Calleri

A mãe de Calleri, que impressiona pela semelhança com ele, as irmãs Guadalupe e Estefania e o pai Guillermo na casa dos Calleris em Buenos Aires. Eles abriram as portas para o LANCE! (Foto: Marcio Porto)

Marcio Porto
10/03/2016
07:05
Enviado especial a Buenos Aires (ARG)

Do bairro da Floresta, passando por La Boca, Morumbi. O São Paulo não estará sozinho para jogar sua vida na Libertadores hoje, às 19h30, contra o River Plate (ARG), no Monumental de Nuñez. O retorno do atacante Jony Calleri ao seu país de origem vestindo tricolor une três torcidas e faz do centroavante um personagem central do duelo em Buenos Aires.

O ex-jogador do Boca Juniors, eterno rival do River, chegou nesta quarta-feira à tarde à capital argentina com a delegação tricolor e foi, de longe, o mais procurado pela imprensa local. Entrou ao vivo nas redes de televisão, ganhou manchetes pelo seu passado xeneize, referente ao Boca. E, no local do confronto, a reportagem do LANCE! foi atrás da origem e história da principal esperança do técnico Edgardo Bauza para seguir vivo na Liberta.

Somos todos All Boys, onde tudo começou

Apesar de ter vindo direto do Boca, foi no modesto All Boys, atualmente na segunda divisão argentina, que o hiperativo Calleri nasceu para o futebol. Não é por menos: é lá que estão as raízes da família. Um tio por parte de mãe é conselheiro vitalício do clube. A irmão mais velha, Estefania, de 19 anos, é estudante de jornalismo e trabalha numa rádio dos Boys. Já o pai, Guillermo Calleri, foi jogador do clube na década de 1980. Não teve sucesso, mas a relação o permitiu ser um dos primeiros treinadores do filho. Privilégio? Nem pensar.

– O início dele foi muito difícil. Eu era o técnico e o cobrava mais que os outros, para que não dissessem que jogava porque era meu filho. Mas ele se sacrificou muito. No dia do aniversário de 15 anos da irmã, estreou pelo Boca e não foi. Não tinha casamento, álcool, noite. Mas ao mesmo tempo foram valores importantes que estabelecemos – conta o pai, orgulhoso, na simpática casa no centro de Buenos Aires onde recebeu o L! ao lado da esposa Bettina e das filhas Guadalupe, de 16 anos, e Estefania.

Calleri jogou no All Boys desde os seis anos. Passou por todas as categorias de base, até ser promovido ao profissional em 2013, com 19 anos, pelas mãos de Júlio César Falcioni, técnico do Boca que perdeu a Libertadores para o Corinthians em 2012. Dali para um dos gigantes argentinos foi um pulo. Começava a se desenhar a trajetória de sucesso do menino que não suportava perder nem no baralho e que mais tarde encantaria a torcida do São Paulo com três gols nos dois primeiros jogos.

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Calleri (o segundo da direita para a esquerda) na base do All Boys. Detalhe: menor, fica na ponta dos pés para se igualar aos companheiros no tamanho (Foto: Marcio Porto)


– Jony sempre foi inquieto, hiperativo. Estava toda hora fazendo alguma coisa: jogando cartas, tênis, pingue-pongue e odiava perder. No campo, era magrinho, fraquinho, mas brigava muito e assim conseguiu vencer, nunca desistia- conta Mario Escuder, o “Marito”, roupeiro do All Boys há mais de 35 anos e tido pela família como um pai para Calleri. A entrevista com ele foi em meio a fotos do atacante e uniformes dos Boys, resquícios de sua vida no pequeno clube do bairro da Floresta, em Buenos Aires.

– O impressionante é que ele começou a se destacar quando o All Boys caiu. Mesmo não fazendo gols, sempre jogava bem. Ele tem coragem e cresce nos momentos difíceis - completou Marito.

A paixão por "la doce"

De fato, Calleri precisou de apenas um semestre e cinco gols para convencer os dirigentes do Boca de que tinha potencial. Em meados de 2014, se despediu da camisa 27 do All Boys e assumiu a do gigante. Por lá, fez 16 em 42 jogos, marca suficiente para torná-lo goleador do time na campanha do título argentino ano passado, ao lado de Tevez. Ele queria fazer história em La Bombonera, mas fez um plano e os dirigentes fizeram outro.

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Na casa de Calleri, lembranças da época de Boca (Foto: Marcio Porto)


- Jony foi procurado pelo mercado europeu, mas o Boca ia vender em junho agora, sempre deixou claro que ia vendê-lo. Falava-se muito nisso, que a cotação dele era alta, e para o clube era importante. E nós queríamos junho, mas a decisão de Boca foi outra, contar com esse dinheiro, e pensar em contratar jogador. Trouxe Osvaldo (ídolo do clube), e no aspecto esportivo não sei se seria o melhor para ele. Não ia jogar. Hoje é outra realidade, Jony está no São Paulo, contente e tem objetivos, quer ser campeão - explica o pai.

Era hora de se despedir de La Boca e seguir ao Brasil. Parte do coração de Calleri, porém, ficou na Argentina. Assim que chegou ao São Paulo, escolhe a camisa 12, em homenagem a "La Doce", maior organizada do Boca. O bom início no clube brasileiro também não o impediu de seguir acompanhando o ex-clube. Em seu Instagram, Jony sempre posta fotos de sua passagem pelo clube verde amarelo. Não esconde que tem saudade e que gostaria de ficar. Ficou a boa performance.

Hora de ser Monumental

Os bons números pelos Xeneizes se somam à motivação por enfrentar o maior rival do Boca e fazem o "team Jony" crer que o filho do bairro da Floresta, sede do All Boys, virará um leão no Monumental de Nuñez e deixará para trás a marca de oito jogos sem marcar pelo São Paulo.

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Marito, roupeiro do All Boys há mais de 35 anos, aponta para foto de Calleri, campeão do torneio infantil em 2006 (Foto: Marcio Porto)


- Ele vai jogar como qualquer partida, mas claro que a motivação de jogar com River será muito boa, e o fato de ser do Boca, o estádio, que os torcedores vão lhe xingar, tentar apavorar... E isso vai fazer bem a ele, porque cresce nesses momentos. E tomara ele faça gol e saia vencedor - profetizou Marito, tão querido por Jony.

Que o roupeiro do modesto All Boys esteja certo é tudo que o são-paulino espera!