Ana Canhedo e Alexandre Guariglia
26/08/2016
07:00
São Paulo (SP)

“...Ninguém conhecia melhor do que ele o mapa-múndi. Nenhum lugar, por mais longínquo que fosse, parecia-lhe desconhecido... Suas palavras pareciam ser ditadas por um sexto sentido, pois um acontecimento sempre acabava por justificá-las. Era um homem que devia ter viajado por todo o mundo”.

As palavras do francês Júlio Verne sobre Phileas Fogg em ‘Volta ao mundo em 80 dias’, embora datadas de 1873, parecem feitas sob medida para um jovem brasileiro que rodou por oito países para tentar jogar futebol. “Ao menos em espírito”, André Lamas conheceu cada partezinha do planeta Terra.

Ao LANCE!, o paulista de 27 anos contou sua trajetória no futebol. Depois de passar pela base do Corinthians, por Palmeiras B e Grêmio Barueri, foi do Japão aos Estados Unidos. Do Qatar à Itália. Passou por Turquia, Inglaterra e Portugal antes de voltar a São Paulo, pendurar a chuteiras e retomar o curso de Administração que havia trancado.

– De vez em quando, (empresários) ameaçam me chamar para essas viagens loucas. Mas eu ando resistindo bravamente – brinca.

“...Era uma daquelas pessoas matematicamente exatas que, nunca com pressa e sempre prontas, economizam seus passos e movimentos”, continua Júlio Verne em seu livro.

”Sempre pronto”, André foi do América de Rio Preto, time da sua cidade natal, à base do Corinthians em 2010. Sem espaço para subir ao profissional, foi levado por um ex-técnico ao Palmeiras B. Com o fim do projeto do time alternativo do Verdão, o garoto tentou a sorte na segunda divisão da Hungria, no Gyori ETO.

– Ninguém falava inglês, a tradução era para o russo, isso foi complicado. O lugar era maravilhoso, mas joguei pouco. Não deu certo – explica.

"Não dei certo no futebol. Arrependimentos? Tenho poucos. Prefiro agradecer as experiências"

Depois de um teste frustrado na Turquia em time ucraniano e antes de saber que lhe aguardava Japão, Itália, EUA, Inglaterra e Portugal, o ex-volante viveu bons momentos no Qatar. As chances iam aparecendo conforme sua lista de contatos aumentava (veja abaixo os detalhes).

– Meu pai recebia ligações de um empresário, 3 mil dólares por mês para jogar no Qatar. Eu topei. No Al-Shahaniya foi meu melhor período. Mas não fiquei lá. Esse foi um erro que eu cometi na minha carreira. Sempre que estava bem em um lugar, me focava ali e não procurava alternativas caso desse errado. Eu acreditava muito nas coisas. Tinha apenas um plano e ele tinha que dar certo e pronto.

– Não dei certo no futebol. Arrependimentos? Tenho poucos. Prefiro agradecer as experiências.

BATE-BOLA ANDRÉ LAMAS EM ENTREVISTA AO LANCE!

‘A conexão entre base e profissional do Palmeiras era horrível’

Como foi a experiência no Palmeiras B depois do Corinthians?
Fui titular. Me dediquei muito, mas não encaixou tão bem, embora tenha jogado todos os jogos. Colocaram na cabeça que eu fui por esquema do Ladeira (veja abaixo os detalhes). Nosso time foi mal e ele foi demitido antes de acabar o campeonato. A conexão entre base e profissional no Palmeiras foi a pior que já vi na carreira. E olha que meu irmão jogou no São Paulo, Santos e Cruzeiro, eu no Guarani, Cruzeiro, Corinthians... Em seis meses de Palmeiras, treinei duas vezes com o profissional. Vestiários separados, água separada... Quando acabou a A2, eles terminaram com a equipe.

Chegou a fazer teste na Turquia e a treinar no Japão? Como foi?
Sim, fiz teste no Metalurg Zaporizhzhya, time que fazia a pré-temporada na Turquia. Fui bem, eu que sou volante cheguei a jogar como camisa 10. Eles se interessaram por mim, mas um intermediário pediu mais dinheiro para o clube e melou o negócio. O cara quis levar dinheiro por fora e me prejudicou. No Japão, fui levado por um empresário brasileiro. Lá, troquei de hotel todo dia praticamente. Depois de muito tempo, me arranjou um time da quarta divisão. Era bacana, mas pagava muito pouco, então voltei para o Brasil.

Em Portugal, jogou com seu irmão? Como se sentiu com isso?
Joguei uma partida com meu irmão, o futebol de lá é parecido com meu estilo. Força. Foi sensacional estar em campo com ele. Depois de uma semana, avisaram que não ficariam comigo mesmo eu tendo ido bem. Fiquei irritado, mas acontece.

Amizade com Sandro e Oscar

De férias e curtindo o Carnaval no Rio de Janeiro, André recebeu uma ligação que o levou para a Inglaterra. Lá, conheceu Lion, empresário que o levou para ficar hospedado na casa do brasileiro Sandro, ex-Internacional. Embora sem clube, treinou no time B do Queens Park Ranger's e passou uma semana em avaliação no Watford. Além do volante, tornou-se amigo do meia Oscar, do Chelsea e de Lucas Silvestre, auxiliar técnico do Santos.

– Cara, quando eu pensei que isso pudesse acontecer? O Oscar é muito amigo do Sandro e ia direto lá jantar, Lucas é amigo do Oscar, juntou tudo isso. Foi um período bacana, importante.

NA BASE
‘Sonho’ de Corinthians terminou em saída precoce


Depois de jogar a Copa São Paulo de Futebol Júnior pelo América de Rio Preto, André foi levado ao Corinthians. Adaílton Ladeira foi seu primeiro técnico na equipe. Foram três anos de Timão e alguns empréstimos.

Fez um bom Campeonato Brasileiro sub-23 na época em que Afonso Armonia fazia parte da diretoria de base. Com o fim da temporada, algumas coisas mudaram no clube.

– Ladeira foi demitido e o time profissional mudou de comando, época que o Tite chegou. Perdi espaço e quando ia subir para o profissional vi que teria que percorrer todo o caminho de base novamente. Armonia já não mandava mais tanto, ninguém mais me conhecia por lá...

Então, o sonho transformou-se em pesadelo. Com Ladeira no Palmeiras B, André iniciou a jornada no rival.

A VOLTA AO MUNDO

Brasil

Começou a carreira no América de Rio Preto. Passou pela base de Corinthians e Palmeiras e ainda jogou no Grêmio Barueri no país.

Hungria
Do Palmeiras B, André foi para o Gyori ETO, time húngaro da cidade de Gyor.

Turquia/Ucrânia
No ano seguinte, fez testes na Turquia no time ucraniano Metalurg Zaporizhzhya, que disputava a Segunda Divisão.

Catar
Na cidade de Shahaniya, jogou no Al-Shahaniya, que também disputava a Segunda Divisão nacional na época.

Itália
Sem clube, tirou passaporte italiano e ficou algum tempo no país. Ouviu promessas de ir para o Pádova, mas a negociação nunca se concretizou de fato.

Japão

Foi para Tóquio e ficou dias sem clube, trocando de hotel diariamente. Treinou em academia pública no país. Chegou a passar alguns dias no Osaka, mas não recebeu proposta e voltou ao Brasil.

Estados Unidos
Depois de um tempo no Brasil, recebeu proposta para treinar e estudar nos Estados Unidos. Jogou no Corinthians da Califórnia por alguns meses.

Inglaterra
Na Inglaterra, hospedou-se na casa do brasileiro Sandro. Treinou sozinho no Queens Park Ranger's e depois no Watford, mas não se firmou.

Portugal
A última tentativa de ser jogador de futebol foi no Leixões, time do irmão, Bruno Lamas. Jogaram juntos, mas a equipe não renovou contrato.

OS PERCALÇOS

Má vontade de empresários

"Não levou ninguém para assistir a um jogo meu, não fez o trabalho que deveria ter feito, quando foi no Corinthians só falou 'Beleza', assinamos lá sem melhorar qualquer condição"

Empréstimos frustrados
"Quando você é da base de um time grande, você tem moral lá, mas quando você vai para um time, mesmo que seja pequeno, sempre vão ter uns caras mais velhos que já são rodados, com moral e você é considerado um moleque da base ainda"

Mudanças na base do Corinthians
"Eu estava quase no time de cima, ninguém mais me conhecia, não teria mais o meu contrato, a chance de treinar no profissional, ou seja, não via muita perspectiva. No Palmeiras B eu jogaria a A2, poderia ser o time B, mas era profissional"

Decepção no Palmeiras B
"A conexão entre a base e o profissional do Palmeiras foi a pior que eu vi, mais uma vez eu percebi que a chance de subir era muito pequena e aí quando acabou a A2 não teria mais nada para o resto do ano, pouco depois eles até desfizeram a equipe B"

Língua e concorrência na Hungria
"A comunicação no Gyori era meio ruim, então acabei não tendo oportunidade, eles jogavam com um volante só e o cara era bom (Linas Pilibaitis), era da seleção da Lituânia"

Intermediários pilantras
"Eles pedem uma coisa por você e o time nem sabe o que você quer de verdade. Por exemplo, o salário que eles me falaram que eu ia ganhar era 10 mil dólares, se eu ganhasse cinco, estava bom, provavelmente ele estava pedindo uns 20"

Decepção no Catar
"No futebol foi melhor, eu fui bem. Estava tudo acertado para renovar contrato com meu time de lá, fui para a Itália tirar meu pasaporte italiano, mas no dia seguinte o agente me ligou e disse que haviam mudado as regras no país. Eles não aceitariam mais os dois estrangeiros sub-23. Seriam apenas os três profissionais"

Decepção na Itália
Um empresário amigo do meu irmão me disse que eu iria para o Pádova. O cara me recebeu no aeroporto falando que o treinador perdeu de 4 a 0 em casa e que havia sido demitido. Aí eu já entendi tudo. Não tinha nada pra mim ali"

Passagem pelo Japão
"Da Itália, me mandaram para o Japão, fui para o Osaka. Fazia -2, -3 graus. Eu peguei neve. Um time da quarta divisão pagaria 800 dólares e pra mim era pouco. Mas o agente disse que eu só treinaria lá. Passaram mais 15 dias e nenhuma proposta. Voltei"

Volta ao para o Barueri e mais decepção
"Eu treinei uma semana e o sócio da empresa que me convidou para jogar lá, rompeu sociedade por uma briga. O outro sócio só queria levar jogadores do técnico e o cara que me conhecia acabava sem influência. Então só me ferrei!"

Férias na hora errada no QPR
"Na Inglaterra me levaram para treinar no time B do QPR, mas o treinador do principal gostou de mim e me chamou para treinar algumas vezes com eles. Era final de temporada e o treinador disse que iria me ajudar. Eu fiquei empolgado e pensei 'agora vai!!!'. Mas aí o que aconteceu? Eles entraram em férias. Foi cada um para um canto e eu fiquei lá treinando sozinho"

Da Inglaterra para Portugal, de Portugal para a aposentadoria
"A convite do meu irmão, fui treinar no Leixões com ele, no primeiro dia fui mal. De repente comecei a melhorar e fui muito bem. Começamos a achar que daria tudo certo e ficamos felizes. Depois de uma semana que eu fui bem em um amistoso, me chamaram e disseram que havia muita gente na minha posição e que não aconteceria nada, nenhum contrato. Voltei para o Brasil para terminar minha faculdade no Mackenzie e agora estou trabalhando"