Roberto Assaf
28/06/2017
08:50
Rio de Janeiro

"Faz 15 anos que o Brasil ganhou seu quinto e derradeiro título mundial, o primeiro e único sem a participação de Zagallo, campeão como jogador em 1958 e 1962, treinador em 1970 e coordenador-técnico em 1994. O Velho Lobo ainda esteve em 1974, 1998 e em 2006, nas duas primeiras dirigindo o time, e na última, a exemplo do que ocorrera no torneio realizado nos Estados Unidos, auxiliando Carlos Alberto Parreira.

Na realidade, à exceção de 2006, quando caiu nas quartas de final, com a derrota de 1 a 0 para a França, a presença de Zagallo foi sempre eficiente. Em 1974, o Brasil ficou em quarto lugar. E em 1998, vice.

Hoje, aos 87 anos de idade, o veterano treinador, é claro, acompanhará a Copa da Rússia pela TV. Logo, se o Brasil conquistá-la, o fará pela segunda vez na história sem a sua colaboração. Vale lembrar, e esclarecer aos mais jovens, que Zagallo é sobretudo, e indiscutivelmente, como se nota, uma lenda do futebol. Dentro e fora do campo. Mas o que vale é discutir agora como será possível ganhar outro título sem o Lobo, como ocorreu em 2002.

Ora, em 1958 e 1962, a Seleção tinha Didi, Garrincha e Pelé. Mas Zagallo era o homem que atacava e defendia com a mesma regularidade, dando ao time o equilíbrio necessário, capaz de fazê-lo jogar exatamente de acordo com as circunstâncias de cada ocasião.

Em 1970, Zagallo teve papel relevante como técnico, pondo em prática três providências básicas. Pôs a equipe para jogar no 4-3-3, esquema distinto daquele que disputara as eliminatórias, pois enfrentaria na Copa adversários mais fortes e experientes. Soube aproveitar todos os principais craques disponíveis, contrariando os que insistiam em garantir que Tostão e Pelé não poderiam jogar juntos, e que Rivelino não se adaptaria como terceiro homem de meio-campo. E deu liberdade para os comandados improvisarem em campo, caso percebessem que seria preciso agir assim, sem qualquer comunicação prévia.

Um exemplo que se tornou clássico ocorreu contra o Uruguai. Montero Castillo marcava Gérson como um carrapato. O Canhotinha trocou de posição com Clodoaldo. A mudança confundiu o volante da Celeste. No fim da etapa inicial, o próprio Clodoaldo foi além, surgindo como centroavante, para empatar um jogo no qual o Brasil não acertava quase nada. E no qual acabou ganhando por 3 a 1.
Em 1994, como coordenador-técnico, o Velho Lobo não só participou efetivamente na formação da equipe, como contribuiu, a exemplo de 1970, para manter os principais nomes que estavam em evidência no grupo que foi aos EUA – não houve quem alegasse alguma injustiça na convocação. Como se não bastasse, Zagallo funcionou como um autêntico pára-raios para Parreira, extremamente cobrado por mídia e opinião pública, inclusive após a Copa.

Em 2002, enfim, o Brasil ganhou um Mundial sem ele. Seria exagero falar em segredo – palavra tão comum em tais ocasiões – na conquista do penta, e como foi possível obtê-lo sem o Lobo. Afinal, o Brasil tinha um excelente goleiro, São Marcos, e quatro grandes jogadores – Roberto Carlos, Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo e Ronaldo – o suficiente para disputar o torneio como favorito.
No entanto, seria absurdo tirar o mérito do treinador, por mais que se possa contestá-lo pessoalmente. Luiz Felipe Scolari assumiu a Seleção no pior momento das eliminatórias, quando as chances de classificação para a Copa eram questionáveis. Descartou a presença de Romário, cuja presença era exigida pelo país, alegando que o craque havia quebrado a sua confiança. E foi bem além, apostando efetivamente em Rivaldo e Ronaldo, que se recuperavam de contusões graves, e cujas presenças eram vistas por todos com reservas.

E embora os momentos fossem distintos, Scolari, como Zagallo em 1970, tratou de fazer o simples, ou o lógico, aproveitando o que havia de melhor, sem maiores complicações. Curioso, o futebol. Parreira, em 2006, tendo ao seu lado um Zagallo já veterano, e quem sabe superado, depois Dunga, discípulo de Scolari, em 2010, e por último o próprio técnico do penta, em 2014, trataram de embaralhar as cartas, contrariando o óbvio.

Parreira e Zagallo deram liberdade excessiva aos jogadores, ajudando a tornar a presença do Brasil Copa da Alemanhá uma verdadeira festa – fora do campo, é claro. Dunga e Scolari insistiram com o chamado grupo fechado, e dada a fragilidade de boa parte do grupo, se viram sem soluções na hora mais decisiva.

Ambos foram protagonistas, como treinadores, dois momentos patéticos em Copas, uma conseqüência da impossibilidade de reação. O do ex-apoiador ocorreu no segundo tempo da derrota de 2 a 1 para a Holanda, em Port Elizabeth, e o de Scolari depois que a Alemanha fez o terceiro dos sete gols em menos de meia hora.

Uma nova Copa está a caminho. Não existe perfeição. Mas pelo que mostrou até agora, Tite, o novo comandante, não herdará o ufanismo que vez por outra traía Zagallo, o apego radical à formação das “famílias” que marcaram Dunga e Scolari, e nem aos problemas que surgem quando os técnicos percebem que são próprios de suas teimosias. Todos, e não importa a dose do bom ou do pior de cada um, servem de exemplos. Ma se Tite souber se espelhar no melhor de Zagallo, mesmo que os tempos sejam outros, o hexa já está no papo."

Roberto Assaf é jornalista, historiador e autor de diversos livros sobre a história do futebol.