Ana Claudia Lemos, atleta de Atletismo brasileiro

Ana Cláudia Lemos planeja recuperar o corpo para o Campeonato Mundial de 2017, em Londres (Foto: Marcos Alves)

Jonas Moura
02/12/2016
08:05
Rio de Janeiro (RJ)

Se há uma atleta brasileira que torce para 2016 acabar logo, esta é Ana Cláudia Lemos. Maior esperança do atletismo brasileiro nas pistas, a cearense ainda tenta se reerguer após uma suspensão por doping e um corte às vésperas dos Jogos Olímpicos do Rio.

Flagrada em março por uso de Oxandrolona, um esteroide anabolizante, a velocista cumpriu suspensão de cinco meses. A defesa comprovou houve contaminação cruzada de um medicamento utilizado por ela. No retorno, levou a ansiedade para os treinos e sofreu um desgaste na cartilagem do joelho direito, o que a retirou da Rio-2016.

Em entrevista exclusiva ao LANCE!, Ana relembrou o período, projetou seus próximos objetivos na carreira e disse apoiar a atual rigidez nos procedimentos da Agência Mundial Antidoping (Wada, em inglês) após tantos casos no mundo.

LANCE!: Após perder os Jogos por causa da lesão, como você está agora?
Ana Cláudia: Ainda estou me recuperando. Continuo com uma inflamação no joelho. O planejamento está voltado para o Mundial, em agosto do ano que vem, quando espero conquistar meu melhor resultado nos 100m e nos 200m. Quero melhorar minhas marcas e estabelecer novo recorde sul-americano. Agora, estou feliz. Foi um ano bem ruim. Fiquei mais chateada por não competir no Rio.

L!: Você perdeu seu clube, o BM&F Bovespa, e patrocinadores depois do caso de doping. Como está sua preparação agora?
AC: A Marinha, hoje, é minha única fonte de renda. Estou sem clube. Agora, é bola para frente. Tenho de recuperar o tempo perdido. Só o que interessa são os resultados na pista. Vou trabalhar duro como sempre fiz na minha carreira. Tudo o que vier, será bem-vindo. Mas não posso ficar desesperada agora pensado nisso.

L!: Quando deve voltar às pistas?
AC: Quando acabarem os Jogos, fiz exames e fui descansar a cabeça. Estava precisando. Em setembro, comecei a tratar. É uma lesão chata. Não é como a muscular, que tem um tempo de recuperação. Tem de esperar a resposta do seu corpo.

L!: Acredita que a ansiedade por tudo o que viveu prejudicou seu retorno perto da Olimpíada?
AC: Eu já vinha de uma semana forte de treinamentos e acabei sobrecarregando nos treinamentos. Juntou com a adrenalina de receber muitas notícias boas, com o fim da suspensão. Faltou um pouco de cautela da minha parte, sim. Eu queria muito mostrar resultado.

L!: Que balanço faz deste ano?
AC: Foi um ano de aprendizado, como pessoa e atleta. Quando você passa por um processo de doping, aprende a se colocar no lugar do outro. Só o atleta sabe o que é isso. É interessante contar para as pessoas, pois você tem uma visão diferente. Perde-se muito, mas você conhece quem está ao seu lado e quem não está. Como velocista, não tenho muita paciência, mas aprendi a ter. Tive de respeitar prazos de julgamento e depender dos outros.

L!: O que passou pela sua cabeça no período do doping?
AC: Quando recebi a notícia do doping, só queria que a verdade aparecesse. Eu não sabia o que tinha acontecido, até que a análise de suplementos enviada para a UFRJ e depois para Montreal, constando a contaminação. Depois, tive de esperar. Pensei em parar, em desistir, mas ao mesmo tempo dizia: “se eu fizer isto, estarei fraquejando no caminho”. Seria ir contra minha personalidade, minha história e minha carreira. Depois de tudo, os problemas ficam até pequenos. Lesões eu sempre tive. Damos muita porrada no corpo, e ele sente. Estou mais cautelosa agora. O que tiver de vir, virá. Não adianta forçar.

L!: O que prevê do atletismo brasileiro para 2020, em meio ao momento delicado do país no investimento nos esportes?
AC: Acho que aprendemos com a Olimpíada do Rio. As novas gerações estão vindo. Só que precisamos de investimento. Quanto mais apoio, melhor será o resultado. É preciso haver renovação e incentivo nas escolas. Foi onde eu apareci no esporte. Agora, algumas nem têm aulas de Educação Física. Isto é muito ruim. O que veremos em 2020 é um pouco do Rio e outros que vão aparecer. Com toda a crise, fica um pouco difícil algo concreto, mas a tendência é que o apoio melhore. Isto te fortalece para planejar o ciclo. Brasileiro tem mania de querer as respostas imediatamente, mas em março, abril, as confederações terão seus orçamentos e renovação de projetos. Acho que é normal.

"Serei sempre a favor do jogo limpo. Você trabalha duro, deixa de passar o tempo com a família e os amigos para se dedicar. O único lado ruim é que, quando descobrimos que ganhamos uma medalha por causa de uma desclassificação por doping anos depois, perdemos a glória do pódio"

L!: A nova conduta da Wada de cerco aos atletas que se dopam dará resultado no futuro?
AC: Acho muito importante. Serei sempre a favor do jogo limpo. Você trabalha duro, deixa de passar o tempo com a família e os amigos, tudo para se dedicar ao esporte. A posição da Wada é certíssima. O único lado ruim é que, quando descobrimos que ganhamos uma medalha por causa de uma desclassificação por doping anos depois, perdemos a glória do pódio. Aquele momento de viver a conquista, de rever aquele filmezinho na cabeça depois. Mas os métodos de detecção estão cada vez melhores. Por mais que demore, a verdade aparece, como o bronze do Brasil no 4x100m em 2008, quando fui reserva. Achei muito bacana.

NR: As brasileiras Rosemar Coelho Neto, Lucimar de Moura, Thaissa Presti e Rosângela Santos herdaram a medalha após a comprovação de doping de uma atleta russa.

QUEM É ELA
Nome
Ana Cláudia Lemos da Silva
Nascimento
6/11/1988, em Jaguaretama (CE)
Idade
28 anos
Altura e peso
1,58 m e 57kg
Recordes
Nos 100m, quebrou o próprio recorde sul-americano em abril de 2015, ao correr em 11s01 no 57º Mt. Sac Relays, em Walnut (EUA). Nos 200m, fez 22s48, conquistou o recorde sul-americano no Troféu Brasil, em São Paulo, em 2011.