Erik Engelhart e Luis Fernando Coutinho
27/08/2016
07:05
Rio de Janeiro (RJ)

Se um brasileiro fâ de lutas é perguntado sobre qual é para ele o dia mais memorável do MMA em sua vida ele ao menos citará o dia 27 de agosto de 2011 em sua resposta. Não só para quem esteve presente na Arena da Barra, mas também para quem assistiu pela televisão, o UFC 134 (ou UFC Rio) ficou marcado de forma especial. Neste sábado, completam-se cinco anos daquela noite histórica, quando o MMA voltou a brilhar "onde tudo começou", diante de fãs sedentos para verem seus maiores ídolos de perto, o que alavancou de vez o sucesso da modalidade no país.

A primeira vitória aconteceu bem antes do UFC 134. No dia 15 de dezembro de 2010, uma coletiva de imprensa reuniu o presidente do UFC Dana White e alguns dos principais astros brasileiros da franquia: José Aldo, Anderson Silva, Vitor Belfort, Mauricio Shogun e até o aposentado Royce Gracie. Naquela quarta-feira, com o apoio da prefeitura do Rio de Janeiro, a organização anunciou o retorno ao Brasil após um hiato de 13 anos. A venda de ingressos foi um sucesso. Em junho daquele ano, os cerca de 14 mil ingressos se esgotaram em apenas 1h14m. O card de peso que reuniu astros como Anderson Silva, Rodrigo Minotauro, Mauricio Shogun, além de veteranos e estreantes brasileiros, foi como uma premonição de que a noite seria emocionante.

Depois da primeira luta, que teve o "Negueba" Yves Jabouin vencendo Ian Loveland na decisão dos juízes, Felipe Sertanejo entrou no octógono para o duelo contra Iuri Marajó.

- Foi meio que uma mistura de sentimentos. Fui chamado de última hora para aquele evento, tinha cancelado uma luta nos EUA, então estava bem chateado até que me chamaram para lutar. Aquilo foi a realização de um sonho. Estar na maior organização do mundo é muito louco. Lembro da torcida, assim que entrei escutei um barulho enorme. Queria olhar para cima, mas precisava ficar focado na luta. Estar lutando com os ídolos ao lado foi importante - lembrou o paulista, que fez sua estreia no evento sendo derrotado por Marajó.

A luta seguinte reuniu dois estreantes: Erick Silva e Luis Beição Ramos. O primeiro foi o responsável pelo primeiro nocaute da noite, em apenas 40 segundos, o que na opinião dele "acordou" a torcida que desde os primeiros minutos de show lotou a arena.

- Aquela noite foi incrível. Eu estava no meio de vários nomes conhecidos. Com uma vitória rápida na estreia, qual atleta não ficaria feliz? Adorei cada segundo lá em cima. Fiz uma das primeiras lutas, a torcida não me conhecia, então é normal que eles tenham torcido para quem estava melhor na hora. Foi o primeiro nocaute da noite, isso acordou a galera, eles ficaram eufóricos. Antes do nocaute nem percebi muito a torcida, mas depois aquela gritaria mexeu muito comigo. Depois da minha luta virei um torcedor para assistir as lutas de nomes como Minotauro e Anderson (Silva) - recordou o capixaba, que cinco anos depois vai para a 13ª luta de sua carreira no show.

Outro que saiu do cage derrotado mas realizado pela experiência foi Johnny Eduardo. Ele foi superado na decisão por Raphael Assunção no card preliminar e lembra do momento com carinho.

- Lutar essa edição foi sensacional. Fiquei amarradão, pois fui um dos escolhidos, meu nome estava em alta. Senti pressão por ter sido convidado para lutar a três semanas do UFC Rio, mas aceitei amarradão a oportunidade de ouro. A sensação foi maravilhosa, pude representar o meu país em um evento mundial, ainda mais na minha casa, né? - refletiu.

O evento ainda contou com a participação de Paulo Thiago. O policial do BOPE protagonizou uma entrada histórica ao empolgar a arena com a música "Tropa de elite", do grupo Tihuana. A vitória de Paulo foi seguida da apresentação de Toquinho, que fez parte de uma situação inusitada. Após derrubar o rival Dan Miller, o brasileiro achou que o duelo tinha acabado em nocaute e comemorou a vitória antes da interrupção do juiz.

- Acho que a euforia da própria torcida me fez achar que o combate tivesse terminado e acabei comemorando antes da hora. Quando o árbitro mandou eu descer do cage, não fiquei abalado, fiquei surpreso na hora, porque achava que tinha nocauteado. Mas depois voltei e consegui vencer por decisão. Foi uma honra, entrei para a história do esporte ali. Acho que todos que lutaram naquele dia de certa forma entraram para a história - afirmou Toquinho.

A última luta do card preliminar do UFC Rio, com a torcida já incendiada à espera dos combates principais principais, teve Thiago Tavares x Spencer Fisher. O brasileiro venceu o rival por decisão e comemorou a conquista no octógono com a bandeira do Brasil.

- Lembro que fui ao centro do octógono, me ajoelhei e bati com meus braços no tatame, gritando: "Eu que mando nessa p...". Foi um momento de muita emoção, eu só pensava que o americano não podia vir na minha terra e me vencer na frente de todos. O UFC Rio marcou uma era, foi um marco na história do nosso esporte. Todos queriam muito estar presentes neste dia e não é a toa que vimos o show que a torcida e lutadores deram naquela noite especial - garantiu.

Com a chegada do card principal, o coração começava a bater mais forte. O silêncio dos brasileiros que viram a derrota de Luiz Banha para Stanislav Nedkov antecedeu o "esporro" que estava por vir. Maior ícone da história do país no MMA, Rodrigo Minotauro caminhou para o octógono com muitas dúvidas e, por que não, medo o cercando. Diante do jovem Brendan Schaub, um desafio tamanho, que foi lançado à lona com a força da torcida.

- Me marcou muito o momento que recebi o convite para lutar. Eu estava de muleta, tinha feito uma cirurgia complicada no quadril e não sabia se conseguiria voltar em alto nível. Quando fui chamado, minha fisioterapeuta disse para eu não aceitar, que seria "maluquice" minha. Mesmo assim aceitei. Foi muito especial, nunca tinha lutado no Brasil, vivia um momento delicado. Esses fatores todos tornaram essa data muito especial. Poder fazer parte da história no esporte que você dedicou sua vida inteira é muito gratificante - recorda Minotauro, que nocauteou Brendan Schaub no primeiro round naquele que talvez tenha sido o ponto alto da noite.

Minotauro foi apenas a segunda luta do card principal. Depois dele, Edson Barboza venceu Ross Pearson naquela que foi escolhida a "luta da noite". O carioca não pisava no Brasil há anos - ele fora buscar evolução na carreira no MMA nos Estados Unidos anos antes. Mais difícil que bater o rival no octógono foi segurar a emoção.

- Uma coisa que é muito clara na minha cabeça é quando entrei para lutar. A cortina preta abrindo, eu começando a entrar com uma felicidade e vontade de chorar enorme... Tive que me segurar. Foi uma alegria enorme estar lutando naquele evento, e tinham alguns anos que eu não voltava para o Brasil. Eu sabia que estavam meus pais, meus amigos, todos me assistindo. Me deu uma vontade de chorar... Tive que segurar o choro na marra e ir para a luta. Fico impressionado como o tempo passa rápido - recorda-se o carioca de Nova Friburgo.

Outro astro muito comemorado da noite foi Mauricio Shogun. O brasileiro nocauteou Forrest Griffin na co-luta principal do show. Meses depois de perder o cinturão dos meio-pesados para Jon Jones, o curitibano se vingou com um nocaute da derrota no primeiro encontro com Griffin e deixou o octógono ao som de "o campeão voltou!".

- O que me deixou mais feliz em relação ao UFC Rio foi que pude voltar ao meu país, onde tudo começou pra mim. Foi uma alegria muito grande, e aquele evento foi a grande reviravolta do MMA no Brasil. A TV bateu recorde de audiência no horário, deu uma repercussão boa. A parti daquele evento, viram o MMA com outros olhos. Lutar em casa, com apoio da torcida, é muito empolgante e motivante. A lembrança que tenho mais emoção é a hora do nocaute,. A hora que consegui a vitoria é algo especial. A vitória recompensa toda dor e sacrifício - vibrou o ex-campeão dos meio-pesados.

Do outro lado do cage, mesmo derrotado, Griffin vivia uma mistura de emoções. Se por um lado ele apreciava a experiência de lutar no Brasil, terra do jiu-jitsu, além de poder performar no mesmo show do ídolo Rodrigo Minotauro, por outro ele teve de suportar a ansiedade pelo nascimento da filha, que veio ao mundo no dia seguinte a luta.

- O que me lembro é que era um dia muito bom para ser brasileiro. Era um ótimo dia para os fãs. Estava num card com Minotauro, que sempre foi uma das minhas maiores referências seja lutando ou me preparando para uma luta. Eu cresci vendo suas lutas, sou um grande fã e fiquei feliz de lutar no mesmo evento que ele. E Shogun também era um ídolo meu, também no Pride. Esperava uma grande luta, infelizmente não foi pra mim, tudo estava indo bem até que perdi. O resultado define tudo pra mim, mas foi uma ótima experiência - disse o americano, que conseguiu chegar aos EUA a tempo de ver o nascimento da filha.

Muitas emoções já tinham mexido com o coração do torcedor, mas ainda estava para acontecer o combate mais esperado da noite, que tinha Anderson Silva no octógono. Então campeão dos médios do UFC e dominante há quase seis anos, o brasileiro entrou no octógono para encarar Yushin Okami. Segundos antes da luta, um novo acontecimento épico. Pela primeira vez, o público entoou o famoso "It`s time" (é a hora) junto ao announcer Bruce Buffer.

- O público brasileiro disse "It's time" comigo. Eu não ouvi isso. Caminhei para fora do octógono e me falaram: "Você ouviu isso, Buff?" E eu: "Ouvi o que?". Alguém contou: "Todos disseram it`s time com você. Eu nunca vi aquilo na minha vida". Disse: "Você só pode estar brincando". Eu ouvi algo, mas fui para casa e assisti pela TV e foi "Oh meu deus!". Aquilo foi inacreditável. E agora fazem isso sempre. Outras pessoas de outras partes do mundo estão começando a fazer isso. No Canadá, Reino Unido, e até na América, mas nada como o Brasil. Brasil é... Não sei o que dizer. Não tenho palavras. É incrível - se diverte Buffer, relembrando dos brasileiros com carinho.

Para fechar com chave de ouro o evento, nada melhor do que o maior astro da companhia fazendo a festa. Sem maiores dificuldades, Spider nocauteou Okami e se vingou de uma derrota ocorrida anos antes, quando deu uma pedalada ilegal e saiu derrotado do cage contra o japonês. O desempenho do lutador levou o público à loucura.

- Aquela luta foi muito especial na minha carreira. Já tinha lutado com o Okami tempos atrás, acabei dando um golpe ilegal, sendo desclassificado por isso. Mas foi uma luta que teve um gostinho especial de revanche, um gostinho de poder lutar no Brasil e enfrentar um cara que já tinha me vencido - citou Spider, último brasileiro a lutar e vencer no UFC 134. 

O delírio com a vitória brasileira foi tanto que gerou o único ponto negativo da noite, que foram alguns copos de cerveja jogados no octógono. Cena lamentável, mas perdoável diante de tamanha emoção. No fim, o recado dado por Anderson Silva aos rivais  na ocasião se encaixa perfeitamente para o caso de tentarem comparar o desempenho de outros eventos brasileiros àquele UFC 134, em 27 de agosto de 2011. "Nunca serão, jamais serão".