iniciais. Fez um investimento inicial de R$ 410 milhões e absorveu a dívida de R$ 1 bilhão do Glorioso para assumir 90% do controle. E já gastou mais de R$ 65 mi em 12 reforços contratados para o clube neste Brasileirão.

- Como não idolatrar alguém que chega no nosso clube do coração disposto a investir, melhorar e, além de tudo, se conectar com a nossa paixão? John Textor poderia ser apenas um bilionário burocrata pensando apenas em lucros. Mas vemos seu envolvimento com o clube, suas idas aos estádios, sua forma de torcer. John Textor entrou como investidor e, no processo, se tornou botafoguense - destacou o humorista alvinegro Maurício Meirelles, ao LANCE!.

A opinião dele é compartilhada por outros botafoguenses ilustres. Marcelo Adnet, outro humorista com ligação íntima com o clube, presidindo inclusive a Botafogo Samba Clube, escola de samba formada por torcedores, também aponta para a esperança dos alvinegros em dias melhores como o principal fator para a adoração da torcida.

- Milionários tem essa questão do ego. E quer coisa melhor para o ego do que assumir um clube com uma torcida apaixonada, esperançosa de conquistas, disposta a abraçar a mudança? Os resultados em campo mostram que Textor veio não só para ser um homem frio de números e cálculos. O envolvimento foi instantâneo por causa disso. Ambos os lados buscavam os mesmos objetivos.

Influenciador digital mais famoso do Brasil, Felipe Neto já patrocinou a camisa do Glorioso e ajudou o clube publicamente com recursos financeiros para a contratação de reforços. Por meio de suas redes sociais, ele deu uma espécie de aval público ao investidor estrangeiro.

- Me sinto esperançoso. Conversando com o próprio Textor, percebendo o quanto ele está preocupado com todos os setores, não só com o futebol, que tem que ser a prioridade, mas também com marketing, formação de torcida, estádio, todos os aspectos. Estamos vivendo os primeiros passos de uma época que vai entrar para a história do Glorioso. Isso me arrepia só de pensar. A torcida tem que embarcar junto, como está fazendo - escreveu Neto.

Respaldado, Textor assume seu lado carioca

O Botafogo é o quinto colocado do Brasileirão, com os mesmo 12 pontos do vice-líder Palmeiras. É a melhor campanha do clube em anos. No Estádio Nílton Santos, a torcida dá show. Empolgada e motivada, já superou a marca de 100 mil pagantes e tem a segunda melhor média de público da competição nacional.

A 'textormania' dos alvinegros é só um capítulo do livro de 2022 do Fogão. Mas certamente é o tomo que abre a edição. E é o mais volumoso.

John Textor
John Textor já foi até tietado na balada (Foto: Reprodução)

Mal o gringo pisou no Rio de Janeiro e já foi alvo de demonstrações de carinho dos botafoguenses. Recebeu uma nota de R$ 20, convite para ser padrinho de casamento, de criança, desfilar em escola de samba...

Aos poucos, Textor foi se adaptando ao estilo Glorioso de ser, o que fez a idolatria aumentar ainda mais. Provavelmente com um tradutor à mão, responde um por um os torcedores nas redes sociais.

As cenas recentes, com o investidor indo para a galera, são a cereja do bolo de um final de semana onde ele apareceu publicamente curtindo uma animada casa noturna carioca e conheceu pela primeira vez seus pares brasileiros ao ir a São Paulo (SP) assinar a filiação do clube alvinegro à Libra (Liga Brasileira de Clubes). Durante essa semana, acabou presenteado com o título de cidadão fluminense concedido pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

- Se não houver química entre as partes, se não houver entendimento, nenhum negócio acontece. No Botafogo percebemos que essa sinergia aconteceu instantaneamente. O estilo de trabalho do Textor casou com os interesses do torcedor, então aqui (no Botafogo) isso não parece que vai ser um problema - completou o CEO Jorge Braga.