Tite Técnico Corinthia (foto:Reginaldo Castro/LANCE!Press)

Ao lado do filho, o auxiliar Matheus Bachi, Tite posa para câmeras do LANCE! (foto:Reginaldo Castro/LANCE!Press)

Bruno Cassucci
27/11/2015
07:10
São Paulo (SP)

Tite reservou a última quinta-feira para uma maratona. Entre jornais, sites, revistas e emissoras de TV, ele concedeu mais de dez entrevistas exclusivas, cada uma com cerca de meia hora. Em todas, manteve o sorriso no rosto, fez algumas brincadeiras e soltou frases de efeito.

Em meio a lembranças, reflexões e celebrações da temporada que se encerra, houve também espaço para olhar para o futuro. E foi ao projetar 2016 que o comandante alvinegro falou de forma mais incisiva. Questionado pelo LANCE! sobre uma possível saída de jogadores, ele alterou o tom de voz, avisou que seria enfático e afirmou:

– O Corinthians quer crescer? Tem que ver o que quer. Se saírem atletas, vai dar um passo atrás!

Ao mesmo tempo que se preocupa com o futuro, Tite também confia no sucesso, por ver um grupo mais maduro e em constante evolução. Nem por isso deixa de pedir publicamente reforços de qualidade.

Abaixo, você confere algumas das análises, opiniões e declarações bem humoradas do técnico (hexa) campeão nacional e ídolo da Fiel, que cogita adotar um novo estilo nesta próxima temporada.

O Corinthians não só é campeão, como lidera diversos quesitos no Brasileirão e ainda pode bater mais recordes. O que mais te orgulha na campanha?

O crescimento da equipe durante o ano. Cresceu mais que eu esperava. Não dá pra medir potencial da equipe, mas se pegar todos os atletas no início do ano e ver como estão agora, é impressionante a evolução. O Cássio, por exemplo já tinha qualidade comprovada, mas amadureceu e aprendeu a jogar com os pés. Se pegar Fagner, Gil, Felipe... O Rodriguinho se reinventou numa nova função! A equipe encantou no início do ano, mas saíram peças e eu fiquei preocupado. Saiu o Fábio Santos, nossa liderança, capitão, outras cinco, seis peças. Só que aí o presidente falou “Não vai sair mais ninguém”, e isso foi importante para retomarmos o nosso caminho.

Você fala em crescimento, mas entende que o time terminou o Brasileiro jogando melhor do que na Libertadores, quando encantou na primeira fase?

A pergunta é boa... Ele estava mais maduro, por isso que conquistou. Não sei se o nível técnico era melhor ou pior no Brasileiro, mas o time aprendeu a ser mais estável nos últimos jogos e teve o mesmo padrão da Libertadores e do Paulista.

Tite Técnico Corinthians (foto:Mauro Horita/LANCE!Press)
Tite tem seis títulos no Timão (foto:Mauro Horita/LANCE!Press)


É claro que os resultados ainda não são os mesmos de 2012, mas o desempenho do Corinthians já o parecido?

São etapas diferentes, não dá para comparar. Em 2012, não era tão bonito, tinha outro jeito de jogar, mas nem por isso deixava de ser encantador. Minha forma de comandar e de interação era diferente também. Eu era mais contundente, ia para dentro dos caras e exigia, cobrava, desafiava, mudava tom de voz. Tinha Emerson, Guerrero, Paulo André, Chicão... tudo cobra criada, cara. O que tu [sic] bota de desafio eles matam no peito e saem jogando.

Acha que em 2016 dá para voltar a ter esse tipo de postura?

Sim. É uma mudança que pode ter, vou observar. Este ano não era para ser assim, mas em 2016, é possível. O Fábio Carille (auxiliar técnico) me falou: observa que a sintonia do grupo é outra, ele responde diferente à orientação, ao plano visual, a uma conversa em particular, uma conversa em tom mais baixo. Meu jeito não é aquilo que quero, é o que a equipe precisa. Esse ano foi mais educativo, em 2016 pode ser mais desafiador.

E taticamente, será preciso criar alternativas? Teme que a equipe se torne um pouco “manjada”?

Temos plano A, B e eventualmente uma situação diferente. Nós já temos o 4-1-4-1, que pode se tornar 4-2-3-1 ou duas linhas de quatro com dois na frente, que se ajusta e se molda. O que não da é a mudança na linha de defesa de quatro para três jogadores. Creio que dentro do sistema de jogos temos alternativas que vão dando variação.

Mesmo já tendo isso, acredita que precisará de reforços?

Sim. Sempre o Corinthians vai ter, o atleta tem que ter e eu tenho que ter busca por crescimento. É importante trazer atletas de qualificação. O segredo do sucesso de uma equipe é ter dois atletas por posição, para que o jogador olhe para o lado e diga “O cara ali está jogando muito”. Como foi o Elias, quando o Rodriguinho entrou no lugar dele. Isso bota pressão.

Serão poucas contratações, não?

Não falo em número, mas na busca por qualificação, mais do que quantificação. É como o Bayern de Munique (ALE), que tem Ribery e Robben e contrata o Douglas Costa. Claro que isso acontece em outro nível e com outro investimento, mas a nossa busca por melhora é igual.

No meio do ano você teve um papel importante, quando o clube vivia uma crise, algumas referências do elenco saíram, e você convenceu outros atletas a não deixarem o Corinthians. Neste momento, numa situação diferente, pretende agir para evitar possíveis baixas no elenco?

Eu vou deixar bem claro: eu não ajudo em nada. O que faço: peço para o atleta refletir muito em cima da sua decisão e ouvir as pessoas que estão próximas a ele, esposa, filhos, pais... Quando tem núcleo familiar forte, se está bem e feliz, você está perto de atingir o sucesso. Já quando não está bem estruturado, fica mais distante de alcançar objetivo. Fiz isso com Paulinho, Jadson mais recentemente...

Então deixará apenas com a diretoria essas questões de possíveis vendas de atletas?

O Corinthians quer crescer? Tem que ver o que quer, a entidade, o presidente, a torcida, o conselho deliberativo. Minha opinião: permaneça com seus principais atletas, não venda, é o maior investimento que tem para que as possibilidades futuras de desempenho e títulos que venham a valorizar cada vez mais os jogadores. Depois que termina um estágio, se for campeão do mundo, refaz tudo. Este agora é um ciclo inicial. Se interromper, se saírem atletas, o clube vai dar um passo para trás, vai dificultar mais, é inevitável. Permanecendo com esse elenco, o Corinthians vai estar próximo de crescer, evoluir, inclusive de valorizar esses atletas e ter recompensa futura. Os atletas permanecendo, vão ter oportunidade de crescimento maior. Ninguém me diz que Fagner e Felipe não podem ir para a Seleção, como Gil foi, Renato foi, Jadson pode ir...

Você citou Renato Augusto e Jadson, dois dos destaques da sua equipe no Brasileirão. Qual dos dois você aponta como craque do campeonato?

O que fechar o olho e bater! (risos) Sempre o craque do campeonato é um atleta ofensivo, o criador ou o finalizador, isso é quase institucional. Qualquer um dos dois que pegar o prêmio, Jadson ou Renato, estará bem escolhido. Se eu fosse o dono de um jornal ou revista que oferecesse premiação, abriria o precedente e dividiria o prêmio. Não é demérito! Eu daria o prêmio para os dois. Eles fizeram um campeonato excelente.

E sua seleção do Brasileiro?

Poxa vida... Vou deixar para o churrasco, não falarei aqui para não ser injusto. Eu não acompanhei todo o desempenho do Jemerson, que joga para c... É injusto eu comparar com o Gil, por exemplo, que eu vejo todo dia.

Ficou claro que, após um ano sabático em 2014, você voltou ainda melhor nesta temporada. Como fará para seguir melhorando no próximo ano?

Estando atento às novidades, acompanhando grandes equipes do mundo e do futebol brasileiro. Mas a primeira etapa quando voltarmos em janeiro será retomar o padrão que estávamos antes das férias. Não dá para pular etapa. A partir daí vamos buscar acréscimos, criatividade... Às vezes a gente acerta por ensaio e erro. O Rodriguinho, por exemplo, eu não imaginava que ele poderia produzir o que está produzindo agora. Começou enfiado, não fluiu. Eu tentei escalá-lo na vaga do Renato Augusto, depois na do Jadson, e ele veio estourar na do Elias, jogando mais atrasado. O fato de ser ambidestro ajudou, ficou mais difícil marcá-lo vindo de trás. O jogo que ele fez lá contra o Atlético-MG foi brincadeira. Evoluiu barbaridade.

Foi o jogador que mais te surpreendeu nesta temporada?

Foram o Lucca e o Rodriguinho. E eu sabia do potencial do Lucca, da história dele. Mas chegar na equipe da forma que ele chegou? Ele entrou contra o Santos e na primeira bola clareou o gol. É muito difícil. E o Rodriguinho me chamou a atenção por já conhecê-lo, mas por essa mudança... A qualidade de passe, a “visão 3D”. Ele fez uma tabela com o Jadson diante do Atlético-MG, num lance de gol, que foi impressionante. Me surpreendeu também o Yago de lateral. Falei “Estamos f... sem alguém da posição contra o Santos.
E ele jogou uma enormidade. O Marciel foi outro... Houve vários.

Restam dois jogos neste ano. Como manter os jogadores motivados após o título?

Alguns estão mais desgastados, porém, o grupo no seu conjunto também é movido a desafios. Igualamos número de pontos, mas podemos ter o maior da história, isso é significativo. Tem uma série de desafios aí para essas partidas.

Em um momento triste, quando um garoto boliviano foi morto na arquibancada durante uma partida do Corinthians em 2013, você disse que trocaria aquela vitória pela vida dele. Agora, num momento de alegria, há algo que te faria trocar o título brasileiro?

Troco tudo pela saúde das pessoas. Falo isso na oração antes do jogo. O doutor mesmo me disse que pela primeira vez ouviu na preleção uma referência à saúde da outra equipe. Com saúde, você consegue ter uma arma para desenvolver tudo.