Luiz Fernando Gomes
18/05/2016
19:00
São Paulo (SP) 

Cada uma das ligas europeias tem uma política própria de negociação dos diretos de TV dos campeonatos nacionais. De uma forma geral, contudo, diferentemente do Brasil, onde os clubes estão negociando separadamente e as mídias do grupo Globo controlam as transmissões em todas as plataformas - da TV aberta à fechada, da internet ao pay per view, - as negociações são específicas de cada meio, às vezes incluindo acordos até com veículos concorrentes. Assim, claramente, o poder de negociação das ligas aumenta e o faturamento dos clubes também cresce.

A Premier League, na Inglaterra, é o melhor exemplo de como a negociação conjunta dos direitos e o estímulo à concorrência aumentam os ganhos dos clubes. Pelos novos contratos, a liga arrecada anualmente US$ 2,6 bilhões, o que faz do futebol inglês a segunda modalidade mais bem paga do planeta, nos mesmos patamares da NBA (a liga de basquete dos Estados Unidos) e atrás apenas da NFL (liga do futebol americano). 

Na Inglaterra, não há jogos em TV aberta. Apenas a estatal BBC transmite os melhores momentos. Em compensação, dois canais fechados transmitem, em dias e horários diferentes, as partidas da liga. Foi isso que valorizou o produto, levando a arrecadação dos clubes a patamares estratosféricos.

Na prática, a Sky Sports e a BT Sports não competem entre si. O primeiro transmite jogos principalmente nos domingos à tarde e o jogo de segunda. O segundo fica com as partidas de sábado na hora do almoço e os jogos de meio de semana à noite. As diferenças de tecnologia também influenciam e só a Sky tem direitos a transmitir em 3D por exemplo.

Na Alemanha, apesar da força do futebol local, o faturamento com a comercialização de direitos é inferior ao de outras ligas, ficando em cerca de US$ 800 milhões por ano. Um dos fatores é que a Bundelisga faz na Europa a única negociação de direitos conjuntos da primeira e da segunda divisões. Mas a participação expressiva da TV aberta na audiência do futebol, somado ao baixo preço do ingresso médio, acabam por ajudar a desvalorizar o produto. Ainda assim, a Alemanha consegue manter a divisão de cotas mais equilibrada entre os principais campeonatos, com uma variação de 2,5 para 1 no valor recebido entre o primeiro e o último clube da lista.

A situação mais controversa é a da Espanha. Ali, apesar do estímulo à concorrência entre emissoras, as negociações de contrato de TV são individuais, como a Globo tem feito no Brasil, o que provocou um abismo entre os valores recebidos por Barcelona e Real Madri, 11,6 vezes maior em relação a alguns clubes. Isso, além de reduzir a força da liga - ao todo, os direitos geram cerca de US$ 900 milhões ao ano, ainda prejudica outras fontes de receita dos clubes: com um campeonato mais fraco, os contratos comercias, as verbas de patrocínio também perdem valor e todos acabam sofrendo.

Quatro canais transmitem os jogos da liga, divididos entre TVs abertas e fechadas. o Canall+ 1 escolhe o melhor jogo da rodada, o Gol Televisión transmite oito jogos e o Canal Cuatro passa um jogo em TV aberta. À estatal TVE cabem apenas os melhores momentos de cada rodada.

O desafio que os espanhóis têm pela frente é rever o modelo atual, sem sacrificar Barcelona e Real Madri, sob pena de enfraquecer o papel dos grandes clubes nas competições continentais - com o tricampeonato do Sevilla na Liga Europa e a final entre Atlético de Madrid e Real na Liga dos Campeões, este será o terceiro ano seguido com um time espanhol conquistando as duas principais competições do Velho Continente. Para isso, é preciso aumentar o bolo para subir a cota dos demais clubes, e a retomada das negociações conjuntas - o que conta com a simpatia do governo, maior credor dos clubes espanhóis - é considerada a melhor alternativa a seguir.