Aigor Ojêda e Marcello Neves
17/04/2018
08:00
Rio de Janeiro (RJ)

"Estou pronto". Foi assim que Cristóvão Borges se despediu da reportagem em seu apartamento na Zona Sul do Rio e se apresentou para o mercado. Após um ano e meio de 'período sabático', o treinador abriu sua casa para o LANCE! e voltou a dar entrevistas após oito meses. Aos 58 anos, o 'novo Cristóvão' diz ter refletido sobre seus trabalhos e aproveitou a pausa para se reavaliar. Durante os 40 minutos de conversa, ele demonstrou a calma habitual para percorrer suas ideias sobre diversos temas que cercam o mundo do futebol: renovação dos técnicos no país, calendário, arrependimentos, Pep Guardiola e os seus planos para retornar à beira do campo ainda nesta temporada.

— Quando saí do Vasco, resolvi que tinha que parar e fazer uma coisa que sempre tive vontade, uma coisa que todos os treinadores têm vontade, que é refletir sobre o próprio trabalho. Eu vim de muitos trabalhos seguidos e você não tem tempo para fazer uma avaliação, das coisas que aconteceram, do que deu certo e errado. Eu resolvi parar, me dei um ano para estudar, fazer essa avaliação e uma reflexão sobre meu trabalho — declarou o treinador.

Entre as principais reflexões, Cristóvão indicou uma mudança na preparação. Ele disse estar buscando maneiras de fazer seu trabalho ter resultado mesmo com pouco tempo. Segundo ele, o calendário é uma das maiores dificuldades enfrentadas pelos treinadores do futebol brasileiro, o que classificou como 'reclamação recorrente' na categoria.

— Das reflexões que fiz, nós reclamamos muito do calendário. É algo recorrente, que dura muito tempo. Eu comecei a pensar em maneiras que o trabalho seja eficiente com esse calendário. É pré-temporada de uma, duas semanas e começa a competir. Procurei otimizar esse tempo de preparação, que é muito curto para competir. Para que aconteça uma evolução em um período curto de treinamento. Fui estudar, fiz cursos sobre isso. Conversei com o Ricardo Gomes, com amigos portugueses, a gente discute muito sobre isso — afirmou.

Fora do mercado desde março de 2017, quando foi demitido do Vasco após a eliminação na Copa do Brasil, Cristóvão revelou que recebeu propostas para voltar à ativa. Por não ter aceito, virou alvo de brincadeiras dos próprios amigos. Ele revelou que o objetivo foi se reinventar neste período. 

— Chegaram (propostas). Recebi, principalmente, logo nos primeiros meses. Tenho até alguns amigos que brincam comigo, falando: 'Você está milionário, não vai mais trabalhar?'. Eles sabiam que eu tinha recusado algumas propostas porque se não eu ia voltar e me repetir. Agora estou pronto. Tenho muita vontade, me sinto preparado, fresco, com muita vontade de mostrar o que aprendi, do que me preparei — contou.

Elogios à administração do Flamengo e o episódio de racismo

Cristóvão Borges assumiu o Flamengo em maio de 2015, ao substituir Vanderlei Luxemburgo. Seu contrato era de um ano, porém, deixou o clube antes do término - apesar de ser defendido pelo presidente Eduardo Bandeira de Mello na época. Para o treinador, os problemas de planejamento e os resultados insuficientes foram os responsáveis por ficar apenas 18 jogos no cargo.

— O Flamengo era o penúltimo ou antepenúltimo (quando assumiu) e era uma equipe que estava em busca de formação. Tivemos dificuldade de planejamento, era um trabalho de resgate. A gente tentou implantar algumas coisas, fizemos alguns bons jogos, mas não conseguimos resultados suficientes para ter sequência, que fizessem as pessoas entenderem que poderíamos seguir — admitiu. 

'A administração levará o Flamengo a ser o maior clube brasileiro'

Se hoje a gestão Bandeira de Mello é criticada por parte dos torcedores do Flamengo, na época de Cristóvão, era idolatrada. O trabalho de recuperação financeira do presidente estava em seu início e o treinador não teve um elenco milionário em mãos, diferente dos dias atuais. O ex-técnico rubro-negro elogiou o planejamento e prevê um grande futuro para o clube se mantiver essa maneira de ver o futebol. 

— O Flamengo estava e continua com essa maneira de administrar que acho que vai levar a ser o maior clube brasileiro. Isso ainda não é entendido, o que é uma pena. O Flamengo procura ser um clube saudável para fazer grandes investimentos. Quando trabalhei no Flamengo, fiquei muito entusiasmado com as pessoas que queriam fazer as coisas bem feitas. É um clube saudável, que vai investir e procurar uma equipe que encaixe, comissão técnica e um plantel de acordo. Quando conseguir, vai ser forte — elogiou.

O momento mais pesado da passagem de Cristóvão pelo Flamengo foi a acusação de racismo. Na época, o treinador questionou o tipo das críticas 'sistemáticas' que foram feitas ao seu trabalho. O treinador voltou a defender a igualdade, mas garantiu que o episódio não influenciou na sua passagem. 

— Aquilo não influenciou meu trabalho. Foi uma atitude isolada de um colunista que fez uma crítica preconceituosa, racista, foi só isso. Eu me manifestei e, quando existe uma manifestação sobre isso no Brasil, tem gente que acha que é exagerado. No país existe racismo, bastante, temos lutado e conseguimos avanços. A gente sofreu com isso, mas não me atrapalha — disse.

Cristóvão Flamengo
Cristóvão teve rápida passagem pelo Flamengo (Foto: Divulgação)

Sucessor de Tite e 'bola na trave' no Corinthians

A passagem do treinador pelo Corinthians foi conturbada desde o início. Com a saída de Tite para o comando da Seleção Brasileira, o clube paulista apostou em um treinador que ainda não havia conquistado título - foi uma das maiores críticas sofridas à época. Apesar dos pesares, Cristóvão considera que seu trabalho 'bateu na trave' em São Paulo. 

— Não tem a ver com título (ter atrapalhado na carreira). Você falou de Corinthians e Flamengo, são momentos e equipes com uma exigência muito grande. O resultado tem que ser mais rápido. São momentos que as coisas encaixam ou não. No Flamengo isso não aconteceu, no Corinthians foi por muito pouco, bateu na trave — atestou. 

'Montei uma equipe que foi líder do campeonato no Corinthians'

No Corinthians, ficou a mesma quantidade de partidas do Flamengo: apenas 18. Ele lembra do desmanche que o clube sofreu, perdendo peças importantes no período, mas lembra de um trunfo que é esquecido quando se recorda da passagem. O Corinthians, com Cristóvão, chegou a ser líder do Campeonato Brasileiro em determinado momento de 2016. 

— O Corinthians perdeu muitos jogadores, era um desmanche. Eu cheguei em um momento que estávamos fazendo coisas interessantes. O Rodriguinho e o Bruno Henrique (atualmente no Palmeiras) estavam chegando na melhor fase da carreira. O Elias voltou após um mês machucado. Nesse momento, montei uma equipe que foi líder do campeonato. Em menos de uma semana, o Elias pediu para ir embora e o Bruno Henrique também. Os dois foram embora. Acontece essas coisas — reconheceu. 

Cristóvão Corinthians
Técnico disse que 'bateu na trave' no Corinthians (Foto: Divulgação)

Retorno à Colina em 2017 e falha no planejamento

Cristóvão teve duas passagens pelo Vasco: em 2011, quando assumiu o trabalho deixado por Ricardo Gomes e foi vice-campeão brasileiro, e em 2017, quando não teve sucesso e foi demitido após a eliminação na Copa do Brasil. O treinador, querido pelo ex-presidente Eurico Miranda, revelou parte do planejamento que não deu certo na Colina.

— A passagem pelo Vasco não foi tão boa. Não estou me eximindo de nada, isso é responsabilidade minha também. No Vasco, tiveram fatores em série que aconteceram. Tivemos dificuldades financeiras, mas isso é com todo o futebol brasileiro. Chegamos com um planejamento com jogadores que chegariam pra ser titular, trabalhou-se muito, mas eles estavam em litígio com outros clubes — confirmou. 

'Pelas dificuldades financeiras, se você planeja mal, vai ter uma temporada ruim'

Se em 2011 foi a melhor passagem pelo Vasco, em 2017, talvez tenha sido a pior entre os clubes de sua carreira. O planejamento foi mal feito, segundo a avaliação do treinador. As consequências foram colhidas pouco tempo depois. Praticamente todo o elenco foi modificado em menos de três meses, o que dificultou o trabalho.

— A equipe que começou a temporada, que eu treinei, foi a equipe que disputou a Florida Cup (torneio de pré-temporada nos Estados Unidos). Quando voltamos, não era a equipe que tínhamos para a temporada. Assim fica muito difícil, por conta das dificuldades financeiras, se você planeja mal, vai ter uma temporada ruim — lamentou. 

Cristóvão Borges
Vasco foi o último trabalho de Cristóvão Borges (Foto: Divulgação)

Conceitos táticos e trabalho ideal no Fluminense

A passagem pelo Fluminense encantou o Brasil e tem lugar reservado na memória de Cristóvão. Ele assumiu em 2014 e renovou para 2015, onde quase levou a equipe para a Copa Libertadores. Ainda no período da Unimed, o técnico afirmou que conseguiu realizar o seu melhor trabalho no que pensa sobre futebol. Todos os conceitos táticos foram implantados no período.

— O Fluminense foi o trabalho que me deu mais prazer, mas até antes da Copa. Aquilo ali foi tudo que eu penso de futebol. Era um time que jogava com linha alta, que pressionava o adversário, que tinha uma forma de pressão em todos os momentos do jogo, que tinha o controle da bola. Tinha muita qualidade e técnica, jogadores com experiência — alegou. 

'O Fluminense foi o trabalho que me deu mais prazer'

O técnico também aproveitou para elogiar o técnico Abel Braga, que comanda o clube atualmente. Ele lembrou das atuações do início da temporada passada, onde conquistou a Taça Guanabara. Após as vendas de atletas, o rendimento caiu, mas Cristóvão elogiou a 'arte de se reinventar' do técnico tricolor.

— No primeiro semestre do ano passado, o Fluminense foi quem jogou o melhor futebol do país. O trabalho do Abel é admirável, é o único treinador que monta time de três em três meses. Ninguém jogou mais bonito que aquele Fluminense do primeiro semestre do ano passado. Depois teve que refazer, perdeu jogadores, mas continuou sendo competitivo.

Cristóvão Fluminense
Cristóvão teve período de sucesso no Fluminense (Foto: Divulgação)

BATE-BOLA COM CRISTÓVÃO BORGES

Substituir Tite no Corinthians
Cheguei no Corinthians no lugar do treinador que estava indo para a Seleção Brasileira. Então, não tinha motivo para sair. Ele era e é o melhor treinador do futebol brasileiro. É o mais preparado, pelo trabalho que fez, pelo que desenvolveu no Corinthians, com todas as mudanças e dificuldades. O Corinthians mostra que vai continuar sendo competitivo, porque o trabalho que fazem tem solidez.

Renovação com o Bahia
Eu fiz um trabalho no Bahia que teria sequência, mas o problema foi político, todo mundo queria renovar o contrato, a torcida queria, e esse ano conseguiu continuar na Série A. Foi um trabalho muito legal, mas na hora de renovar não entramos em acordo com a diretoria.

Ficou prejudicado por dirigir clubes em sequência?
Desgasta, tudo desgasta. Se dá certo, você tem uma superexposição, mas do contrário, também fica desgastado. Eu trabalhei em equipes seguidamente.

Você se considera um técnico da nova geração?
Existem treinadores de várias faixas. O meu caso é interessante porque tenho 58 anos, mas sou treinador há sete anos. Tenho experiência no futebol como jogador, auxiliar e treinador. Essa aposta é interessante porque são casos que coincidem. Lembra do Santos, do Diego e Robinho, quando surgiu? Não tinha condição econômica e apostou na base. Vimos isso acontecer no Fluminense também. Eu acho que a geração de treinadores também acontece por isso, por necessidade, por causa de treinadores novos que são capazes.

O 7 a 1 favoreceu essa nova geração de treinadores?
Eu discordo, porque muito antes já vinha se anunciando. Com Marquinhos Santos, Ney Franco, Enderson Moreira... Agora o Jair Ventura, Zé Ricardo, são mais recentes que o 7 a 1. É uma reflexão, acredito que tática deve ter um investimento muito maior. É uma educação que vai servir para todos.

Na Europa fala-se muito, valoriza-se muito, tem coisas que acontece aqui que, se fosse na Europa, seriam mais valorizadas. Vemos isso em avaliações de trabalhos, de treinadores, de jogadores. Durante um tempo se cobrou muito que os treinadores precisavam se atualizar. Os treinadores estão fazendo isso, estão buscando.

Tempo para trabalhar

Você vai trabalhar em um clube e dificilmente consegue construir alguma coisa. Os melhores resultados foram daqueles que ficaram mais tempo nos clubes. Marcelo Oliveira, no Cruzeiro, Cuca, no Atlético-MG, Tite, no Corinthians, Mano, também no Cruzeiro. Foram os últimos trabalhos que deram resultado. Eu passei a perceber que a busca do treinador é ter que trabalhar para ter tempo para trabalhar.

Cenário ideal e Estaduais
O cenário é o que a gente teve na temporada retrasada, quando conseguimos ter quase um mês de preparação. Diminuiu depois e esse ano foi pior por causa da Copa do Mundo. Você fala que Estadual é laboratório, mas serve para derrubar treinador.

Melhores equipes do Brasileirão
O Grêmio continua sendo um time que gosto de ver jogar. Eu gostei do Fluminense nessa fase final do campeonato, foi uma pena não ter passado. Gosto de ver o Santos, o Bahia... Palmeiras vai brigar, Corinthians de novo, acho que o São Paulo vai crescer. Tem outros times que podem encaixar como o Botafogo na reta final do Carioca, Cruzeiro com o Mano que está há mais de um ano...

Quem pode surpreender na Série A?
Eu fiz um curso na CBF com quase todos os treinadores e o Roger (Machado) estava lá também. A gente se conhece entre nós, treinadores, e torcemos muito um pelo outro. A gente vê um trabalho muito difícil. Eu acho que o Guto Ferreira está trabalhando bem no Bahia, o Chamusca, no Ceará, é uma surpresa. Pelo tempo e planejamento, o trabalho do Enderson, no América-MG, é muito bom. 

Guardiola e referências na Europa
Eu vejo cada time e me identifico. Vejo o Napoli, é um espetáculo. O Shakhtar, assisti coisas maravilhosas. Valencia... Isso para não falar de Barcelona, Real Madrid... O Manchester City, para mim, eu vejo muito e gosto porque o Guardiola é um treinador que é admirável. Ele é inquieto, incansável, e não aceita o que tá aí.

Copa do Mundo
O trabalho do Tite tem sido sensacional. Não esperava que tudo seria tão rápido, mas ele acreditou e foi. Conseguiu coisas, tem demonstrado solidez e faz a gente acreditar que vai disputar a Copa do Mundo para ganhar. A Argentina não se pode duvidar. Espanha, Alemanha, esses você pode esperar que vão estar lá no final com o Brasil. A Bélgica é uma seleção que sempre cria uma expectativa que vá fazer alguma coisa. A França tem valores individuais como poucos, mas acho que precisa de um coletivo mais forte.